Curdistam: Construindo a Democracia sem Estado x Dilar Dirik

Dilar Dirik, 23 anos, fai parte do movimento das mulheres curdas, escritora e estudante de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge. Escreve regularmente sobre o movimento de libertaçom curdo em vários meios de comunicaçom internacional. Este artigo foi publicado originalmente em Roar Mag e depois em Kurdishquestion e o recolho da verssom galega de Curdistam.blogaliza:

“As pessoas entram na casa um do outro com os seus filhos para criticar ou discutir ou sugerir idéias sobre como melhorar as suas novas vidas”.

Quando as primeiras pessoas chegarom a nossa casa há alguns anos atrás para perguntar se a nossa família gostaria de participar nas comunas, eu atirava pedras contra eles para mantê-los longe, ri Bushra, umha jovem de Tirbespiye, Rojava. A mae pertence a umha seita religiosa ultra-conservadora. Antes, ela nunca tinha sido autorizada a sair da sua casa e cobria todo o corpo, exceto os olhos.

“Agora eu formo ativamente parte da minha própria comunidade”, di ela com um sorriso orgulhoso e radiante. “A gente procura-me em busca de ajuda para resolver problemas sociais. Mas, no momento, se tivesses me perguntado, eu nom teria sequer conhecido o que significava “conselho”  ou que fai a gente nas assembléias.”

Hoje, em todo o mundo, as pessoas recorrem a formas alternativas de organizaçom autónoma para dar significado a sua existência mais umha vez, de modo a reflectir a criatividade do desejo humano de expressar-se com liberdade. Estas coletividades, comunas, cooperativas e movimentos de base podem ser qualificadas como mecanismos de auto-defesa do povo contra a invasom do capitalismo, o patriarcado e o estado.

Ao mesmo tempo, muitos povos indígenas, culturas e comunidades que enfrentam a exclusom e a marginalizaçom tenhem protegido os seus caminhos comunalistas de vida até este dia. É surpreendente que as comunidades que protegiam a sua existência contra a ordem mundial evoluindo em torno deles som freqüentemente descritos em termos negativos, como “falta” algo -notavelmente, um estado. As tendências positivistas e deterministas que dominam a historiografia de hoje tornam tais comunidades incomuns, incivilizadas, para trás. A Condiçom de Estado é assumida ser umha consequência inevitável da civilizaçom e a modernidade; um passo natural na evoluçom linear da história.

Há, sem dúvida, algumhas diferenças genealógica e ontológicas entre, por falta de umha palavra melhor, as “modernas” comunas revolucionárias, e as comunidades naturais, orgânicas. As “modernas” estam desenvolvendo-se principalmente entre os círculos radicais nas sociedades capitalistas como revoltas contra o sistema dominante, enquanto as naturais constituem umha ameaça para as potências hegemônicas pola natureza da sua própria sobrevivência. Mas ainda assim, nom podemos dizer que estas comunas orgânicas sejam nom-política, em oposiçom às comunas metropolitanas com a sua intençom política, orientadas a objectivos.

Séculos, talvez milênios de resistência contra a ordem capitalista mundial som, na verdade atos muito radicais de desafio. Para essas comunidades, relativamente neutras para as correntes globais, devido às suas características, geografia singular ou resistência ativa, a política comunal é simplesmente umha parte natural do mundo. É por isso que muitas pessoas em Rojava, por exemplo, onde umha transformaçom social radical está actualmente em curso, referem-se à sua revoluçom como “um retorno à nossa natureza” ou “a conquista da nossa ética social.”

Ao longo da história, os curdos sofrerom todos os tipos de negaçom, opressom, destruiçom, genocídio e assimilaçom. Forom excluídos da ordem estatista em duas frentes: eles nom so lhes foi negado o seu próprio estado, mas forom simultaneamente excluídos dos mecanismos das estruturas dos Estados ao seu redor. No entanto, a experiência de apatridia também ajudou a proteger muita ética e valores sociais, bem como um senso de comunidade, especialmente nas aldeias rurais e montanhosas muito longe das cidades.

Hoje em dia, aldeias curdo-alevi em particular, som caracterizadas por processos de terra comum e constataçom de ritos de conciliaçom para conflitos sociais baseados na ética e o perdom para o benefício da comunidade. Mas enquanto esta forma de vida é bastante prevalente no Curdistam, há também um novo esforço consciente para estabelecer um sistema político centrado em torno de valores comunais do Confederalismo Democrático, construído através da autonomia democrática com a comuna em seu coraçom.

O Confederalismo democrático na Rojava

O Partido dos Trabalhadores do Curdistam (PKK), como muitos movimentos de libertaçom nacional, inicialmente pensou que a criaçom de um estado independente seria a soluçom para a violência e a opressom. No entanto, com as mudanças no mundo após o colapso da Uniom Soviética, o movimento começou a desenvolver umha auto-crítica fundamental, bem como umha crítica às políticas socialistas dominantes da época, que ainda estava muito focada em tomar o poder estatal. Perto do final da década de 1990. O PKK, sob a liderança de Abdullah Öcalan, começou a articular umha alternativa para o Estado-naçom e o socialismo de estado.

Ao estudar a história do Curdistam e o Médio Oriente, bem como a natureza do poder, o actual sistema económico e as questons ecológicas, Öcalan chegou à conclusom de que a razom para “problema de liberdade” da humanidade nom era a apatridia mas o surgimento do Estado . Em umha tentativa de subverter o domínio do sistema que se institucionalizou em todo o mundo ao longo de 5.000 anos como umha síntese do patriarcado, o capitalismo e o Estado-naçom, este paradigma alternativo baseia-se no opostos – a libertaçom das mulheres, ecologia e democracia de base.

O Confederalismo democrático é um modelo social, político e económico da auto-governo de diferentes povos, desenvolvidos por mulheres e jovens. El tenta na prática expressar a vontade do povo, visualizando a democracia como um método em vez de um objectivo por si só. É democracia sem Estado.

Embora propon novas estruturas normativas para estabelecer um sistema político consciente, o Confederalismo Democrático inspira-se também em formas milenarias de organizaçom social que ainda existem entre as comunidades no Curdistam e além. Este modelo pode parecer muito forçado à nossa imaginaçom contemporânea, mas el realmente ressoa bem com um forte desejo de emancipaçom entre os diferentes povos da regiom. Embora o sistema foi implementado em Bakur (Curdistam do Norte) durante anos, dentro dos limites da repressom estatal turca, foi na Rojava (Curdistam do Oeste) que umha oportunidade histórica surgiu para por o Confederalismo Democrático em prática.

O sistema coloca a “autonomia democrática” no seu cerne: as pessoas organizam-se diretamente na forma de comunas e criam conselhos. Em Rojava, este processo é facilitado polo Tev-Dem, o Movimento para umha Sociedade Democrática. A comuna está composta de umha vizinhança consciente auto-organizada e constitui o aspecto mais essencial e radical da prática democrática. Ela tem comissons de trabalho sobre diferentes temas como a paz e a justiça, a economia, segurança, educaçom, mulheres, jovens e serviços sociais.

As comunas enviam delegados eleitos para os conselhos. Os conselhos de aldeia enviam delegados aos municipios, os municípios enviam delegados às cidades, e assim por diante. Cada umha das comunas é autônoma, mas elas estam ligadas umha a outra através de umha estrutura confederal com o fim de coordenaçom e salvaguarda dos princípios comuns. Só quando os problemas nom podem ser resolvidos na base, ou quando as questons transcendem as preocupaçons dos conselhos de nível mais baixo, elas som delegadas para o próximo nível. As instâncias “superiores” som responsáveis perante os níveis “inferiores” e informam sobre suas açons e decisons.

Enquanto as comunas som as áreas para a resoluçom de problemas e organizar a vida cotidiana, os conselhos criam planos e políticas para a coesom e a coordenaçom da açom. No início da revoluçom e nas áreas recém-libertadas, as assembleias tiveram que erguer os conselhos do povo em primeiro lugar e só mais tarde começou a desenvolver as estruturas organizacionais de base mais descentralizadas na forma de comunas.

As comunas trabalham no sentido de umha sociedade “político-moral”, composta por indivíduos conscientes que entendem como resolver problemas sociais e que cuidam do auto-governo diário, como umha responsabilidade comum, em vez de submeter-se a elites burocráticas. Tudo isso conta com a participaçom voluntária e livre das pessoas, ao invés da coerçom do Estado de Direito.

Claro que é difícil aumentar a consciência da sociedade em um curto espaço de tempo, especialmente quando as condiçons de guerra, embargos, mentalidades internalizadas e antigas estruturas despóticas tenhem sido profundamente institucionalizadas e pode levar a abusos de poder e mentalidades apolíticas. Um sistema de educaçom alternativa, organizada através de academias, busca promover umha mentalidade social saudável, embora a auto-organizaçom na prática reproduz umha sociedade consciente, mobilizando-a em todas as esferas da vida.

As mulheres e os jovens organizam-se autonomamente e incorporam as dinâmicas sociais às que estam naturalmente inclinados para mais democracia e menos hierarquia. Eles posicionam-se “à esquerda” do modelo de autonomia democrática e formulam novas formas de produçom e reproduçom do conhecimento.

Hoje, o movimento de libertaçom curdo reparte o poder igualitariamente entre umha mulher e um homem, desde Qandil a Qamishli e Paris. A idéia por trás do princípio da co-presidencia é tanto simbólico como prático descentralizador do poder e promove a descoberta do consenso, enquanto simboliza a harmonia entre mulheres e homens. Só as mulheres tenhem o direito de eleger a co-presidenta, enquanto o co-presidente é eleito por todos. As mulheres organizam as suas próprias estruturas, mais fortes, mais ideologicamente conscientes em direçom à confederaçom de mulheres, começando com as comunas autônomas de mulheres.

O Princípio da Naçom Democrática

Outro princípio importante articulado por Öcalan é a “naçom democrática”. Ao contrário da doutrina monista do Estado-naçom, que se justifica por meio de um mito machista, este conceito prevê umha sociedade baseada em um contrato social comum e os princípios éticos fundamentais, tais como a igualdade de género. Assim, todos os indivíduos e grupos, étnias, linguas, sexos, identidades e tendências intelectuais e religiosas podem expressar-se livremente e adicionam a diversidade para esta naçom expansiva, a ética baseada, a fim de garantir a sua democratizaçom. Quanto mais diversificada for a naçom, quanto mais forte a sua democracia. Os diferentes grupos e seçons também som responsáveis por si mesmos de democratizar desde dentro.

Em Rojava, curdos, árabes, cristians siríacos, armênios, turcomanos e chechenos tentam criar juntos umha nova vida. A mesma lógica subjacente ao projecto do Partido Democrático do Povo, ou HDP, através da fronteira com Turquia. O HDP uniu todas as comunidades da Mesopotâmia e Anatólia sob a égide da “uniom livre” na naçom democrática.

Entre as suas deputadas conta curdos, turcos, armênios, árabes, assírios, muçulmanos, alevitas, cristians e jazidis -umha maior diversidade do que em qualquer outro partido no Parlamento turco. Contrastando com a monopolismo da ideologia do Estado-naçom, o conceito de naçom democrática serve como um mecanismo de auto-defesa ideológica dos diversos povos.

Apesar de muitas comunidades diferentes participam activamente na revoluçom de Rojava, ressentimentos há muitos pendentes de prevalecer. Confederaçons tribais inteiras de árabes unilateralmente expressarom o seu apoio para a administraçom, mas em algumhas partes, os árabes permanecem desconfiados. Documentaçom dos serviços secretos revelam que já no início de 1960, o partido Baath da Síria fixo planos altamente sofisticados para lançar comunidades diferentes umhas contra as outras, especialmente em Cizire. Em cima das tensons pré-existentes, forças externas, adicionarom combustivel e instrumentalizam o conflito entre diferentes comunidades para promover as suas próprias agendas. A criaçom da unidade entre os diferentes grupos étnicos e religiosos da Síria, e no Médio Oriente em termos mais gerais, seria tornar mais difícil de dividir e governar a regiom.

Um membro árabe da administraçom de Rojava explicou porque este modelo democrático conta com tam pouco apoio por parte dos estabelecidos, bem como grupos políticos recém-formados na regiom e além:

“O sistema de autonomia democrática nos nossos três cantons treme e perturba o mundo inteiro porque o sistema capitalista nom quer liberdade e democracia para o Oriente Médio, apesar de todas as suas pretensons. É por isso que toda a gente ataca Rojava. As diferentes formas de Estado exemplificadas pola República Árabe Síria sob Assad e o Estado islâmico som dous lados da mesma moeda ja que negam e destruem o mosaico da diversidade da nossa regiom. Mas cada vez mais árabes do resto da Síria venhem para Rojava a aprender sobre a autonomia democrática, porque vêem umha perspectiva para a liberdade aqui.”

Um Modelo econômico e Político alternativo

O efetivo sistema de auto-organizaçom, combinado em certa medida com o embargo, que exigiu a autoconfiança e criatividade, assim, alimentou, poupado Rojava da corrupçom económica através de mentalidades capitalistas internas ou exploraçom externa. No entanto, a fim de defender os valores revolucionários além da guerra, umha visom econômica calibrada é necessária para umha sociedade mais justa, economica, ecológica, feminista que pode sustentar umha populaçom empobrecida, traumatizada e brutalizada.

Como envolvem as pessoas ricas, que nom se preocupam polas cooperativas, e evitar ser acusados de autoritarismo? Como organizar os princípios de emancipaçom e de libertaçom na urgência da guerra e umha economia de sobrevivência? Como descentralizar a economia ao mesmo tempo garantir a justiça e a coesom revolucionária? Para as pessoas em Rojava, a resposta está na educaçom.

“Que significa a ecologia para ti? “, Umha mulher na academia das mulheres Ishtar em Rimelan pede as suas companheiras em umha sala decorada com fotos de mulheres como Sakine Cansiz e Rosa Luxemburgo. Umha mulher velha com tatuagens tradicionais nas suas maos e rosto responde: “Para mim, ser mae significa ser ecológica. Viver em harmonia com a comunidade e natureza. As maes sabem melhor como manter e organizar esta harmonia. “Talvez seja a questom ecológica, que ilustra mais claramente em Rojava o dilema de ter grandes princípios e intençons e a vontade de sacrificio, embora muitas vezes sem as condiçons para implementar esses ideais. Por razons óbvias, a sobrevivência, muitas vezes tem prioridade sobre o ambientalismo.

Polo momento, polo menos, é possível falar de um sistema dual de transiçom em que a auto-gestom democrática de Rojava estabelece princípios revolucionários e ecológicos, com cuidado manobrando na guerra e na política real, enquanto o movimento popular organiza a povoaçom desde abaixo. No nível cantonal, especialmente no que di respeito a questons relacionadas com a política externa, práticas centralistas ou polo menos nom revolucionárias som, até certo ponto inevitáveis, especialmente porque Rojava está política e economicamente entre umha rocha e umha espada. É o sistema de autonomia democrática resultante da base ao que as pessoas geralmente se referem quando falam da “revoluçom de Rojava”.

A dinâmica descentralizadora da organizaçom desde a base, principalmente nas comunas, até mesmo servir como umha oposiçom interna aos cantons e facilitar a democratizaçom, que, devido à sua complicada geografia- ainda mais limitada por partidos políticos e grupos nom-revolucionárias – pode tender a umha concentraçom de poder (embora os cantons, como som atualmente, ainda som muito mais descentralizados e democráticos do que estados comuns).

Muito mais importante do que o mecanismo exato por meio do qual a vontade popular se expressa, é o significado e o impacto da autonomia democrática nas próprias pessoas. Se eu tivesse de descrever a “democracia radical”, eu acho nomeadamente as pessoas da classe trabalhadora, as mulheres às vezes analfabetas em bairros que decidiram organizar-se em comunas e que agora fazem política. Risos e jogos de crianças, cacarejar da galinha, sentados em cadeiras de plástico componhem a melodia para a etapa em que as decisons relativas às horas de eletricidade e disputas de bairro som feitas. Deve-se também notar que as estruturas funcionam melhor em áreas rurais e pequenos bairros que nas cidades grandes e complexas, onde som necessários maiores esforços para envolver as pessoas. Aqui, o poder pertence a pessoas que nunca tiveram nada e que agora escrevem sua própria história.

“Queres ver os nossos legumes? “Qadifa, umha mulher velha Jazidi pergunta-me em um centro de Yekîtiya Star, o movimento das mulheres. Ela parece ter pouco interesse em explicar o novo sistema, mas ela está disposta a mostrar os seus frutos no seu lugar. Nós continuamos a nossa conversa sobre as transformaçons da vida cotidiana na Rojava ao comer os deliciosos tomates de umha cooperativa de mulheres no quintal.

A Autodeterminaçom de Rojava está a ser vivida no aqui e agora, na prática quotidiana. Milheiros de mulheres como Qadifa, mulheres previamente completamente marginalizadas, invisíveis e sem voz, agora assumem posiçons de liderança e moldeam a sociedade. Hoje, pola manhá, elas podem, por primeira vez colher os seus próprios tomates da terra que foi colonizada polo Estado durante décadas, enquanto agem como juízes em tribunais populares à tarde.

Muitas famílias dedicam-se totalmente à revoluçom agora; especialmente aquelas que perderom seres queridos. Muitos domicílios familiares começam lentamente a funcionar como casas do povo (“gel mala”) que coordenam as necessidades da povoaçom: as pessoas entram na casa um do outro com os seus filhos para criticar ou discutir ou sugerir idéias sobre como melhorar as suas novas vidas. Os tópicos da mesa do jantar mudarom. As questons sociais tornam-se literalmente sociais, tornando-se responsabilidade de todos. Todos os membros da comunidade tornam-se em líder.

A lenta transiçom da tomada de decisom social a partir de construçons atribuídas às áreas da vida cotidiana é um fruto dos esforços por construir umha nova sociedade moral e política. Para as pessoas de países capitalistas avançados esta maneira direta de comandar a própria vida pode parecer assustador às vezes, especialmente quando as cousas importantes, como a justiça, educaçom e segurança estam agora nas maos de pessoas como si mesmos, em vez de ser entregues aos aparatos estatais anónimos.

Legado da Resistência do Comuna

Umha noite que eu estou sentada perto de Tell Mozan, umha vez o lar de Urkesh, de 6.000 anos, antiga capital dos Hurrians. Nas proximidades está a fronteira entre a Síria e a Turquia, desde há menos de um século. Enquanto bebia chá com Meryem, umha comandante de Kobane, vemos as luzes da cidade de Mardin no Curdistam do Norte, do outro lado da fronteira.

“Nós luitamos em nome da comunidade, dos oprimidos, de todas as mulheres, polas páginas nom escritas da história”, di ela. Meryem é umha das muitas mulheres que se encontrarom com Abdullah Öcalan na sua juventude, quando el chegou a Rojava na década de 1980. Como milheiros de mulheres, em busca de justiça além da sua própria vida, um dia ela decidiu tornar-se umha combatente da liberdade nesta regiom que é ao mesmo tempo o lar de milheiros de crimes de honra e milheiros de deusas, adoradas em todas as formas e tamanhos.

O que atraiu aos movimentos anti-sistêmicos em todo o mundo da histórica resistência em Kobane forom talvez as muitas formas polas quais a defesa da cidade espelhavam umha corrente milenaria da luita humana; as formas em que ela carregava traços universais que ressoam com imaginários coletivos de um mundo diferente. Muitas comparaçons forom feitas com a Comuna de Paris, a Batalha de Stalingrado, a Guerra Civil Espanhola, e outros casos míticos de resistência popular.

Nos zigurates de Sumer, complexos de templos maciços da antiga Mesopotâmia, múltiplos mecanismos hierárquicos começarom a ser institucionalizados por primeira vez: o patriarcado, o estado, a escravitude, o exército permanente e a propriedade privada – o início da formalizaçom da sociedade de classes. Este era propôs umha ruptura social profunda caracterizada pola perda de status social das mulheres e o aumento do homem dominante, especialmente o sacerdote, que tomou o monopólio do conhecimento. Mas também é onde amargi, a primeira palavra para o conceito de liberdade, literalmente “o retorno à mae”, surgiu por volta do 2300 aC

Öcalan propon a ideia de duas civilizaçons: el afirma que, no final do período Neolítico, com o surgimento de estruturas hierárquicas na antiga Sumer desenvolveu-se umha civilizaçom baseada na hierarquia, violência, submissom e monopolismo -o “mainstream” ou “civilizaçom dominante”. Por outro lado, o que el chama de “civilizaçom democrática” representa as luitas históricas dos marginalizados, dos oprimidos, dos pobres e dos excluídos, especialmente as mulheres. O Confederalismo democrático é, portanto, um produto político e manifestaçom desta civilizaçom democrática milenar.

O modelo de autonomia democrática, por sua vez, nom é so umha perspectiva prometedora para umha soluçom justa e pacífica para os conflitos traumáticos da regiom; em muitos aspectos, o surgimento da revoluçom Rojava ilustra como a autonomia democrática pode realmente ser a única maneira de sobreviver. Neste sentido, a comuna revolucionária é um património histórico, umha fonte de memória colectiva para as forças da democracia em todo o mundo, e um mecanismo consciente de auto-defesa contra o sistema estatal. El carrega um legado milenar e manifesta-se em novas formas hoje.

O que une momentos históricos de resistência humana e o desejo de um outro mundo, desde os primeiros combatentes da liberdade da história até a comuna de Paris e a sublevaçom dos Zapatistas às praças da liberdade em Rojava, é o poder inquebrável a ousar imaginar. É a coragem de acreditar que a opressom nom é o destino. É a expressom do desejo antigo da humanidade de se libertar.

Bijî komunên me! Vive la commune!

 

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