“Toma todas tuas trolas” x Gabriela Wiener . Excelente artigo sobre racismo policial e institucional

Recolho (e traduzo) de ElDiario.es este artigo de Gabriela Wiener, escritora, poeta e jornalista de origem peruano e que forma parte do coletivo autogerido “Vaciador 34”

Vim um home negro perseguido numa praça, tombado, algemado, baixo uma bota, que levava uma manta como leva a vida, aferrada.

Fixei-me tantas vezes na cordas das mantas que fam que seja possível envolver e levantar os perfumes, as sapatilhas fúcsias e verde fosforejante, em poucos segundos e sair fugindo coa vida ao ombro. A tecnologia para a supervivência, a estratégia para a fugida permanente, o aroma a falso lujo, a vida falsificada, a imitaçom barata da existência, que deixa atrás, ao passar perto de ti, a pobreça e o medo.

Andei de Sol a Lavapiés e sonhei que via a Rajoy perseguido pola polícia municipal. Corriam ao meu carom case roçándo-me e nem sequer alegráva-me, éra-me completamente indiferente, mera rotina, como uma mosca voando. Nesse sonho todos os dias havia redadas pero só no edifício de Génova.

Tentei cambiar-lhe a letra da Pregária a um labrego por Pregária a um manteiro: “líbra-nos daquel que nos domina na misséria, dá-nos a tua força e valor ao combater”.

Quedei-me uma hora em Instagram vendo as fotos de Marielle Franco“mulher negra, filha do mar”– e a sua mulher. Veem-se tam fermosas e livres e fortes numa praia, pousando coma se se pediram mutuamente a mão, bicándo-se com todos os filtros, sobre tudo com Claremon: Jovens Negras Movendo as Estruturas. Assim se chamava a última palestra á que assistiu antes de ser assassinada.

As balas eram da polícia. O infarto era da polícia. A patera é culpa do Estado. A favela é culpa do Estado. As quatro balas eram da pistola do Estado. O infarto, antes ou despois da polícia, antes ou depois da persecuçom, antes ou depois da deportaçom, que mais dá. E o cartel de Carmena, “Refugees Welcome”, tam falso como uma bandeira de Espanha num balcom.

Comparto a notícia no Facebook e alguém me di que em Lima um moço vendedor ambulante saltou duma ponte de cinco metros para que a polícia nom lhe arrebatara a sua mercadoria, nem os seus quatro duros. Ninguém o auxiliou.

Todo se passa, encadeándo-se de norte a sur como as parras na primavera: uma manifestaçom de pensionistas maciça, uma manifestaçom feminista maciça, uma manifestaçom de migrantes maciça. Mentres o rei esquia com uma completíssima equipa para a neve.

Uma mulher negra assassina de nenos vém bem para negar a violência de gênero.

Uma mulher negra, concelheira no municipio de Río de Janeiro, assassinada pola polícia, nom vém nada bem, nem viva nem morta.

Um home morto em Lavapiés, sem nada, nom vém bem nem vivo nem morto.

Quedei-me horas lendo os comentários que me deixam nas redes: Chola pezuñenta. Pobre cholita sudaca y reputa. Ponte una bolsa de pan en la cabeza. Con razón has tenido una vida promiscua. Quién te va a querer tirar si eres más fea que la de la limpieza. Pobre india escribiendo cojudeces para llamar la atención. Necesita una cirugía de los pies hasta el cerebro la muy zorra.

“Margínam-nos, torturam-nos, sinálam-nos, acóssam-nos, perséguem-nos com motos até a porta das nossas casas”, contam os manteiros.

Nom há autópsia, nem corpo, nem casa, nem papeis. Pero há portadas de jornais nas que os migrantes som os maus e um delegado de seguridade progre que lê esses jornais e repite o mesmo. Para eles a opresom é fortuita, açarosa, o racismo é uma trola. Como os CIEs. Como as pelotas de goma que disparam mentres nadas no tramo Marrocos-Ceuta. Como uma sapatilha Nike aboiando no Tarajal. Toma todas as tuas trolas: Lei de estrangeiria, Diretiva de Retorno, Acordo de Dublin, Eurosur, FRONTEX, CIEs, deportaçons, nom acesso ao voto, multas, penalizaçom da venda ambulante, pena de cárcere, retiro da residência, expulsom. A pobreça, que é uma sentença de morte. E agora escuitade o ruido da gente, como medra a verdade nas ruas.

Vim a Praça Nelson Mandela cheia, vim que a gente avanzava cos olhos cheios e que os negros iam diante e os brancos detrás. E todos diziam que sobreviver nom é delito.

Espanha: dispáras-lhes nos seus paises, dispáras-lhes nas tuas colónias, dispáras-lhes na auga, dispáras-lhes nas fronteiras, dispáras-lhes nas suas casas, dispáras-lhes no seu coraçom.

A minha profissora de Geografia no Perú, a que me ensinou a escala, a latitude e a longitude do mundo, cámbia-le o cueiro ao teu pai, Espanha. Tem um pouco de decência.

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