Kropotkin e Papá Noel.- Uma história de apoio mútuo

Colo da A.N.A. este artigo autoria de Ruth Kinna¹, meu desejo para estas festas e aproveito para despedir-me de todas as siareiras deste blogue até o ano vindouro 2018:

“Enterrado sob o Natal está o princípio solidário do apoio mútuo”. Piotr Kropotkin “O Príncipe”

Nom é surpresa alguma descobrir que o teórico anarquista Kropotkin estava interessado polo Natal. Na cultura Russa, S. Nicolau (Николай Чудотворец) é reverenciado como defensor das oprimidas, das fracas e das desamparadas. Kropotkin compartilhava desses sentimentos.

Mas há também uma ligaçom familiar. Como todo mundo sabe, Kropotkin poderia rastrear sua ancestralidade a antiga dinastia Rurjk que governou a Rússia antes do advento dos Romanovs e que, a partir do século I dC, controlavam as rotas comerciais entre Moscova e o Império Bizantino. O ramo da família de Nicolau foi enviado para patrulhar o Mar Negro. Mas Nicolau era um homem espiritual e procurou fugir da pirataria e banditismo pola qual sua família vikinga russa era famosa. Entom, ele se estabeleceu com um novo nome nas terras do sul do Império, hoje a Grécia, e decidiu usar a riqueza que ele tinha acumulado de sua vida de crime para aliviar os sofrimentos das pobres.

Fontes de arquivos nom publicados descobertos recém em Moscova revelam que Kropotkin era fascinado por este laço familiar e da semelhança física marcante entre ele e a figura do Papá Noel, popularizada pola publicaçom de “Uma visita de S. Nicolau” (mais conhecido como “A noite antes do Natal”) em 1823.

Kropotkin nom era tam corpulento como Papá Noel, mas com uma almofada de pelúcia a rechear sua túnica, ele sentiu que poderia passar. Seu amigo Elisée Reclus aconselhou-o a largar a guarniçom da pele sobre a roupa. Essa foi uma boa ideia, pois tamém lhe permitiria usar um pouco mais de preto com o vermelho. Ele decidiu seguir o conselho de Elisée nas renas, tamém, e de usar um trenó conduzido a mam. Kropotkin nom era normalmente dado a fantasiar-se. Mas explorar a semelhança para espalhar a mensagem anarquista era uma excelente propaganda polo feito. Antecipando “V”, Kropotkin pensou que todas poderiamos fazer-nos passar por Papá Noel. Na margem de uma página Kropotkin escreve: “Infiltrem-se nas tendas, distribuam os joguetes!”

Restos rasurados na parte de trás de um cartom postal lê-se:

Na noite antes do Natal, todos nós vamos estar prontos
Enquanto as pessoas estám dormindo, imos realizar nossa influência
Nós imos expropriar bens das tendas, porque é justo
E distribuí-los amplamente, para quem mais precisam deles.

Suas notas sobre este projeto tamém revelam algumas valiosas percepçons a propósito das suas ideias sobre características anarquistas do Natal e de seu pensamento sobre as formas e quais os rituais do Natal Vitoriano deveriam ser adaptados.

“Todos nós sabemos”, escreveu ele, “que as grandes lojas – John Lewis, Harrods e Selfridges – estám começando a explorar o potencial de vendas do Natal, criando cavernas mágicas, grutas e terras encantadas fantásticas para atrair nossos filhos e pressionar-nos para comprar presentes que nom queremos e nom podemos pagar”. “Se você é um de nós”, continuou, “você vai perceber que a magia do Natal depende do sistema de produçom do Papá Natal, nom das tentativas das tendas para seduzi-lo ao consumo de inúteis bens de luxo.

Kropotkin descreveu as oficinas espalhadas polo Pólo Norte, onde os elfos trabalham felizes durante todo o ano, porque eles sabiam que estavam produzindo para o prazer de outras pessoas. Observando que essas oficinas eram estritamente sem fins lucrativos, a base de mam-de-obra artesanal e funcionando em modelos comunais, Kropotkin tratou-as como protótipos para as fábricas do futuro (delineadas em “Campos, Fábricas e Oficinas”).

Algumas pessoas, ele sentia, pensavam que o Papá Noel sonhava em ver que todos recebiram presentes no dia do Natal, era quixotesco, mas poderia ser realizado. Na verdade, a extensom das oficinas – que eram muito caras para manter no Ártico – facilitaria a generalizaçom da produçom pautada polas necessidades e a transformaçom da troca ocasional de presentes em partilha regular. Precisamos dizer às pessoas, Kropotkin escreveu, “que oficinas comunais podem ser estabelecidas em qualquer lugar, e que podemos combinar nossos recursos para assegurar que todos tenham suas necessidades satisfeitas!

Uma das questons que mais incomodou Kropotkin sobre o Natal foi a forma pola qual o papel inspirador que Nicolau desempenhou evocando mitos do Natal, confundido a ética do Natal. Nicolau foi erroneamente representado como um homem caridoso e benevolente: santo, porque ele era beneficente. Absorvido na figura do Papá Noel, as motivaçons de Nicolau para as doaçons se tornaram ainda mais distorcidas pola fixaçom vitoriana por crianças.

Kropotkin realmente nom entendia as ligaçons, mas sentia que refletia uma tentativa de moralizar a infância através de um conceito de pureza que foi simbolizado no nascimento de Jesus. Naturalmente, ele nom poderia imaginar a criaçom do Grande Irmám Papá Noel, que sabe quando as crianças estám dormindo ou acordadas e vem para a cidade, aparentemente sabendo quais entre elas se atreveram a chorar ou ter uma perrencha.

Mas, cedo ou tarde, ele avisou, esta ideia de pureza seria usada para distinguir crianças más e boas, e apenas aquelas do segundo grupo que seriam recompensadas com presentes.

Seja qual for o caso, era importante recuperar deste quiproquó confuso tanto o princípio da compaixom de Nicolau quanto as origens folclóricas de Papá Noel. Nicolau deu porque era torturado pola sua consciência das privaçons de outras pessoas. Embora ele nom fosse um assassino (até onde Kropotkin soubesse), ele compartilhou da mesma ética de Sofia Petrovskaya. E ainda que fosse obviamente importante se preocupar com o bem-estar das crianças, o princípio anarquista era tomar em conta o sofrimento de todas.

Da mesma forma, a prática da doaçom foi erroneamente compreendida, como se necessitasse da implementaçom de um plano centralmente dirigido, supervisionado por um administrador onisciente. Tudo isto estava completamente errado: Papá Noel veio da imaginaçom do povo (basta considerar a gama de nomes locais que Nicolau tinha acumulado – Sinterklaas, Tomte, de Kerstman) e o espraiamento da alegria – através da festividade – foi organizado de baixo para cima.

Enterrado sob o Natal, argumentou Kropotkin, está o princípio solidário do apoio mútuo

Kropotkin apreciou o significado do ritual e o valor real que os indivíduos e as comunidades associavam ao carnaval, aos atos de lembrança e comemoraçom. Ele nom queria abolir o Natal, nem tampouco queria vê-lo republicanizado através de alguma reorganizaçom burocrática obstinada do calendário.

Era importante, no entanto, separar a ética que o Natal apresentava da singularidade da sua celebraçom. Dar uma festa era apenas isso; a extensom do princípio do apoio mútuo e da compaixom à vida cotidiana era outra coisa. Na sociedade capitalista, o Natal abre espaço para bons comportamentos. Enquanto é possível ser cristão uma vez ao ano, o anarquismo é para toda a vida.

Kropotkin percebeu que sua propaganda teria mais chance de sucesso se ele pudesse mostrar como a mensagem anarquista também estava incorporada na cultura mainstream. Suas anotaçons revelam que ele se inspirou particularmente no “Conto de Natal”, de Dickens, para encontrar um veículo para suas ideias. O livro foi amplamente creditado com consolidadas ideias de amor, alegria e boa vontade no Natal. Kropotkin encontrou a genialidade do livro em sua estrutura. Que outra coisa seria a história do encontro de Scrooge com os espíritos dos natais passados, presentes e futuros além de um relato prefigurativo da mudança?

Ao ver o seu presente através de seu passado, Scrooge teve a oportunidade de alterar seus modos avarentos e remoldar o seu futuro e o futuro da família Cratchit. Mesmo que isso só seja lembrado uma vez por ano, Kropotkin pensou, o livro de Dickens emprestou aos anarquistas um veículo perfeito para ensinar esta liçom: alterando o que fazemos hoje, modelando nossos comportamentos segundo os de Nicolau, podemos ajudar a construir um futuro que é como o Natal!
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[1] Ruth Kinna é editora da revista Estudos Anarquistas (“Anarchist Studies”) e professora de Teoria Política na Universidade de Loughborough.

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