“8 de março, que nojo” x Maria Galindo

Conhecim María Galindo na altura das mobilizaçons do Prestige, numa vissita que figera á desaparecida Casa Encantada de Compostela. Já soubera dela pola minha companheira de entom, quem era siareira do coletivo boliviano “Mujeres Creando”; desde entom quando me chega um seu texto é moi raro que nom o compartilhe dalgum jeito, dado que é uma das pessoas que tenhem essa capacidade de abrir-me os olhos e a mente a outras realidades que me som alheias na minha cotidianidade de home branco europeio com trabalho estável. Nom é a primeira vez que traduzo um seu texto e dou-lhe pulo nalgum site de informaçom alternativa. De tal jeito na anterior etapa de Abordaxe já publiquei várias entradas sobre este coletivo “Mujeres Creando” e sobre María Galindo, uma luitadora que se autodefine Anarquista e Puta e da que, denantes de reproduzir (e traduzir) seu novo texto publicado ontem na web boliviana Página Siete desde a perspetiva das “mulheres do sul do mundo”, uma visom crítica com a “celebraçom” do 8 de março, colo esta sua cita refletida na entrevista publicada no desaparecido jornal Diagonal em abril de 2015:

“Sou consciente de que nos estám a roubar até a palavra ‘feminismo’. Um dos atos do poder é devorar tudo, ser tudo e que nada tenha sentido fora do sentido que o poder assigna às cousas, de aí a necessidade de apropriar-se da palavra, do território feminista, a necessidade de coopta-lo, devora-lo e desprovê-lo do seu sentido subversivo e inquietante.”

Está claro que o Dia da Mulher, o Dia do Índio ou do Discapacitado som dias absurdos que como tantos outros costumam servir para que, quem governam em nome dos interesses do homem branco, são, heterosexual, católico, se dirijam a esses “outros” para nos felicitar, para nos recordar que nos outorgaram tal ou qual direito retórico e periférico, que nom afecta a pirâmide de privilégios do sistema, e para nos recordar que suas políticas de inclusom, igualdade e demais trilhados temas som propostas que requerem nossa infinita paciência para assumir que imos por um bom caminho para alguma situaçom que algum dia será milhor. Convertem-se em dias quando praticamente se nos bota em cara que nom é necessária nenhuma revoluçom para mudar as coisas, senom que com uma lista de demandas basta.

Especialmente no Dia da Mulher tem chegado a seu limite de toxicidade ideológica, porque serve tamém para que organismos internacionais justifiquem seu estrago de dinheiro e seus jogosos salários em nome da pobreza das mulheres ou da violência machista que sofremos. Até as empresas aproveitam para fazer marketing e vender-nos alguma coisa. Em Bolívia no Dia da Mulher aplaudese-nos a abnegaçom, aplaudese-nos o nom ter tempo nem para ir ao banho e se nos recorda que em toda a história de Bolívia há só duas mulheres com nome próprio: Juana Azurduy e Bartolina Sisa.

Reconhecidas porque irromperam com armas na versom masculina da história.

Quem entendemos a luita feminista como um feito quotidiano, como uma prática que envolve todo o pensar e o sentir, vemos com certa mal-estar o esforço de organizaçons feministas que a escala mundial se mobilizam por um dia e cuja força, e resistência, apenas lhes alcança para isso, mobilizar-se um dia. Aparecem o 8 de março e desaparecem o 9, como se de uma estrela fugaz se tratasse.

Quem entendemos a luita feminista como um fenómeno planetário presente hoje em todos os cantos, culturas e latitudes do mundo, entendemos que nom há um feminismo, senom muitos feminismos diferentes e que as mulheres do sul do mundo nom somos herdeiras, nem filhas das sufragistas, nem temos conexom histórica com as operárias queimadas nas fábricas da Revoluçom Industrial, que o 8 de março evoca.

As mulheres do sul do mundo somos os corpos e os sonhos descartáveis.

Somos as mulheres ancoradas na luita por subsistir, nom somos as mulheres com espaço para procurar milhoras salariais ou milhores condiçons de trabalho no espaço que ocupamos; senom que somos as que nom temos espaço laboral algum, polo que andamos inventando a vida a cada dia por fora de todo marco laboral ou salarial.

Nom somos as estrelas de Hollywood que acordaram de seu longo sonho para dizer basta ao assédio sexual em frente a milhares de câmaras; somos as meninhas ultramanuseadas, multiplemente violadas que aprendemos a correr sem parar, que aprendemos a patear e que nom temos uma janelinha onde denunciar algo que nom saberíamos por onde começar a contar.

Nom somos as vítimas do subdesenvolvimento, senom justamente somos as vítimas descartáveis das políticas de desenvolvimento que converteram a nossas mães de desempregadas a devedoras e a nós em insolventes crónicas. Nosso problema nom é a autoestima, nem o que queremos ser de maiores.

Nom se resume na palavra discriminaçom o lugar que nós ocupamos, tamém nom se resume na palavra igualdade o que andamos procurando.

Há um momento neste caminho no que nos demos conta que este lugar de pária, paridora, servidora 24 horas; este lugar de servidume, este lugar de muda, este lugar de feia tem que ver com a economia, com a cultura, com a política e com tudo sem excepçom.

Por isso nossa luita é política, nom por ser deputadas ou alcaidessas, é mais essas mulheres nom nos representam porque o que representam som os interesses de seus respectivos partidos e caudilhos.

Nossa luita é política porque tem que ver com a sociedade que queremos construir. Temos que resolver juntas essa luita polo tipo de sociedade que queremos construir desde e a partir do que somos, e essa premissa nom cabe dentro de um 8 de março; é uma premissa que abarca 365 dias do ano e o milhor de nossos mais ousados sonhos.

María Galindo (Mujeres Creando).

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A imagem que acompanha este texto é autoria do meu irmão Jesús (“Sombra de Peter Pan”) a quem agradeço infinito que figera esta versom em galego a petiçom minha.

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