OXALÁ PUDÉSSEMOS EXPULSAR A EUROPA DO CONTINENTE EUROPEU.- Apologia da Deserçom x Pedro García Olivo

Sabes? Depois da Deserçom, transcorreu um tempo
em que se prestava tam pouca atençom a si mesmo
que as suas ideias pasávam-lhe case desapercebidas;
e tinha que apresa-las cada noite ante o papel
para nom equivocar-se de pensamento polas manhãs
e lembrar aproximadamente
quem era esse que acordava no seu corpo…?
De “El irresponsable”

Di o meu Documento Nacional de Identidade que eu som espanhol, súbdito dum Estado que forma parte da Uniom Europeia.

Nom som tal! Nom quero ter nada que ver co que fai Europa contra boa parte do resto do mundo: massacres, genocídios, etnocídios!

Eu nom pecho as portas da minha morada ás gentes doutras terras; eu nom temo ás emigrantes, porque sego emigrando dentro de mim e nom figem umha outra cousa mais que migrar ao longo de toda minha vida.

Eu nom crio na parvoíce de votar cada x anos, para mudar de tiranos, de déspotas ás vezes remoçados, de aspirantes a amos que Si Podem.

Eu nom admito mais naçom que o caminho; e atorménta-me que hoje os caminhos ofértem-se só como espirituais, quando nom como espirituosos, pois já se pecharom as sendas para as nómades de verdade.

Eu nom reconheço a identidade estabelecida para mim polos que nom estám em mim; eu abomino de qualquer outra Pátria que nom se nomee A Fuga.

Dos documentos, só amaria aqueles nos que se acadara borrar-me como cidadão, nos que se constata-se o meu anelo de nom ser massa, nom ser número, nom ser mera parte dumha nada homologada; aqueles que testemunhem minha paixom de correr, partir, fugir, sempre na busca dumha Margem onde, polo menos, índa me fosse dado respirar sem tanta dor. Margem desde a qual lançar pedras, entre risas, contra o estabelecido… Mais pedras, todas as pedras, a ilusom das derradeiras pedras.

Nom, nom som de Europa, o mesmo que nom som de Espanha. Minha naçom som meus passos e minha identidade está no que ando inventando, construindo, um monstro que por fortuna segue escapando ao Dicionário.

E, quando miro ao meu redor, dando um descanso á idiota e insone visom do meu embigo que me constitue como escritor (que feios, os escritores!), descubro que “tampouco som tam poucas as gentes nom-europeias do continente europeu”, gentes sem naçom, gentes que se sabem indocumentáveis, ao seu pesar “registradas”, em caminho cara a lugares sem “submundos”, em caminho cara a identidades sem nome, em caminho cara ás margens que som.

Nom, nom som de Europa.

Di um professor:
“Que é a Uniom Europeia, além dum engenho político-empresarial envelhecido, caduco, que surgeu para competir milhor com EEUU e Japom, os seus sócios-rivais de entom na pugna pola hegemonia económica planetária? Que tinham a ver, em termos culturais e identitários, um latino mediterrâneo cum alemám, cum eslavo ou cum nórdico? Que tinham a ver entre eles, á parte do interese crematístico e de domínio das suas respetivas elites políticas, económicas e culturais? Para que serve agora que cambiarom por completo os dados do problema, e ai estám tamém China, Índia, outras potências do que se denominava como “Afastado e Médio Oriente”, economias latinoamericanas “emergentes”, etc., e ela mesma comprendeu que quedou sem fol, sem força, e a quem já só resta-lhe esperar um ocaso nom demasiado traumático?

Em parte serve para o mesmo: para seguir dando “voltas de porca” á opresom das trabalhadoras continentais, definitivamente amarradas ao Emprego e polo Emprego, e a quem se lhes aumenta e diminue circunstancialmente a sua capacidade de consumo (de mercadorias, de serviços) para conseguir que ladrem pola conservaçom do seu poder adquisitivo e que só ladrem em diante por isso. Que ladrem e que já nunca mordam. O Estado do Benestar é o ladrido popular que milhor serve ao sistema capitalista, de feito é sua “utopia”, como é sabido.

E serviu tamém para instaurar umha modalidade nova de colonizaçom, umha sorte de “imperialismo interior” que converteu aos estados do sur da própria Uniom Europeia (Espanha, Portugal, Grécia) num recurso mais para a prosperidade das potências economicamente hegemónicas, particularmente Alemanha. Umha modalidade inédita de vassalagem política e umha diminuçom enorme de soberania democrática coroou esse processo explorador. “Sem Deus, nom há Salvaçom”, disseram-nos. “Sem o Estado, nom há Salvaçom”, dizem-nos. “Sem a Uniom Europeia, a Perdiçom chegará ainda antes”, sugeriram-nos pronto”.

Resposta um negro, umha polaca, um tolo, umha mulher, umha criança, um migrante, um preso, umha escrava: “Oxalá pudéramos botar a Europa, essa carrapata saciada de sangue, que sae todas as noites de copas, destes terreos! Oxalá pudéramos expulsar a Europa do continente europeio!”

Saúde.

Pedro García Olivo
Buenos Aires, 3 de julho de 2017

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