Malentendidos: “Anarquistas Indigenas vs. Anarquistas Brancas” – Conversas com Andrew Pedro (do povo Akimel O’odham)

Há dias mantivem uma conversa bem agradável e fluida com um meu compa, anarquista de berço, de palavra e de açom, sobre o pouco que profundizamos em debates construitivos para nós mesmas e para o Anarquismo em geral, e índa menos sobre temas nos que semelhara que já tudo é sabido e nom há volta de folha. A conversa levou-nos ao mundo das crenças em outros mundos e coa mesma ao ateismo versus agnosticismo e desde entom estou a dar-lhe voltas a estes temas. Como casualidade (ou causalidade), ontem navigando pola rede cheguei ao fanzine intitulado “Dossier de los Anarquismos del Abya Yala” publicado polo Grupo Acracia/FALV-IFA de Valdívia, regiom chilena, numa ediçom especial do seu jornal “Acracia” e ne-le atopei o artigo do cabeçalho desta entrada, que vem a ser a trascripçom da entrevista realizada a Andrew Pedro (*) por Christine Prat (*) e traduzido ao castelám por Cristian Del Castillo, e que, além doutros temas, fala desse Ateismo aceitado como único válido para as anarquistas e das crênças indigenas com séculos de memôria viva e tamém dá um repaso ao turismo revolucionário das Anarquistas Brancas que, com uma mentalidade moi colonial consideram que as culturas ancestrais indígenas e suas crênças e rituais som um obstáculo para sua libertaçom.

A forma em que sinto, a sociedade de O’odham, como me foi explicada, os tempos anteriores e como é agora no mundo, todo é similar ao que o Anarquismo quere ser, pero ainda nom é.

Colo acá o vídeo da entrevista (em inglês) e mais a transcripçom que figem eu ao galego:

Anarquistas Indigenas, Anarquistas Brancas.- Conversas com Andrew Pedro (do povo Akimel O’odham)

As Revolucionárias e as Anarquistas, a gente que se definem como Anarquistas, tiverom sempre uma mentalidade moi colonial. Em particular aqui, porque muitas  dentre elas nom se percatam do que dim e como isto afeta ás Indígenas. Isto ocorre, em grande parte, porque elas nom tenhem valores culturais, espirituais ou religiosos, e este nom é o meu problema, formuláde-lo como queirades, temos uma visom diferente. Para mim, que me considero Anarquista, o Anarquismo é uma cortiza superficial do que, o nosso modo de vida tradicional, sinifica para nós. Porque para mi o Anarquismo é a ideia de ser livre de toda forma de opressom, e assim é como nós vivemos desde há moito tempo. Ao meu entender, como povo O’odham eramos livres de viajar por todo nosso território. Tinhamos a Tohono O’odham, Akimel O’odham, Hia C-ed O’odham (*), pero nom havia fronteiras reais, isto nom quere dizer que nós nom estivésemos autorizadas a ir a certas áreas para fazer o que tinhamos que fazer, só simplemente tinhamos que respeitar á gente que já vivia lá. Para mim, moitas Anarquistas Brancas, as de descendência latina tamém, esses tipos de Anarquistas e outras pessoas de Phoenix, e de muitos lugares de Arizona, nom o reconhecem. Ainda estamos acá, ainda mantemos estes valores culturais e espirituais, pero para elas isto é um obstáculo. Fijam-se mais que nada no feito de que nom é Ateismo. Eu nom tenho problemas co Ateismo, pero essa é a sua eleiçom e nós, O’odham, nom imponhemos as nossas crenças sobre ninguém, nós nom obrigamos á gente a compreende-las, porque essas som cousas só para nós, para o povo O’odham de per se. Do mesmo jeito que certos lugares onde imos, certas cerimónias que realizamos, das quais nem sequer lhes contamos a outras Tribos, porque essas som para nós, para o povo O’odham. E estou certo que o mesmo vale para outras Tribos tamém.

A gente de O’odham sempre foi moi inclusiva com outras pessoas. Algumas dim que assim foi como chegamos aqui até estes dias, sendo moi amigáveis com outras pessoas, co cristianismo mesmo, co povo branco, cos espanhois. Essa bondade existia e pôs-nos na situaçom na que estamos agora mesmo. Crio que é por essa forte crença e os fortes valores culturais que tinhamos.

Houvo tempos em que o povo O’odham rebelou-se contra a Igreja Católica e queimou todas as igrejas. Cousas como essas se passaram. Ninguém lembra realmente a verdade, e as Anarquistas, que som case todas ateias, e as suas crenças e valores, veem qualquer tipo de religiom como  opressiva. Pero este nom é sempre o caso. Para empezar, Indigenismo e Anarquismo som ideias moi novas. Para nós, povos indígenas, e crio que mesmo para aquelas que se identificam como Anarquistas, desde o punto de vista político, veem o  indigenismo primeiro que nada.

Andrew Pedro olhando cara o Corredor do Sol

Para mim, o Anarquismo é o nivel superior, a capa superior, o nivel superficial do que para mim sinifica “himdag” (“modo de vida tradicional”), porque essas cousas superpónhem-se. As nossas ideias e nossa forma de fazer as cousas superpónhem-se em diferentes culturas, de diferentes maneiras. A forma em que sinto, a sociedade de O’odham, como me foi explicada, os tempos anteriores e como é agora no mundo, todo é similar ao que o Anarquismo quere ser, pero ainda nom é. Especialmente dentro da forma em que funciona o Anarquismo, esses espaços aos que se dirigem que nom permitem objetos religiosos e cousas assim. Nom querem falar do que sinifica para certas pessoas. Em muitos sentidos há uma perda. Há uma perda porque, em primeiro lugar, nom som de aqui. Nom tenhem essa conexom coa terra, nom tenhem essa conexom com todas estas cousas.

A minha maior esperança para as Anarquistas Brancas, especialmente em Arizona, é que entendam que há uma maneira na que poden ajudar nas luitas indígenas, pero isso nom sinifica que tenha que ser num sentido espiritual. Elas nom tenhem necessidade de compreender o carácter sacro do que Moadag Do’ag [a Montanha do Sur] (*) sinifica para nós. Há Capitalismo, combátam-no, luitem contra o que conhecem. Elas nom tenhem que entender o que isto sinifica para nós, porque estas ensinanças som só para nós, para um certo grupo de gente. E nom tem nada que ver com ser abertas ou rejeitar á gente.

Disto fai centos de anos, algumas dim que miles, que seguimos estas ideias e esta cultura, e nelas estamos. Mentres que a gente, as ancestras – chamáde-las como queirades – das Anarquistas Brancas nom provenhem provavelmente nem sequer de Arizona, ou se remonta a algumas poucas geraçons. Pero nós, de sempre estivemos aqui, assim que temos essas conexons e uma compreensom mais profunda de quanto sinifica, do que este deserto sinifica para nós. A vida de todas estas plantas, de todos estes animais, isto sinifica algo para nós. Elas nom tenhem isto, o que as deixa perplejas, e nom podem opinar porque nom entendem essas cousas. Muitos problemas indígenas -o Colonialismo é um básico- formam parte do que impulsa a estas Anarquistas Brancas a luitar ao princípio. O Capitalismo é uma das raices principais e se nom estades a luitar realmente contra ambos, entom que estades a fazer? Vós nom estades ajudando ninguém, de feito ides ter um comportamento colonial nestas luitas, e nom ides pensar nas Indígenas. Nom quero que um Salvador Branco venha e me ajude a salvar o dia, e tampouco vou ficar ai parado e tomar a mão dum Anarquista Branco para guia-lo todo o tempo. Só necesitam entender o feito de que algumas cousas som para elas e as demais nom o som, e nom há nada malo nisto! A miudo, as Anarquistas Brancas sentem-se derrotadas quando nós dizémos-lhes agora nom imos participar, porque temos as nossas vidas, temos um todo outro mundo. A Reserva em si é um outro mundo. Isto nom vai rápido, fazemos as cousas de maneira distinta, som valores culturais diferentes os que se aplicam . Ainda que as pessoas nom tenham uma cultura em particular, nom podem compreender todo o que é-lhes diferente. A forma em que analisamos as cousas na nossa cabeça nom é a mesma que a das pessoas das cidades.

Por tanto, é bastante difícil ter conversas úteis com muitas Anarquistas Brancas, porque estám atascadas no seu mundo, no seu “tenho razom”, e por tanto esta é uma mentalidade colonial. Esta gente nom sabe do que estamos a falar, nom vivem aqui, com tudo, é o nosso território!

Moadag Do’ag Protesto indígena contra o Corredor do Sol

No passado, há aproximadamente 5 anos, tivemos bastantes problemas com um novo grupo anarquista que vinham mais ou menos do movemento “Occupy”. Som sempre moi “de esquerdas” no seu modo de organizar-se, e elas organízam-se a miúdo cos grupos de esquerda de Phoenix. Suponho que nom se entende realmente, talvez nem sequer por elas, talvez nom estám certas do que o  Anarquismo sinifica para elas. O que causa índa mais problemas, se nom sabes o que estás a fazer, para que o fâs. Incluso certos grupos antifa, agora, começam a fazer o mesmo e nom som pois moi abertas cara aos povos indígenas. Sentem-se incómodas porque elas veem duma maneira moi “branca”. Havia um grupo que já nom existe agora, que se definia como Anarquista, “Combatemos o Capitalismo”, “Loita por isto, loita por isso”, pero só eram palavras. O projeto capitalista mais grande de  Arizona é o periférico 202, o Corredor do Sol, e ninguém sabe de que estás a falar quando tratas de falar com elas. Essa é uma parte do problema. Deveriam encarregar-se de aprender o que está a suceder na área que habitam. E saber que há uma conexom coas Indígenas. Pero para isso elas necessitam compreender que há cousas sagradas, fálta-lhes uma vida enteira para compreender que é algo que te toma toda a tua vida, que nom é algo que poidamos explicar simplemente num vídeo ou num correio electrónico. Estas som cousas que nos tomam toda a nossa vida e a compreensom plena do que realmente sucede. Dizemos que elas nom entenderám, só polo que som, som brancas, som latinas, e nom o entenderám como nós.

Estas cousas aféitam-lhes de maneira diferente que a nós, porque temos a firme crença de que ao final isto irá bem para nós. Ainda que sejam 20 anos -e espero que isto nom suceda-, pero em 20 anos, se estas autoestradas estám aqui, haverá gente que ainda estará viva e praticando a nossa cultura e farémos-lho pagar, dum modo ou outro. Coas Anarquistas isto nom é assim. Vejo a miúdo ao  Anarquismo Branco como uma história de vitórias a moi curto prazo, isto é intrínseco á sua  crença de que podem okupar o terreo, pero que quere dizer “okupar o terreo” num território ocupado? Ter uma livraria anarquista em algures, se nom reconhecedes ás Indígenas, isso é colonial para mim. É parte do problema. Crio que sodes Anarquistas se sodes Anticapitalistas em todos os sentidos do termo, Antifascistas, etc. pero se nom tendes uma posiçom política Anticolonial, nom sodes milhor que qualquer outra.

Andrew Pedro, Akimel O’odham (Pima)

Arizona, regiom norteamericana.

Conversa transcrita por Christine Prat

Traduzido ao galego por O Gajeiro
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NOTAS (do gajeiro)

(*) Andrew Pedro é um Anarquista Indígena da rexiom de Arizona que está em luita pola sua terra. Na atualidade estám em luita contra da construiçom do muro de separaçom entre EEUU e México e levam anos de luita contra do periférico 202, o Corredor do Sol.

(*) Christine Prat , mulher de origem francês com contatos no Sudoeste dos Estados Unidos – Arizona/Novo México e membra do Conselho de Administraçom da CSIA-nitassinan (Comitê de Solidariedade com Indianas das Américas) e que no seu blog persoal tenta fazer um seu pequeno contributo para as trocas entre todas aquelas que luitam contra os mesmos inimigos, os mesmos poderes e as mesmas multinacionais que causam os mesmos desastres e a mesma opressom em todo o mundo.

(*) Tohono O’odham (“gente do deserto”), Akimel O’odham (“gente do rio”) e Hia C-ed O’odham (“gente das dunas”) som diferentes povo originários da zona que ocupam o estado de Arizona e a costa norte do Golfo de Califórnia (EEUU) e os estados mexicanos de Sonora e Chihuahua. Som diferentes tribus mas guardam estreitas ligaçons entre eles.

(*) Moadag Do’ag Os povos originários O’odham consideram esta montanha sagrada e consideram que o periférico 202, “O Corredor do Sol” a profana e consideram que os governos estatal e federais nom figeram nada para proteger este seu lugar emblemático tanto cultural como religioso.

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