ALGO MAIS QUE TIRAR TUDO POLA BORDA x Pedro García Olivo

Recolho do seu muro dumha rede da internet e traduzo este relato breve, esta genialidade reflexiva de Pedro García Olivo (a quem o conto entre meus maestros) falando de quem subtitula como:

Deixar o dado sem se deixar a um: Antonio, o insubmisso estranho dum lugar chamado “Libros”.

Deixá-lo todo tem-se feito. Tirar pola borda propriedades, empregos, poupanças, famílias inteiras, pátrias, ideologias… tem-se feito. Tirar-se um pola borda de si mesmo, podendo eleger entre as diversas vias da autodestruiçom, tem-se feito. Todo isso já se tem feito, fai-sez e seguirá a fazer-se. Apenas interessa.

Mas Antonio, esse home com o que me cruzava polos arredores de Ademuz, fez algo mais, que tem ficado em meu cérebro e no meu coraçom.

Como Gauguin, deixou sua opulenta vida burguesa, sua instalaçom capitalista, “esse sujo desfrute, esse lamentável bem-estar” a que se referia Nietzsche. Desembaraçou-se da casa, a esposa, os filhos, sua cátedra na Universidade, suas viagens por todo mundo, seus jantares em restaurantes, suas compras… Desembaraçou-se, afinal de contas, da “venda” de sua vida, da venda do seu ser.
Mas todo isso já se tem feito…

E foi-se á aldeia na que seus pais tinham umha casa boa e grande. Mas foi-se para nom usa-la, para nom viver nela.
E isto já nom se fez tanto.

Decidiu nom ter nenhuma moradia, viver à intempérie como os animais, procurando abrigos de circunstâncias, segundo as estaçons e segundo o rumo de seus passos.
Isto apenas fai-se…

Decidiu deixar de comprar, deixou de verdade de usar o dinheiro (esse dinheiro que tinha, e que tinha em grandes quantidades). E começou a alimentar-se do que encontrava polos caminhos, pola beira do rio, nos campos…

A primeira vez que me cruzei com ele, levava um cubo cheio de caracois, seguro que para o jantar. Ia com o peito ao ar, a sua tez enegrecida, umha barba selvagem por abandonada que quase lhe chegava ao embigo…

Mas depois barbeou-se e usou camisas que lhe deram, porque também nom queria se assimilar a essa tediosa imagem do primitivista desleixado…
E isso, romper e desmarcar-se da ruptura gremial, já nom se faz muito.

E puséra-se a trabalhar nas brigadas florestais da zona. Nom para ganhar dinheiro, que lhe sobrava, senom para estar com gente, falar com a gente e, de passagem, ajudar de algum modo ao monte, enfrentando-se quando era preciso aos ajudadores oficiais do monte. Nom pôde evitar, por tanto, que sua fortuna continuara crescendo. O que sim evitou é usa-la, pois segue sem comprar e sem rebaixar-se ante o Capital.

Conhecim sua tia e ao marido desta em Palencia, na Casa da Cultura da cidade, onde fum para apresentar “Desesperar”. Foi umha bonita casualidade… “Meu sobrinho Antonio estaria de acordo em tudo com você, pois ele também deixou as classes, o ensino, e foi viver com muito pouco, com quase nada. Mas o seu já é demasiado, que também nom usa a casa da família e vive em grutas ou embaixo das pontes, como se fosse um animal. A ver se reunimos-nos este verão em Libros e convencemo-lo de que nom se maltrate tanto!”.

“Ter como se nom se tivesse”, recomendava Séneca. E Antonio que, até onde o conheço, mal recomenda nada, vive assim. Nom “publica” sua existência e nom arvora nenhuma bandeira. Vivendo desse modo, quase como ninguém, costuma dizer que é impossível viver fora do Sistema…

Se queres que vinga a ver-te, já sabes que chegará a pé, médio descalço, cruzando montanhas e vales, polo que lhe custará um montom de horas a visita, mas ele fara-o.

A última vez que coincidim com ele foi num autocarro que leva a Teruel. Como sempre, Antonio cumprimentou a todos os viajantes, que eram sozinho três, e conversou animadamente com eles. Falavam dos revelhons, dos fungos, dos cogumelos silvestres que estavam recém brotando graças às chuvas da primavera.

A gente estima-o, reconhecendo e aceitando sua bela anomalia, sua sã excentricidade.

É um homem afável, que conversa com todos e de tudo. É um homem culto, que passa a vida lendo: “Minha droga som os livros”, disse-lhe a um amigo comum.

É um homem com um montom de amigos, e de amizades muito diversas. “Tem amigos desses que parecem astronautas e chegam em inverno com roupas grossas de cores rechamantes, quase inflados, crendo quiçá que aqui a gente morre de frio; tem amigos com garavata e jaqueta, como nom há ninguém na aldeia; tem amigos com os cabelos longos amarrados, trançados bem como fazíamos as cordas, mas um pouco mais sujos, tal qual se vêem pola tv quando reportam manifestaçons; tem toda a classe de amigos e também nos tem a nós”: deste jeito expressam-se seus vizinhos.

Antonio dedica-se também a ajudar às gentes de Libros, em todo o que pode: limpando currais, recolhendo a amêndoa ou fazendo a vendima, carregando sacos, lendo-lhes cartas e documentos que nom entendem… Aceita assim mesmo o apoio dos demais.
E tudo isto mal se fez.

Por isso, eu estimo a Antonio mais que a Gauguin e acima de Séneca; por isso simpatizo com ele mais que com aqueles primitivistas de catecismo que também tenho conhecido e com nom poucos anti-sistema perfeitamente sistematizados que tanto abundam em nossas cidades.

E é que, passo a passo, lavrou-se umha forma de insubmissom que pode levar sua assinatura, um modo de rebeldia que nom se difunde nem publicita, que nom acompanha à venda de nada e que se leva bem com cada célula de seu corpo, com cada gota de seu sangue, com cada partícula do seu ser.
E mal ficam já pessoas assim.

Conquanto guardo-lhe as distâncias, e sigo sua vida um pouco de longe, faz tempo que o conto entre meus maestros.

Pedro García Olivo
Buenos Aires, 12 de setembro de 2017

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