“Anarquismo de bairro. Umha tese que supera” x Ruymán Rodríguez

O anarquismo de bairro nom pactua com partidos nem quer saber nada das instituiçons. Som o inimigo e estám aí para ser fiscalizados e combatidos, para arrebatar-lhes quanto possamos. Nom para lhes presentear sorrisos, fotos e titulares.

Recolho e traduço de AlasBarricadas esta proposta anarquista que pranteja o canário Ruymán Rodríguez e que, segundo ele, poderia acabar com a falsa disjuntiva entre anarquistas sociais e insurretas (e de ambas com as autónomas); além de criticar a quem claudicou do anarquismo e agora pede rebaixar a crítica cara determinadas instituiçons ocupadas por determinados partidos; soa-vos de algo?:

Já tenho comentado em alguma ocasiom que para mim a polaridade entre anarquismo social e insurreccionalismo é artificial. Tenho concluído que só há anarquismo contemplativo (exclusivamente teórico) e combativo (principalmente prático). No entanto, reconheço que há a quem isto lhe possa resultar insuficiente.

Os conflitos de tendência agudizam-se, e escasseam os espaços de confluência justo quando mais os precisamos. Os vícios do chamado “gueto ideológico” som muitos e de sobra conhecidos: elitismo, hermetismo, seitarismo, endogámia, superioridade moral, desconexom da realidade imediata, etc. Nom faz falta incidir mais nisso. Do que nom se falou tanto, ao menos de forma raciocinada, é dos vícios do suposto “anarquismo sério e responsável”. As críticas têm vindo desde o dogma ou a inactividade, nom desde o compromisso e a militância de rua. Grande parte do anarquismo sesudo fez-nos achar que o maduro e prático é rebaixar a crítica cara determinadas instituiçons ocupadas por determinados partidos. Dizem transversalidade quando em realidade querem falar de branquear a imagem das instituiçons e aspiram a meter um ou dois pés em alguma delas. Têm vendido a claudicaçom como a maioria de idade do anarquismo e se negaram a aceitar que estám vencidos e acabados, ao menos como alternativa transformadora. A sua vez seu discurso anti-gueto, duro, áspero, severo, intolerante, nom faz mais que enrocar ao gueto nas suas posiçons. Quando os escudeiros dos vereadores modernetes te acusam de promover “inúteis” campanhas de abstençom, se te quitam todas as ganhas de sair dos cómodos espaços afins. O discurso anti-gueto é às vezes tam moralista como o pró-gueto, esquece que a militância é também um processo pessoal e que as compas que começam a se implicar devem provar diferentes alternativas denantes de encontrar a própria. Todas passamos por nossa própria etapa de crentes. Se todo vai bem será algo passageiro, mas se te forçam a base de censuras e reproches te pode durar toda a vida. O gueto é umha deriva improdutiva e que aspira à automarginaçom e à cultura do falhanço. Mas para criticá-lo toca fazê-lo desde abaixo, e nom desde a confortável posiçom de quem compadrea nos despachos ou trata de que nom se desestabilice a certas prefeituras.

Entre o reformismo e o gueto cabem vários mundos e também umha tese que vinga a romper essa dicotomía: o anarquismo de bairro.

O anarquismo de bairro poderia ser a proposta que acabe com a falsa disjuntiva entre anarquistas sociais e insurretas (e de ambas com as autónomas, muitas vezes cansadas do peso da etiqueta ácrata). Tal e como o anarquismo sem adjectivos liquidou em seu dia o conflito entre comunistas e coletivistas. Desenvolverei o conceito de forma deliberadamente simples e sem necessidade de citar referências.

O anarquismo de bairro nom é umha proposta nova; só é uhma proposta esquecida. Baseia-se em recuperar o que umha vez fez grande ao anarquismo e o converteu numha arma popular: currar no concreto e centrar-se nas necessidades básicas.

O anarquismo de bairro nom é retórico, nom se importa a que tendência teórica se adscreva quem o pratica. Seu terreno nom é o da discussom ideológica. O anarquismo de bairro gera narrativa e ideias, mas em base a sua actividade. Nom é um recurso quantificável pola teoria abstrata.

O anarquismo de bairro é iminentemente prático e sua força reside em sua capacidade de trabalho, em sua faculdade de ser resolutivo e eficaz. Procura resultados tangíveis que mudem a vida da gente aqui e agora.

O anarquismo de bairro nom perde demasiado tempo em pugnas organizativas, nem se define pelo tipo de estrutura que escolha. Nom é um anarquismo identitário e excludente, senom aberto e ao alcance de qualquer. Retrata-se por sua actividade, seu labor, centrada na vivenda, no laboral, na agricultura de subsistência, na alfabetizaçom livre, etc. Centra-se no primário porque sem as necessidades vitais cobertas nom há espaço para a filosofia.

O anarquismo de bairro curra no meio mais próximo, sem enclausurar-se no local, mas sem ignorar a realidade circundante mais urgente. Seu campo de acçom é o espaço barrial comum, a luta vizinhal e de rua, o imediato. Nom se isola em seu pequeno reduto de urbe, mas também nom divaga obsessivamente sobre marcos longínquos e macros enquanto ainda nom é capaz de interatuar com quem lhe rodeiam e resolver o próximo.

O anarquismo de bairro nom ignora nenhuma luta, mas é um anarquismo principalmente para pobres, pensado por e para as marginadas, excluídas e precárias. Seu principal campo de batalha som as necessidades mais apremiantes: o pam, o teito e o abrigo. Nom subordina a isto o resto de lutas nem nega a multiplicidade das opresons. Mas é trabalhando neste campo, currando com as vizinhas, tecendo redes com as pessoas mais perseguidas e relegadas da sociedade, como se aborda desde o fundo, desde o asfalto e nom desde o laboratório ou a biblioteca, o tema da migraçom, o racismo, a natalidade, a opressom de género, a soberania alimentar ética, etc. Nom há luita para além das pessoas concretas que as devem iniciar, e muitas delas se encontram nos bairros, que é onde as diferentes facetas da opressom, a hierarquia e a desigualdade mostram sua cara mais crua e menos sofisticada.

O anarquismo de bairro nom está pensado para anarquistas que queiram evangelizar aos pobres. Está pensado para pobres em disposiçom de gerar anarquía. A linha divisória entre militantes e receptores de dita militância deve morrer no anarquismo de bairro. Som vizinhas defendendo o bairro, pobres combatendo a pobreza, somos nós resolvendo nossos próprios problemas.

O anarquismo de bairro nom precisa idealizar á gente pobre. Nom explode o mito do “pobre bom”. Nom acha que as pessoas sem recursos sejamos alheias às baixas paixons, os actos viles e a perpetuar a opressom. Mas sabe que apesar do efeito milenário do princípio de autoridade só as que nom temos nada temos a sua vez algum motivo para mudar as coisas. Sabe também que ninguém pode dirigir nossa luta por nós e que ninguém pode nos dar nada que nom tomemos por nós mesmas. Qualquer sistema que se organize sem nossa participaçom está condenado ao fracasso.

O anarquismo de bairro é honesto. Reflexiona em voz alta sobre os próprios fracassos mas sem necessidade de incidir na mitologia da derrota. Também nom é triunfalista, nom vende vitórias que som simples tréguas. É humilde e realista, e sabe que umha pequena conquista é só a antessala de um novo esforço.

O anarquismo de bairro nom pactua com partidos nem quer saber nada das instituiçons. Som o inimigo e estám aí para ser fiscalizados e combatidos, para arrebatar-lhes quanto possamos. Nom para lhes presentear sorrisos, fotos e titulares. O anarquismo de bairro é feroz em sua independência. Constrói-se desde abaixo e nom tem nenhum interesse nas urnas nem em quem se alimentam de votos.

O anarquismo de bairro é a via para recuperar a rua, lutar pelo espaço colectivo, reconquistar imoveis e praças, tomar o comum e devolver às vizinhas. Baseia-se na gestom colectiva dos recursos e o território, em combater a degradaçom do bairro, a deslocaçom forçada, o encarecemento da vida, e fazê-lo sem que o protagonismo se afaste nunca das afectadas. Essa via da rua pode ser usada por todas as libertárias: polas “insus”, sem rebaixar o discurso e sem renunciar a seus orçamentos; polas “sociais”, fazendo verdadeiramente coisas práticas com pessoas reais para além dos livros e artigos sobre inserçom social. Pode-se expropriar um imóvel trabalhando lado a lado com umha família sem fogar sem deixar de ser radical e sem ter que ser assistencialista. Pode-se levantar umha barricada ante um despejo, gerar conflitos e distúrbios para conseguir a paralisaçom do mesmo, sem ser um irresponsável vanguardista e sem dar as costas à acçom popular.

O anarquismo de bairro nom se baseia no que se diz senom no que se faz. Já adverti que era umha proposta simplista. Muitas dirám que isto já se faz e outras directamente faram-no sem lhe dar esse ou outro nome. Mas acho que fazia falta desenvolver um pouco o conceito, dotá-lo dumha mínima entidade, por pequena, singela e humilde que seja, e quiçá começar a identificar as actividades e projectos que podem articular em torno desta tese, criticável e mutável, mas que podemos assumir todas as que estamos fartas de guerras de ideias porque temos necessidade de guerrear na rua.

O anarquismo barrial e de rua retoma hoje formas novas e, sem necessidade de nenhuma denominaçom, estende-se por diferentes partes do Estado. Quiçá a alta política o esmague, quiçá as dinâmicas de retroalimentaçom ideológica nom lhe deixem crescer, quiçá seja fenómeno isolado e passageiro, ou quiçá é umha mragem que só vejo eu desde minha ultraperiféria canária. Seja como seja, ante processos tam arrasadores e crescentes como a gentrificaçom, a turistificaçom, os despejos, o desemprego, a precarizaçom da classe operária, a perseguiçom da populaçom migrante, a exclusom social, a numerosa pobreza feminina e infantil, a indigência cronificada, a reclusom carcerária de geraçons inteiras, a modificaçom drástica do meio urbano e a destruiçom de nossos espaços de socializaçom, esta claro que nom nos fica outra que retomar os bairros se queremos resistir a ofensiva e ser capazes de começar a devolver os golpes. As próximas lutas sociais vam-se livrar nos bairros e se nom queremos ser expulsas dos mesmos e entrega-los debalde aos especuladores toca-nos fincar os pés no chão e preparar-nos para nom lhes ceder nem um palmo de terreno. Se nom articulamos um anarquismo de bairro outros imporam-nos seu fascismo de bairro e passarám por em cima de nós. A luta por esse pequeno espaço é também umha luta pola sobrevivência e morrer nom deveria entrar em nossos cálculos.

Imagem: Pintada num muro de Córdoba

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