“A ESCOLA NA DEMOCRACIA”. Entrevista a Pedro García Olivo, para o jornal anarquista “El Amanecer”

O anarquista que trabalha para o Estado, dando classes por exemplo, encarna a máxima contradiçom concebível, o cinismo mais vergonzante: nom se engana em absoluto, nom é vítima dumha ilusom, dumha mentira interior (…), pois o sabe tudo, sabe para quem se vende, a câmbio de que se lhe paga, a ignomínia da sua ocupaçom e da sua vida, e segue com tudo adiante…

idea 1 Navigando, navigando, arrivei por azarosos ventos (e porque tinha que chegare) a esta intensa entrevista sobre a escola em democrácia a meu bo amigo Pedro, cabreiro incipiente (ou já nom tanto), mestre da vida e pedagogo transgresor; de-la recolho (e traduzo) a sua resposta a primeira pergunta que versa sobre Universidade e Anarquismo, se bem convido a sua leitura á íntegra (em castelám) nesta ligaçom ao seu blog “Los Discursos Peligrosos”

Sendo a Universidade um campo de concentraçom, onde circulam tanto amos como escravos (académicos e estudantes), estes últimos ainda insistem en recorrer a ela como umha saida ou bem como um ponto de encontro: talheres, foros, encontros, atividades, etc.
Vostede tamém foi partícipe de-la, seja desde o espaço académico de formaçom e mais tarde como um ouvinte (…).
Cabe perguntar-se o seguinte: ¿É válido fazer desde ali um dano ao aparelho educativo e como ve vostede esta enorme contradiçom de seguir recorrendo ou buscando ne-la umha espécie de mobilidade social ou se, prefíre-o, umha espécie de conciezaçom de massas?

Na minha opiniom, as demandas de educaçom pública, de qualidade e gratuíta, som um signo da prostraçom contemporánea do pensamento crítico e da praxe antagonista. A escola pública, universal, como pretendido “direito”, é umha esixência clássica do Capitalismo consolidado. O Sistema require escolas, ou bem estatais ou bem para-estatais (privadas, concertadas, semi-públicas,…), cumha preferência crecente polos projectos nom-directivos, a miudo de inspiraçom libertária… Acabo de participar na Semana das Educaçons Alternativas de Bogotá, evento sufragado com fundos públicos, desde os aparelhos políticos e as quotas de poder da esquerda, da socialdemocracia, do progressismo reformista. Evidenciou-se lá um interese maiúsculo das administraçons, seguindo pautas emanadas do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, da Unesco e de certa tecnocracia educativa moi influente a escala global (pensemos en E. Morin, co seu celebrado e sinistro manifesto: “Os sete saberes necessários para a educaçom do futuro”) e dos modelos propostos polas poténcias hexemónicas, em “reformar” a Escola, em afasta-la dos prototipos autoritários clássicos, que já nom servem para reproduzir o Sistema, e em organiza-la desde as pautas do “alternativo”, o “nom-diretivo”, o “ativo e participativo”, o “dialógico”, o “democrático”, o “assembleário”, etc. A “Escola alternativa” pola que se clamava nesse encontro (que se inscreve numha longa série de eventos semelhantes, em todos os continentes) será amanhã a “Escola oficial”, e de feito já o é hoje em parte de Europa: é a Escola por fim readaptada a umha fase do Capitalismo que já nom require, sem mais, “operários docis e votantes crédulos”, senom “cidadáns assertivos, emprendedores, organizativos; gentes criativas, imaginativas, associativas” sempre —e este é o aspecto crucial— desde a aceptaçom franca do dado, desde a instalaçom plena no sistema ou, polo menos, desde o desejo irrefreável de acomodaçom. Para este novo perfil demandado pola máquina política e económica já nom serve a escola tradicional; precísa-se umha Escola Renovada, e há um interese maiúsculo, nas agéncias económicas e nos poderes políticos, em promove-la.

Pero, como aconselhava Maquiavelo, tal “esigência do Sistema” nom ha de ser meramente imposta: convém que seja o povo, a cidadania, o comum das gentes, quem a demande, quem “loite” por e-la, mobilizándo-se, enchendo as ruas, enfrontándo-se mesmo coa polícia, recebindo golpes e padecendo cárceres, sonhando “conquista-la”. Quando o clamor popular seja notável, e tudo o mundo aspire á reforma, o Príncipe, num gesto de sensibilidade social e de amor aos seus súbditos, “concederá” aquilo que, desde o princípio, desejava “decretar”. Nom imponheria “nada”: dira-se que cedeu ante umha aspiraçom cidadá, ou que a atendeu polo menos.

Este é o nosso caso: as demandas de Educaçom Pública Universal, de Escolas Renovadas, de Pedagogias Aternativas, de Reformismo Metodológico, etc., som alentadas hoje polos poderes estabelecidos, ainda que se permitam o monicreque dumha repressom dos demandantes, ainda que enquadrem fronte a eles polícias e outras esquadras brutais. Estamos, aqui, no ámbeto da “conflitividade conservadora”, da “desobediência inducida”, do que Foucault chamou “ilegalismo útil”, política e ideológicamente rendível.

Um mínimo ponto de radicalidade no questonamento do dispositivo de ensino conduce a nom aceitar a estatalizaçom da educaçom; a nom tolerar a figura “demiúrgica” do Professor, a hipóstase do “peche formativo” e o discurso anestésico-narcótico das pedagogias todas, incluidas as nominalmente libertárias.

A segunda parte da vossa pergunta expom umha questom complexa, que nom tenho resolta dum modo satisfatório… Como “cemitério do espírito”, que dizia A. Artaud, é moi pouco o que cabe esperar da Universidade para a crítica nom subornável e os anelos de transformaçom. Pero cabe discutir o alcance desse “moi pouco”….

Eu nunca simpaticei coas estratégias “entristas” ou “de infiltraçom”, que falavam da necessidade de tomar “progresivamente” os centros de poder, para dalgum modo desnaturaliza-los e volve-los contra a sua funcionalidade originária. Vim ai meras racionalizaçons do desejo de instalaçom, da vontade de acomodo. Os professores da Escola de Frankfürt, com Adorno e Horkheimer á cabeça, ilustrárom-nos tristemente sobre a miséria de dita tática: aspirar, diziam, á “pequena desviaçom”, á “diferença mínima”, desde os mesmos aparelhos do Estado, incluida a Universidade, como refúgio último da esperança emancipatória. Um gram radicalismo verbal conjugáva-se ne-les coa completa adaptaçom á maquinária política e cultural capitalista (de ai o seu assentamento na Universidade, o seu éxito académico, a sua poderosa estrutura editorial, as suas confortáveis vivendas, o seu aburguesamento existencial,…). Detesto essa sorte de cinismo, essa divisom esquizoide entre o pensamento e a vida; e nom me parece sinceira a sua aposta por umha ingresom rebelde no sistema universitario… Em Espanha, tivemos os casos, quizás ainda mais lamentáveis, de celebrados “anarcofuncioários”, empoltronados na Universidade, vivendo do seu inimigo declarado: o Estado. O anarquista que trabalha para o Estado, dando classes por exemplo, encarna a máxima contradiçom concebível, o cinismo mais vergonzante: nom se engana em absoluto, nom é vítima dumha ilusom, dumha mentira interior (se fosse presa dum auto-engano, no sentido de Nietzsche, se “cre-se” no seu ofício, ainda lhe caberia certa desculpa), pois o sabe tudo, sabe para quem se vende, a câmbio de que se lhe paga, a ignomínia da sua ocupaçom e da sua vida, e segue com tudo adiante…

No “carácter destrutivo”, W. Benjamin ofrece umha descriçom que se fai cargo admiravelmente da psicologia destes súcios personagens… Em efeito, num texto quizais ambíguo, este frankfürtiano díscolo descreveu um tipo de carácter, umha estrutura da personalidade, que, na minha opiniom, acha entre os “professores esquerdistas” dos nossos dias nom poucos exponhentes: o “carácter destrutivo”. Esta psicologia, que termina alagando o pathos destrutivo na conformidade e ata na reaçom, que atopa o seu referente social na pequena burguesia descontentadiza (ou nos seitores revoltosos da classe méia, por utilizar outra expressom), e que tamém caracteriza a um segmento da classe empresarial, distíngue-se pola insistência no rejeitamento visceral e nas propostas demoledoras desde um certo acomodo, desde umha inocultável seguridade, desde um estar a salvo das consequências previsíveis daquel rejeitamento e daquela demoliçom. O “carácter destrutivo” avoga por umha conmoçom na que nom arrisca persoalmente nada, uns trastocamentos que em nada afeitam o seu mundo. Nom se compromete verdadeiramente, nom se involucra até o fim, nas loitas que proclama, nos conflitos que suscita, nas convulsons a que assiste. A sua beligerância, o seu radicalismo, a sua desconformidade, é, exactamente, de índole ritual, escenográfica, e tem que ver, por umha banda, com certa “subida do pano” professional e, por outro, cumha particular conformaçom do seu carácter —cum desdobramento da sua psicologia que reconcilia, como dizia, a sede de crise co conservadurismo secreto, o apetito de inferno co amor de Deus, os gestos da negaçom insubornável co suborno dumha afirmaçom nom-declarada. Em tanto “carácter destrutivo”, o universitário progressista incapacíta-se para a verdadeira praxe transformadora, disolve e inoculiza a sua aparente insubmissom num aparato de ritos catárticos, numha gesticulaçom simbólica de home que nega as cousas deste mundo porque nom periga o seu benestar neste mundo e que parece amar a desorde polo excesso mesmo da orde que instaurou sobre os assuntos da sua vida. Ritual e case hipócrita, a ‘destruiçom’ pola que suspiram moitos professores contestatários vale o mesmo que umha consigna de rebeliom escrita na areia da praia por um home desocupado que toma o sol entre bocejos: nom é sincera, e borrara-a qualquer pequena onda…

Pero pareceu-me tamém que, em situaçons concretas, pode resultar interesante desatar discursos críticos, anti-escolares, anti-universitários, na mesma Instituiçom. Por umha banda, o pensamento de-sistematizado sae assim, dalgumha maneira, do seu gueto natural, dos seus circuítos ás vezes sectários, e alcança a receitores, a públicos, nos que pode realmente “estalar”. Tráta-se dumha certa transgresom da orde do discurso, que se dá raras vezes, e na que eu gosto de involucrar-me. Expor, por exemplo, com toda rotundidade, sem méias tintas, um discurso desescolarizador na própria Universidade, ante estudantes desprevidos, de cuja formaçom se excluirom sistematicamente tais perspectivas (duas ou tres linhas concedidas á figura de I. Illich, como máximo, nas aulas de pedagogia), pode resultar conmocionante e pode lançar a moitos moços tras a pista de textos e experiências que nem se imaginavam. Já sabedes que eu abandonei há anos o ensino, a minha própria condiçom de educador “mercenário”, experto em pedagogias alternativas que encantavam por certo ás autoridades educativas e á própria Inspeçom, procurando viver duns hortos no méio rural-marginal, dando as costas progresivamente ao mercado e ao Estado, numha experiência terminal da liberdade possível. Por esse lado dei o cu á Universidade, e procurei soltar um peido no seu rostro… Pero, como a minha autosuficiência nom é ainda absoluta, e há alimentos que nom posso produzir, mais o gasto desta conexom mínima a Internet que me permite falar convosco e cos amigos, para nom volver-me tolo de soidade, a final de contas, por esta imposibilidade temporal da autarquia, dizia, de quando em vez déixo-me contratar por algumha Universidade para desatar no seu seio, como pedradas contra o estabelecido, discursos anti-escolares. Os vínculos que fum estabelecendo com estudantes que me escuitarom assombrados e empezarom a reformular-se algumhas cousas, fai-me crêr que essa esporádica transaçom (nom me ocorre mais de umha ou duas vezes ao ano) arroxa tamém uns “efeitos colaterais” que som dignos de atender. Tamém é possível, amigos, que me estea auto-enganando neste momento; e, de feito, nom tenho claro este assunto, conféso-o. Ás vezes determino nom pisar nunca mais umha Universidade, nom volver dar charlas mesmo, em nenhures, recuperando o ideal de Antístenes o Quínico: “Esconde a tua vida”, “borra as tuas pegadas”, “prescinde de todo público”… Pero, noutras ocasións, sedúce-me mais a beligerância de Diógenes o Can, o seu discípulo, cos seus espectáculos provocativos, disgregadores, a sua necesidade (¿patética?) de auditório … Oscilo dum extremo a outro, porque nom há méio caminho practicável. Calo por meses, e logo falo demasiado —tamém em Universidades.

Tendo, em conjunto, a nega-la prática docente na Universidade, se se alentam fins antagonistas; pero nom me pecho em banda á utilizaçom seletiva, circunstancial, dos seus espaços, na medida em que se preserve a autonomia e independência dos convocantes e dos convocados…

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