As árvores falam umas com as outras x Suzanne Simard

“Chamamos-lhes “árvores centrais”, ou, mais carinhosamente, “árvores mães”, porque acontece que essas árvores centrais alimentam as mais novas, as que crescem no sub-bosque. Veem aqueles pontos amarelos? São as plântulas jovens que crescem dentro da rede das árvores mães mais velhas. Numa floresta, uma árvore mãe pode estar ligada a centenas de outras árvores. Usando os marcadores de isótopos, descobrimos que as árvores mães enviam o excesso de carbono através da rede de micorriza para as plântulas do sub-bosque, e associámos isto com a sobrevivência acrescida das plântulas em quatro vezes mais. Sabemos que favorecemos os nossos filhos”.

“Uma floresta é muito mais do que vocês veem”, diz a ecologista Suzanne Simard. Os 30 anos de investigação nas florestas canadianas levaram a uma descoberta espantosa — as árvores falam, muitas vezes e a grandes distâncias. Saibam mais sobre a vida social, harmoniosa embora complicada, das árvores e preparem-se para ver o mundo da natureza com um novo olhar:

A seguir colo acá a transcripção do que Suzanne conta no vídeo que recolhim da web ted.com:

0:11
Imaginem que estão a passear por uma floresta. Calculo que estão a pensar num conjunto de árvores, aquilo a que nós, os silvicultores chamamos uma massa florestal, com o seus troncos rugosos e as magníficas copas. Sim, as árvores são a base das florestas, mas uma floresta é muito mais do que aquilo que se vê. Hoje, quero alterar a forma como vocês pensam nas florestas. Por baixo delas há um outro mundo, um mundo de infinitos trilhos biológicos que ligam as árvores e lhes permite comunicarem e permite que a floresta se comporte como se fosse um único organismo. Faz-nos pensar numa espécie de inteligência.

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Como é que eu sei isto? Vou contar a minha história. Eu cresci nas florestas da Colômbia Britânica. Deitava-me no chão da floresta e olhava para as copas das árvores lá no alto. Eram gigantescas. O meu avô também era um gigante. Ele era um madeireiro a cavalo, e costumava cortar troncos escolhidos de cedro na floresta tropical. O meu avô ensinou-me os modos calmos e coerentes dos bosques, e como a minha família estava ligada a eles. Eu segui as pisadas do meu avô.

1:22
Nós dois tínhamos a mesma curiosidade pelas florestas e o meu primeiro grande momento de descoberta foi na latrina, perto do nosso lago. O nosso pobre cão Jigs escorregara e caíra no buraco. O meu avô acorreu com uma pá para salvar o pobre do cão. Ele estava lá em baixo, debatendo-se no esterco. Mas quando o meu avô escavou o chão da floresta, eu fiquei fascinada com as raízes. Por baixo delas havia o micélio branco — conforme aprendi mais tarde — e por baixo dele horizontes de minerais vermelhos e amarelos. Por fim, o meu avô e eu salvámos o pobre cão, mas foi nesse momento que percebi que aquela paleta de raízes e solo era realmente as fundações da floresta.

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Eu queria saber mais. Por isso, estudei silvicultura. Mas cedo me encontrei a trabalhar ao lado das pessoas poderosas, encarregadas do abate comercial. A extensão do abate em massa era alarmante. Depressa entrei em conflito por participar naquilo. Não só por isso, a pulverização e o corte de álamos e bétulas para substituição por pinheiros e abetos comercialmente mais valiosos era impressionante. Parecia que nada conseguia fazer parar aquela máquina industrial incansável.

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Por isso voltei para a escola, e estudei o meu outro mundo. Os cientistas tinham acabado de descobrir no laboratório, “in vitro”, que a raiz duma plântula de pinheiro podia transmitir carbono à raiz doutra plântula de pinheiro. Mas isso era no laboratório. Fiquei a pensar se aquilo acontecia na floresta real. Achava que sim. As árvores nas florestas também podem partilhar informações por baixo do solo. Mas era uma coisa muito controversa. Algumas pessoas achavam que eu era maluca. Tive muita dificuldade em arranjar financiamento para investigar. Mas não desisti e acabei por realizar algumas experiências na floresta, há 25 anos. Plantei 80 réplicas de três espécies: Bétula americana, abeto de Douglas, e cedro vermelho canadiano. Calculava que a bétula e o abeto se ligariam numa rede subterrânea, mas o cedro não. Ele estava no seu próprio outro mundo. Reuni os meus aparelhos. Não tinha dinheiro, por isso tinha que fazer as coisas pelo barato. Por isso, fui ao Canadian Tire…

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(Risos)

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… comprei uns sacos de plástico, fita adesiva e tecido opaco, um temporizador, um fato de papel, uma máscara. Pedi emprestado à minha universidade material de alta tecnologia: um contador Geiger, um detetor de cintilações, um espectrómetro de massa, microscópios. Depois, arranjei coisas muito perigosas: seringas cheias de dióxido de carbono carbono-14 radioativo, e garrafas de dióxido de carbono comprimido do isótopo estável de carbono-13. Mas tive autorização legal.

4:18
(Risos)

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Oh, mas esqueci-me de algumas coisas, coisas importantes: o repelente de insetos, o repelente de ursos, os filtros para o respirador. Paciência.

4:30
No primeiro dia da experiência, chegámos ao terreno e uma ursa parda e a sua cria afugentaram-nos. Eu não tinha repelente de ursos. Mas é assim que se desenrola a investigação nas florestas do Canadá.

4:43
(Risos)

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Por isso, tive que voltar no dia seguinte e a mamã ursa e a sua cria tinham desaparecido. Desta vez, pudemos começar. Enfiei o meu fato de papel branco, coloquei a máscara e depois coloquei os sacos de plástico por cima das minhas árvores. Agarrei nas seringas gigantes, e injetei os sacos com o isótopo marcador de dióxido de carbono, primeiro nas bétulas. Injetei carbono-14, o gás radioativo, nos sacos das bétulas. Depois, injetei nos abetos o isótopo estável de dióxido de carbono carbono-13. Usei dois isótopos, porque fiquei a pensar se não haveria comunicação nos dois sentidos entre estas espécies. Quando cheguei ao último saco das 80 réplicas e, de repente, apareceu de novo a mamã ursa que começou a perseguir-me. Eu pus as seringas por cima da cabeça, estava a matar os mosquitos e saltei para o camião. Pensei: “É por isso que se fazem estudos no laboratório”. (Risos)

5:48
Esperei uma hora.

5:49
Achei que seria necessário esse tempo para as árvores absorverem o CO2 através da fotossíntese, transformarem-no em açúcares, enviá-los através das raízes e, talvez, era a minha hipótese, passarem aquele carbono subterrâneo para as vizinhas. Ao fim dessa hora baixei o vidro da janela e procurei a mamã ursa. Oh que bom, ela estava ali adiante, a comer bagas. Saí do camião e comecei a trabalhar. Fui direita ao primeiro saco da bétula. Tirei o saco. Percorri as folhas com o contador Geiger. Shhhhh! Perfeito. A bétula tinha absorvido o gás radioativo. Depois, o momento da verdade. Fui ao abeto. Tirei o saco. Percorri as agulhas com o contador Geiger e ouvi o som mais maravilhoso: Shhh! Era o som da bétula a falar com o abeto. A bétula estava a dizer: “Olá, precisas de ajuda?” E o abeto respondia: “Preciso, podes enviar-me mais carbono? “Porque puseram-me um pano opaco por cima de mim”. Fui ao cedro e percorri as folhas com o contador Geiger. Como suspeitava, silêncio. O cedro estava no seu próprio mundo. Não estava ligado na rede que interligava a bétula e o abeto. Fiquei entusiasmadíssima.

7:13
Corri de canteiro em canteiro e verifiquei todas as 80 réplicas. As provas eram claras. O C-13 e o C-14 estavam a mostrar-me que a bétula e o abeto estavam numa conversa viva nos dois sentidos. Acontece que naquela altura do ano, no verão, a bétula estava a enviar mais carbono para o abeto do que o que o abeto estava a enviar para a bétula, principalmente quando o abeto estava tapado. Em experiências posteriores, encontrámos o oposto, o abeto enviava mais carbono para a bétula do que a bétula enviava para o abeto, porque o abeto ainda estava a crescer, enquanto a bétula estava sem folhas. Acontece que as duas espécies eram interdependentes, como o yin e o yang. Naquele momento, tudo se conjugou na minha cabeça.

7:54
Sabia que tinha encontrado uma coisa importante, uma coisa que iria mudar a forma como olhamos para a interação das árvores nas florestas, não como simples competidoras, mas como cooperantes. Eu tinha encontrado provas sólidas dessa enorme rede de comunicação subterrânea, o outro mundo. Eu esperava e acreditava verdadeiramente

8:17
que a minha descoberta iria mudar a forma como praticamos a silvicultura, do abate maciço e uso de herbicidas para métodos mais abrangentes e sustentáveis, métodos que fossem menos dispendiosos e mais práticos. Em que é que eu estava a pensar? Já voltarei a isto. Como é que fazemos ciência em sistemas complexos como as florestas?

8:39
Os silvicultores têm que fazer investigação na floresta o que é muito difícil, como já demonstrei. Temos que ser mesmo muito bons a fugir dos ursos. Mas, sobretudo, temos que perseverar apesar de todas as coisas que estão contra nós. Temos que seguir a nossa intuição e a nossa experiência e fazer as perguntas boas. Temos que reunir os dados e verificá-los. Eu realizei e publiquei centenas de experiências na floresta. Algumas das minhas plantações experimentais mais antigas têm hoje mais de 30 anos. Podem verificá-las. É como funciona a ciência da floresta. Agora vou falar da ciência.

9:19
Como é que bétula e o abeto estavam a comunicar? Acontece que estavam a conversar na linguagem do carbono e também na do azoto e do fósforo, da água e dos sinais de defesa e químicos e hormonas da mesma espécie — informações. Devo dizer-vos que os cientistas julgavam que estava envolvida esta simbiose mutualista subterrânea, chamada micorriza. Micorriza significa, à letra, “raízes de fungo”. Vemos os seus órgãos reprodutores quando passeamos pela floresta. São os cogumelos. Mas os cogumelos são apenas a ponta do icebergue, porque saindo destes caules há fios de fungos que formam um micélio. Esse micélio infeta e coloniza as raízes de todas as árvores e plantas. Onde as células dos fungos interagem com as células das raízes, há uma troca de carbono por nutrientes. O fungo obtém os nutrientes crescendo no solo e forrando todas as partículas do solo. A rede é tão densa que pode haver centenas de quilómetros de micélio debaixo duma única passada. Mais ainda, o micélio liga diferentes indivíduos na floresta, indivíduos não só da mesma espécie mas de várias espécies, como a bétula e o abeto, e funciona mais ou menos como a Internet. Como todas as redes,

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as redes de micorriza têm nódulos e ligações. Fizemos este mapa, examinando as sequências curtas de ADN de cada árvore e de cada fungo numa faixa de floresta de abetos. Nesta imagem. os círculos representam o abeto de Douglas, ou os nódulos, e as linhas representam as vias de fungos que os interligam, ou seja as ligações. Os nódulos maiores, mais escuros, são os nódulos mais ativos.

11:08
Chamamos-lhes “árvores centrais”, ou, mais carinhosamente, “árvores mães”, porque acontece que essas árvores centrais alimentam as mais novas, as que crescem no sub-bosque. Veem aqueles pontos amarelos? São as plântulas jovens que crescem dentro da rede das árvores mães mais velhas. Numa floresta, uma árvore mãe pode estar ligada a centenas de outras árvores. Usando os marcadores de isótopos, descobrimos que as árvores mães enviam o excesso de carbono através da rede de micorriza para as plântulas do sub-bosque, e associámos isto com a sobrevivência acrescida das plântulas em quatro vezes mais. Sabemos que favorecemos os nossos filhos.

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Fiquei a pensar, será que o abeto reconhece a sua descendência, tal como a mamã ursa e a sua cria? Assim, fizemos uma experiência. Plantámos plântulas da mesma espécie e de espécies diferentes, em árvores mães. Elas reconheceram as da sua espécie. As árvores mães colonizam as da sua espécie com redes maiores de micorriza. Enviam-lhes mais carbono por baixo do solo. Até reduzem a sua competição de raízes para dar espaço para as suas filhas. Quando as árvores mães são feridas ou morrem, também enviam mensagens de sabedoria à geração seguinte de plântulas. Usámos a marcação por isótopos para seguir o movimento do carbono duma árvore mãe ferida pelo tronco abaixo até à rede de micorriza e até às plântulas suas vizinhas, não só o carbono, mas também os sinais de defesa. Estes dois compostos aumentaram a resistência dessas plântulas a futuras agressões. Portanto, as árvores falam. (Aplausos)

12:52
Obrigada.

12:56
Através de conversas nos dois sentidos

12:58
aumentam a resiliência de toda a comunidade. Provavelmente faz-vos lembrar as nossas comunidades sociais e a nossas famílias, pelo menos, algumas famílias. (Risos)

13:10
Voltemos ao ponto inicial.

13:13
As florestas não são simples coleções de árvores, são sistemas complexos com núcleos e redes que sobrepõem e ligam as árvores e permitem-lhes comunicar, proporcionam caminhos para respostas e adaptação, o que torna a floresta resistente, porque há muitas árvores centrais e muitas redes sobrepostas. Mas também são vulneráveis, não só às perturbações naturais como os escolitídeos que atacam preferencialmente as grandes árvores antigas mas também à desflorestação intensa e à desflorestação de limpeza. Podemos abater uma ou duas das árvores centrais, mas chega-se a um ponto crítico porque as árvores centrais são como os rebites de um avião. Podemos tirar um ou dois e o avião continua a voar, mas se tirarmos um a mais, ou o rebite que sustenta as asas, e todo o sistema se desmorona. Como é que agora encaram as florestas? De modo diferente?

14:08
Audiência: Sim.

14:10
Ótimo. (Risos)

14:12
Fico contente. Lembrem-se do que eu disse atrás, que esperava que a minha investigação,

14:17
as minhas descobertas mudassem a forma como praticamos a silvicultura. Fui verificar isso, 30 anos depois, aqui no ocidente do Canadá. Fica a 100 km para oeste,

14:35
mesmo na fronteira com o Parque Nacional Banff. Há muitas zonas de abate. Já não é tão primitiva. Em 2014, o Instituto de Recursos Mundiais relatou que o Canadá, na década passada, tinha tido a taxa mais alta de alteração da floresta do mundo inteiro e aposto que vocês julgavam que seria o Brasil. No Canadá, são 3,6% ao ano. Segundo os meus cálculos, é quatro vezes maior do que a taxa sustentável. Sabe-se que uma desflorestação maciça a esta escala afeta os ciclos hidrológicos,

15:12
degrada o habitat natural e emite gases com efeito de estufa para a atmosfera, o que cria mais perturbação e o desaparecimento de mais árvores. Mais ainda, continuamos a plantar uma ou duas espécies

15:25
e eliminamos os álamos e as bétulas. Falta complexidade nestas florestas simplificadas, que ficam mais vulneráveis a infeções e pragas. À medida que o clima muda, isto vai criando uma autêntica tempestade para acontecimentos extremos, como o surto maciço de besouros do pinheiro que acaba de varrer a América do Norte, ou como o enorme incêndio nos últimos meses em Alberta. Por isso, quero voltar à minha pergunta final:

15:55
Em vez de enfraquecermos as nossas florestas como podemos fortalecê-las e ajudá-las a enfrentar a alteração climática? Uma coisa maravilhosa das florestas, enquanto sistemas complexos é que têm uma capacidade enorme de se curarem a si mesmas. Nas nossas experiências mais recentes, descobrimos, com o corte e a retenção de árvores centrais, e a regeneração numa diversidade de espécies, de genes e de genótipos, que estas redes de micorrizas recuperam muito depressa. Com esta ideia, quero terminar deixando-vos quatro soluções simples. E não digam que são demasiado complicadas para serem postas em ação. Primeira, precisamos todos de andar pela floresta.

16:38
Precisamos de restabelecer o envolvimento local nas nossas florestas. A maior parte das nossas florestas, hoje, são geridas, usando uma abordagem uniformizada, mas uma boa gestão da floresta exige conhecimento das condições locais. Segunda, precisamos de salvar as nossas florestas antigas.

16:57
São elas os repositórios dos genes das árvores mães e das redes de micorrizas. Isso significa menos abates. Não estou a dizer abates nenhuns, mas apenas menos abates. Terceiro, quando fizermos abates

17:13
precisamos de salvar os legados, as árvores mães e as redes, o bosque, os genes, para poderem passar o seu saber à geração seguinte de árvores para que elas suportem as tensões futuras que aparecerem. Precisamos de ser conservacionistas. Finalmente, a quarta.

17:34
Precisamos de regenerar as florestas com uma diversidade de espécies de genótipos e de estruturas plantando e permitindo uma regeneração natural. Temos que dar à Mãe Natureza as ferramentas de que ela precisa para usar a inteligência da auto cura. E precisamos de nos lembrar que as florestas não são só um conjunto de árvores que competem umas com as outras, mas são super cooperantes. Voltando ao Jigs.

17:59
A queda do Jigs na latrina junto ao lago mostrou-me esse outro mundo e mudou a minha visão das florestas. Espero que hoje também tenha mudado a forma como pensam nas florestas. Obrigada.

18:11
(Aplausos)

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