Estimadas brancas x Fàtima Aatar

Fàtima Aatar, antropóloga, feminista islámica e militante do BDS (Boicote, Desinvestimento e Sançons a Israel), residente em Barcelona escreveu este moi interesante artigo no jornal digital catalá Directa como proposta de debate que já é hora de encarar. Jurde num momento em que outras vozes racializadas e migrantes de residentes em Catalunya como Daniela Ortiz (de quem já publiquei recém um par de seus artigos), pese reconhecer o direito de autodeterminaçom dos povos, estám a pôr em questom o racismo instituiçonal e que, mesmo a esquerda independentista branca tira do discurso paternalista “espéra-te, isso depois” quando fála-se de reconhecer direitos das pessoas migrantes, racializadas ou solicitantes de asilo.

Estimadas brancas

“Já que ela é a colega indispensável das indígenas, a esquerda é seu primeiro adversário” Sadri Hiari

Sim, estimadas brancas. Dirijo-me a vostedes concretamente porque já é hora de encarar este debate, um debate constantemente postergado porque sempre se nos tem dito que nom é o momento. Um debate que conquanto se tentou encarar, nom se fixo com nossas regras de jogo, isto é, com nossa linguagem, liderança e autonomia. Quando se falou de racismo, se é que alguma vez se falou,  figera-se desde a simplicidade dos preconceitos e os estereotipos, transladando a responsabilidade às classes populares, e evitando, assim, assinalar a causa estrutural deste fenómeno. Isto nom quer dizer que as classes populares brancas nom tenham nenhum tipo de responsabilidade, a têm na reproduçom e a manutençom do racismo, bem como a invisibilidade nas luitas políticas e sociais, porque, afinal de contas, “no fundo é uma questom de classe”, como dizem. Mas nom só, a classe nom se explica por si sozinha, como senom explicaremos a escravitude, a colonizaçom, o apartheid e a limpeza étnica? Pois mostrando a inferioridade e desumanizaçom das Outras que se realiza através da raça.

Há que começar a falar da importância e a centralidade da raça em nossas sociedades atuais e, sobretudo, na construçom histórica dos estados-naçom. Nom fai falha mencionar que quando nos referimos a raça, partimos de uma construçom social, histórica e política que se materializa nuns corpos concretos. Isto choca de maneira frontal com o discurso da diversidade, que muito com frequência se utilizou como antídoto contra o racismo, já que pom sobre a mesa que a diferença nom é preexistente senom que é a desigualdade a condiçom que possibilita sua existência. Deixamos de dizer que é necessário promover a diversidade, a diversidade já se promove por si sozinha, o que fai falha é luitar e combater a desigualdade que marca que uma determinada diversidade seja problemática. Por que, entom, as pessoas brancas nom som consideradas como diferentes? Nom som diferentes porque ocupam uma posiçom de poder que no eixo racial se considera a norma. Digo posiçom de poder para fazer explícito que nom se trata de uma cor de pele, que também nom é uma opçom individual, senom que se insere no complexo sistema de relaçons sociais. Em consequência, passa que, o mesmo que com o género, uma pessoa branca que nom sustenta as opresons raciais direitamente tem que ser consciente da posiçom que ocupa na sociedade para nom acabar na mesma dinâmica do “not all men” (1).

Tampouco está a negar-se a quantidade dessas desigualdades que podem estar a afetar a vida das pessoas brancas, ser branca nom quer dizer ser uma privilegiada em tudo, é verdade que se dam situaçons de precariedade laboral, desigualdades de género, discriminaçons por orientaçom sexual, etc. Mas quando se trata da raça, as pessoas brancas têm de aprender a dar um passo atrás e calar, do mesmo modo que pedimos aos homens que o fagam na luita feminista.

De feito, se temos uma compreensom fanoniana (2) do racismo, entenderemos porque é problemático falar de outras desigualdades quando fazemos questom da raça. Segundo Frantz Fanon, há uma linha divisória que separa a zona do Ser e a zona do Nom-Ser. Esta divisom é racial, de forma que as pessoas racializadas ficam na zona do Nom-Ser e as pessoas brancas na zona do Ser. Na zona do Ser dam-se múltiplas opressons (de género, de classe, etc.) mas existem mecanismos de luita como o direito. Em mudança, na zona do Nom-Ser também existem estas opressons mas estám imbricadas com a opressom de raça. Isto quer dizer que nem os direitos humanos, nem o direito internacional operam nesta zona.  Opera a violência, a despossessom e se fai falha o extermínio. E senom, porque achais que as Resoluçons das Naçons Unidas ou os tratados internacionais som nada em Palestina? Precisamente, porque as palestinianas estám na zona do Nom-Ser, de forma que, as palestinianas só existem mortas, como dizia Santiago Alba Rico.

Há quem pensará que isto de falar de “brancas” é racismo ou, como dizem outros, racismo inverso. Mas nom, o racismo inverso nom existe do mesmo modo que tampouco existe o “hembrismo”, porque quem se atopa na cúspide da pirâmide dos privilégios tem todas as condiçons materiais e simbólicas a seu favor, de forma que, quem questiona este poder o fai de maneira dissidente, de baixo para acima.

Também dirám que nos equivocámos de inimigo, sobretudo tendo em conta que temos a extrema direita campando com total impunidade, mas quando se quer avançar se tem que fazer bem e no antiracismo nom se estám a fazer bem. Temos claro quem é o inimigo, precisamente por isso damos  passo ao debate, porque sem debate a luita nom avança.

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(1) O 23 de maio de 2014 Elliot Rodger, de 22 anos de idade, cometia o massacre na Ilha Vista, Califórnia que deixou 6 pessoas mortas e 14 feridas, e que ele mesmo descreveu como um desejo de castigar às mulheres por recusar-lhe e também o desejo de castigar aos homens sexualmente ativos por viver uma vida melhor que ele. A atividade em Internet do assassino foi catalogada como misógina e o ódio às mulheres como um factor básico para perpetrar os assassinatos. A raiz deste massacre e a campanha que gerou, alguns usuários de Twitter argumentaram que nom todos os homens (#*NotAllMen) som assim, ou cometeriam tais delitos. Outros responderam satirizando estes argumentos e qualificando tais como defensivos e evasivos ante um tema tam incómodo como o é a violência e o sexismo.

(2) Concepçom Fanoniana do Racismo.- Para Fanon, o racismo é uma hierarquia global de superioridade e inferiodade sobre a linha do humano que tem sido politicamente produzida e reproduzida durante séculos polo “Sistema imperialista/ocidentalocéntrico/capitalista/patriarcal/moderno/colonial”. As pessoas que estám acima da linha do humano som reconhecidas socialmente em sua humanidade como seres humanos com direito e acesso a subjetividade, direitos humanos/cidadás/civis/laborais. As pessoas por embaixo da linha do humano som consideradas sub-humanas ou nom-humanas, isto é, sua humanidade está questionada e, por tanto, negada.

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