Rafael Nahuel, “peñi” mapuche de 22 anos, assassinado pola polícia argentina

Todas as notícias que nos chegam estes dias da Argentina polos medios oficiais e oficiosos do Gram Capital, falam em exclusiva dos 44 militares profissionais que morrerom no fundo do mar a consequência dum acidente do seu submarino. Uma morte trágica com muito morbo de 44 pessoas branquinhas de cara e de profissom pro-sistémica, herdeiras daqueles que assassinavam anarquistas e outras disidentes no casino de oficiais da “Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA)” que funcionara durante a última ditadura cívico militar (1976-1983) como centro clandestino de detençom, tortura e extermínio de arredor de 5 mil pessoas. E digo herdeiras porque a transaçom da ditadura á democracia foi um plágio da espanhola a efeitos de nom ter feito nos estamentos políticos, militares e judiciais, nenhuma limpeza de elementos fascistas das suas filas.

A morte de 44 pessoas no mar é sempre trágica, semelha que o feito de que estas mortes sucederam a quem nom tinham terra baixo seus pês déra-lhe mais transcendência mediática; mas nom sempre é assim. No Mediterráneo já nom som noticia -que mereça algo mais que uma simples resenha numérica de quantas mortas tocam cada dia- as inúmeras mortes das pessoas que afogam tratando de chegar desde terras africanas ou arabes até as costas europeias. Desde a famosa foto que se figera “viral” do meninho sírio de 3 anos, Aylan Kurdi, morto na beira da praia em 2015, nenhuma outra instantánea tivo tirom mediático e nenhuma outra crónica meresceu um trato prolongado nos mass médias sobre este desastre crónico, diante o qual, as europeias mais concienciadas fechamos nossos olhos cúmplices e as outras mais belicosas e racistas mesmo pedem ou desejam que morram todas as imigrantes no intento.

Dos 44 militares argentinos, mortos a miles de kilómetros da nossa terra, hoje podemos saber desde quando nasceram até quando ingresaram no corpo militar, sua graduaçom e méritos navais; das miles de pessoas que morreram no Mediterráneo e que seguem morrendo hoje, nunca nos digeram nem sequer seus nomes; nom contam porque sua cor de pel negra, sua origem pobre, e suas ânsias de viver nom dam para vender jornais nem para aupar-se no mais visto ou ouvido nos niveis de audiência.

E por suposto, nenhuma palavra do assassinato do peñi (*) Rafael Nahuel de só 22 anos morto por disparo de bala polas costas a mãos dum membro do grupo especial da polícia argentina Albatros, dependente da fiscalia argentina, quando o peñi resistia junto membros da sua família (ás que fora vissitar) e outras mapuches na defessa dum território recuperado. Na Argentina andam revoltos os falsimédios para tratar de tergiversar a verdade e culpabilizar desta nova morte, a mãos das forças armadas argentinas, á luita do povo Mapuche, tal como já figeram coa morte e desapariçom de Santiago Maldonado.

A Revista Crítica conta assim o sucesso em voz dum outro peñi ferido, declaraçom que traduzo, extraio e colo:

Caeu Rafael ao chão e berrava: “Nom podo respirar, nom podo respirar”

Desde o Lof Lafken Winkul Mapu, um integrante da comunidade, ferido de bala, descreviu como foi a repressom do grupo Albatros e o assassinato do moço mapuche de 22 anos.

A repressom começara na quinta, joves, quando ingresaram ao território, de madrugada. Empezarom a agarrar ás lamienes (mulheres) e ás crianças. A nós perseguírom-nos por todo o monte. Eram os do grupo especial Albatros, de Prefeitura. Sairom a dar-nos caça. Nós defendémo-nos com pedras e paus, mais nada. E eles tirávam com muniçons de chumbo, sem medir consequências.

A pesar desse operativo seguimos resistindo dentro do território. Estivemos a escapar durante toda a noite. Seguíam-nos com drons, com lanternas. Os Albatros levavam suas caras pintadas, camuflados, e iam arrastrándo-se polo chão.

Ontem puidemos descansar um pouco, e comer algo. Ás quatro da tarde, quando estavamos reunidas, escuitamos um berro: “¡Quietos, al suelo!”, aparecerom da nada e tirárom-nos a matar. Nom digeram quem eram.

Nós respondemos com pedras, pero de seguido percatámo-nos de que estavam a tirar com chumbo. Aí ferirom ao primeiro peñi. Ele berrou: “Dérom-me, dérom-me!”. Démo-nos conta que estavam a tirar com muniçom 9 milímetros. Agachámo-nos, e as balas rebotavam por todos lados. Outra lamién (*) foi ferida no ombreiro, a bala pasou-lhe de lado a lado.

Num momento sentimos um berro, caeu o peñi Rafael ao chão e berrava: “Ahhh, nom podo respirar, nom podo respirar!”. E quando o arrastramos para ver o que tinha, pechárase-lhe o peito. O tiro entrára-lhe por ai (sinála-se a zona da cadeira), e saía-lhe por acá (as costelas). Pero em verdade nom lhe terminou de sair, quedou encaixado nas suas costas, tinha como inchado, como sobresaido, e estivo a agonizar un tempo.

Figémos-lhe reanimaçom. Tornou-se pálido, estava frio. Entanto o baixavamos desde arriba do cerro, morréu-se-nos.

Quando chegamos á base quigérom-nos seguir reprimindo. Apuntávam-nos cos seus fusis, e a Polícia Federal estava com pistolas na mão, coma se fóssemos terroristas. Nós vinhamos coas mãos levantadas, pedindo por favor que nos deixaram sacar o corpo, porque o peñi morréu-se-nos á metade do caminho, nos nossos braços.

Baixamos ao peñi e deixamos o seu corpo, porque nós nom nos queriamos entregar. Eles apuntávam-nos con fusis e pistolas. Digérom-nos “déjenlo ahí y vengan”, como jeito de reclamo para caçar-nos. Ai deixámo-lo, e tivérom-no como até as 12 da noite, tirado, como a um cam.

O que lhe passou a Rafael Nahuel é uma tristeza; fóise-nos um peñi que contava 22 anos. Matarom um moçinho. Foi o grupo Albatros o que començara aos balaços. Nom houvera enfrontamento. E agora querem tapar a realidade do que se passou. Eles vinherom caçar mapuches. Querem fazer o mesmo que na Pu Lof, é dizer, lavar-se as maõs. Pero neste caso nom vam poder faze-lo, porque nós estamos todos tiroteados, e eles nom tenhem nem um só ferido.

Nós tinhamos pedras e paus. Que podiamos fazer com isso? Uma bala mata!

Nom é verdade que houvera diálogos de negociaçom nem nada do estilo. Acá veu a fiscal o mércores, riu de nós, e dixo que se nom despejavamos de jeito pacífico, ia reprimir e mandar a todos os efetivos que fossem necessários. Estavam as criancinhas jogando fronte ela, pero nom lhe importou. O joves na madrugada, a isso das 5, começou o despejo. Bateram nas mulheres que ficaram lá arriba e ás crianças tirárom-lhes gas pementa aos seus olhos.

Esnaquizarom duas casas que figeramos. Machucarom-nos a sementa, levarom-se nossas roupas, nossa comida, romperom e levarom tudo, e contaminárom-nos o território.

Existe documentaçom que avala -mesmo legalmente- que estes territórios som ancestralmente mapuches. É uma luita de mais de 500 anos.

Aos peñi desta zona leváram-nos ao Museo de La Plata, e ali exibíam-nos. Aos nossos avos e avoas na altura vinherom-nas matar, como a nós vinhérom-nos matar agora.

Nós imos seguir acá pacíficamente, como sempre estivemos. Queremos que nos devolvam um anaco de terra, para poder trabalha-la. Agora metérom-se desta forma, a matar-nos, como nos matam desde há 200 anos, nos bairros pobres, ás irmás que trabalham nos campos. E disso nom se sabe nada, nom é notícia.

Dim-nos que somos terroristas, porque nos encarapuchamos. Pero em verdade, encarapuchámo-nos por seguridade: temos quatro peñi detidos, dous que baixaram pedir que nom nos disparem mais, e outros dous que forom quem levaram o corpo de Rafael.

Acá houvo feridas de bala, e somos nós as únicas feridas. O morto é nosso”.

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(*) peñi e lamién (irmão e irmã mapuches)

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