“Consumir e Matar: Dous verbos irmanados” x Pedro García Olivo

Recolho e traduzo este reflexivo artigo escrito polo meu amigo Pedro no seu muro dumha rede, que espero faga pensar a aquelas gentes que nom olham para outro lado quando vem alguém “tirada” na rua e nom me estou a referir a essa maioria que fuge de mirar cara elas nem a quem olha com acenos de desgosto e desagrado, caseque de nojo, nem muito menos a quem se adica nos falsimédios a criminalizar sua presência nas ruas e mesmo a pedir que sejam encirradas para que nom se vejam; senom a todas aquelas pessoas que, índa sem sabe-lo e sem pretende-lo, consentimos na sua situaçom e sustentámo-la:

Consumir e Matar: Dous verbos irmanados

Polícias, profissorado, juizes,… E, sustentándo-lo todo, consumistas

Que é o que mais lhe doe ao Capitalismo?

Nom é que loitemos contra a “brutalidade policial”, porque entom colócam-nos polícias nom-brutais, amigáveis, simpáticos, “cidadanistas”, e a Polícia sobrevive milhor. E nós, gentes reprimidas e no fundo repressoras, regalámos-lhes flores ás canalhas dessa condiçom, porque já nom lhe temos medo. Pero som mais que temíveis.

Nom é que loitemos contra a “escola autoritária”, porque entom colócam-nos profissorado democrático, libertário, alunistas, tamém amigáveis e mesmo simpáticas, e a Escola sobrevive milhor. E nós, gentes reprimidas e no fundo repressoras, damos um bico na façula a essas torturadoras doces das nossas crianças, porque já nom lhe temos medo. Pero som mais que temíveis.

Nom é que loitemos contra o “Direito corrupto”, porque entom colócam-nos juizes e juizas progressistas, socio-culturalmente “avançadas”, tipo Garzón, espíritos de Estado com crosta filantrópica, tam simpáticos sempre, e o Direito sobrevive milhor. E nós, gentes reprimidas e no fundo repressoras, agradecémos-lhe a um Juiz que nos faga crêr nele mesmo mais que na Justiça, índa que pouco tenhem a ver a Justiça co Direito.

O que mais lhe doe ao Sistema é que deixemos de consumir. Porque tudo o Capitalismo baséa-se no produtivismo-consumismo.

Se consegue que só pensemos em comprar para satisfacer todas nossas necessidades, mesmo em comprar onde é mais barato e á hora na que é mais barato, como ocorre hoje em tantos paises, desde Japom até Chile, entom está tudo perdido: consumir nom é já só a escravitude recodificada, nom remite meramente á masmorra do emprego alienado ou do trabalho dependente. Comprar convérte-se na exigência maior da vida cotiá, que nos rouba tempo, energia mental, imaginaçom… Toda a jornada deveriamos estar a sopesar onde e quando comprar que cousa, sobre tudo se os nossos meios som escassos. O “homo economicus” encartado sobre o “consumidor inteligente”

Entre o home que morria na rua da minha nota anterior (*) e este escrito há umha relaçom…

Como nom podo levar a casa as decenas de indigentes coas que me tropeço ao longo da semana; como nom sei se vale a pena, no ético e no político, recorrer ao Estado para que socorra cosméticamente a umhas poucas das suas vítimas entanto, por outra banda, gére-las por centos e a diário, e é certo que o Estado subsiste graças ás pessoas que contam com ele e dependem dele, que o contemplam como interlocutor; como nom tenho alma de “monja” nem de “militante” (no caso de que estas duas formas de freguesia diferénciem-se em algo substantivo); como nom me refúgio nas siglas ou nos partidos para lavar a consciência da minha cumplicidade ou conivência coa orde que nego de palavra, e nom me basta com assistir ás “misas”, cada dia mais festivas, das manifestaçons, das concentraçons, das marchas e outras cerimónias lúdico-anestésico-maciço-irrelevantes, estou tentado de concluir asim esta nota:

“O consumo consóme-nos. Todo consumo é consuntivo, aniquíla-nos como possibilidade da autonomia e da liberdade”.

Um modo efetivo de evitar sequelas como a indigência extrema consiste em nom comprar ou em comprar quanto menos possível, em avançar de jeito consciente polo desacato anticonsumista.

Insisto: as gentes que comem em restaurantes, que falam contra o Capitalismo na barra do bar ou na terraço do negócio “progre” de repostaria; as pessoas que seguem as modas na vestimenta e mudam cada tempada de vestiário; as veraneantes, as turistas, as aditas á indústria do lezer, os demais tipos de gente rica, et cetera, som responsáveis, a través de toda umha cadeia de mediaçons, desoutro extremo da indigência e da morte na rua.

Deixémo-nos de hipocrisias: o produtivismo ocidental gera “pessoas lixo” (nom utilizáveis, inservíveis, nom-recuperáveis) que nos acusam só coa sua presença, mentres morrem polas vias ou nos parques; esse produtivismo só pode perpetuar-se desde o consumo e desde o trabalho. Que umhas comam bem, e até a fartura, todos os dias, dando lugar mesmo a que parte dos alimentos apodreçam nas suas neveiras repletas é possível e só possível num marco que contempla a morte na rua do outro próximo e a exploraçom desapiadada da alteridade afastada.

Cadáveres ambulantes de cara ao interior e globo-imperalismo capitalista de cara fora.

Se somos trabalhadoras e consumistas, particularmente da área ociental, estamos a matar. O consumo e o trabalho matam… Envilecem-nos hora a hora e matam, sem présa e sem prazo, ao outro, á outra.

Pedro García Olivo

Buenos Aires, 21 de maio de 2017

www.pedrogarciaolivo.wordpress.com


(*) Colo acá na sua língua original o artigo em referência (a foto que acompanha sobre a que conta o relato é a mesma do mendigo):

POS-MUERTOS
Me dicen que no hay razones para el nihilismo. Que no hay que desesperar. Que todo va bien mientras nos organicemos colectivamente. Que si partidos, que si sindicatos, que si cédulas, que si 15 M y Podemos en España. Ya, ya, 15 Mentiras y gentes que Podrán tomar el poder para seguir mintiéndonos.
Y este hombre, con el que me crucé hoy en Buenos Aires se muere. Ni es un “fracasado”, ni un “enfermo”, ni un “daño colateral” del Desarrollo, ni una “víctima no deseada” del Progreso.
Vale, siempre es reconfortante hablar de Lucha y Compromiso mientras se mueren otros. ¡Camarero, pónganos otras cervezas, que estamos a punto de descubrir la raíz de la opresión y el modo de juntarnos para transformar el mundo!
Para que este hombre esté tan mal, muriéndose, todos nosotros debemos estar infinitamente peor: pos-muertos.
Siempre soy un desesperado; hoy estoy, además, nihilista.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s