NOS TEMPOS DA PROTESTA DOMESTICADA x Pedro García Olivo

“Senom se reinstala a criatividade, a imaginaçom, a fantasia, o jogo, o dom recíproco, o gratuito, a poesia e a tolémia extraordinária no seio da resistência contra o estabelecido, podemos morrer de repetiçom, fosilizándo-nos nas eucaristias do esquerdismo tontorrom, como quere a lógica da conflitualidade conservadora”.

Meu amigo Pedro com quem além de ideologia, compartilho lugar e ano de nascemento, segue a ser uma das minhas referências na minha derrota desconstrutiva como home branco europeio com tudos os privilégios por razom de nascemento, sexo e cor de pel. Agora que ele mora em Buenos Aires segue fazéndo-me pensar cada vez que escreve e publica. Recolho co seu permiso do seu blogue “¿Eres la noche? Para perdidos y reinventados”, este seu texto onde trata sobre alguns dos assuntos que abordou recém no C.A.S.O. “La Sala” de Buenos Aires co galho das “Jornadas Anárquicas” desta cidade do além do Atlántico:

NOS TEMPOS DA PROTESTA DOMESTICADA
O anarquismo existencial como resistencia sem regras, dissidência criativa e poética da luita

O panorama da contestaçom social e política nas sociedades democráticas contemporâneas é, literalmente, desolador.

Reivindíca-se o que o Sistema está disposto a conceder, o que de feito anela estabelecer, ainda que prefire que lho pidamos acaloradamente: aumentos de soldo, privilégios corporativos, serviços públicos, reformas benestaristas, regulaçom da vida,…

Protésta-se do jeito que a Administraçom desenhou para gerir desobediências e permitir ás gentes desafogar a sua indignaçom com menos perigo que quando passeiam os domingos polo parque.

Acóde-se a todas as misas, a todas as homilias, a todos os rituais da Consciência Comprometida; e logo regréssa-se ao posto de adaptaçom social, para reproduzir de modo optimizado, mediante a servidume voluntária e o consumo maciço, aquilo que se denega cínicamente nas faixas das manifestaçons legais e das greves autorizadas.

Esgrímem-se discursos do século XIX ou da primeira metade do XX, contra uma repressom que já contemplou cenários para o século XXII…

Pousado, aburrido, fastiante, empobrecedor, auto-justificativo, fóra do tempo e da realidade, esse horizonte da protesta domesticada, alimentado polos patetismos da militância e do doutrinarismo, aparece hoje como um recurso mais para a consolidaçom do Demofascismo, como uma ferramenta entroutras para o fortalecemento do fascimo das democracias, que mobiliza inquisitivamente ás povoaçons.

Já é hora de deixar de seguir receitas teóricas, instruiçons para a desobediência civil, manuais para a luita “politicamente correta”; já abonda de lavar-nos as mãos da cumplicidade e da culpabilidade políticas coa auga e xabrom das convocatórias narcisisto-progressistas e os eventos venales do márketing “alternativo”. Senom se reinstala a criatividade, a imaginaçom, a fantasia, o jogo, o dom recíproco, o gratuito, a poesia e a tolémia extraordinária no seio da resistência contra o estabelecido, podemos morrer de repetiçom, fosilizándo-nos nas eucaristias do esquerdismo tontorrom, como quere a lógica da conflitualidade conservadora.

Sobre esse pano de fundo, pretendemos ressaltar o alcance e a beleza do anarquismo existencial, espiritual, nom doutrinário. Atopamos ai um chafariz de inspiraçons para desarreigar o espectáculo amanhado da oposiçom política baixo as democracias e avançar por vias, individuais e coletivas, de desistematizaçom e de auto-construçom ética e estética para a luita. Porque, domesticada, a protesta dos nossos dias resolveu-se numa forma de religiosidade laica, de fundamentalismo esquizoide para a reproduçom social.

“A vida é a ocasom para um experimento”, um experimento de rebeldia que começa pola re-invençom da nossa própria cotidianidade, pola escultura artística dos nossos dias e das nossas noites. Para isso, há muito que recuperar, que re-criar, nos bio-textos daquelas pessoas existencialmente anarquistas, espiritualmente libertárias, que souberam enfrontar-se á “vida predestinada”, á existência estándar que a Sociedade lhes propunha. Para nada “modelos” e nunca “exemplares”, estes homes e estas mulheres arrojárom-nos perspectivas motivadoras, sugestivas, disparadoras da nossa capacidade de análise e de auto-crítica. Porque, desde que o marxismo rebaixou-se a aquel “matrimónio de conveniência” coa axiomática do Capital e do Estado, converténdo-se no aliado de fundo da opressom, correspondeu ás tradiçons anarquistas nom- dogmáticas manter no alto o punho pecho da dissidência.

Estes som alguns dos temas que, da mão de Bakunin, esse incansável filósofo ativista; do príncipe Kropotkin e do cam Diógenes; de Villón o Golfo e de Artaud o Surreal; de Borrow e de Poe, nenos estranhos, inusitados, e escritores inquietantes mais tarde; de Valle-Inclán, de Vigó, de Baroja, de Gide; do Conde de Lautréamont e de Genet, malditos com aroma de santidade; de Van Gogh o Inesquecível e de De Quincey, orgulhoso comedor de ópio; dos presos de Fontevrault e de Roscigna, o genial expropriador argentino; de Pierre Riviére, um asassasino brilhante que se burlou dos juízes e dos psiquiatras; de Lou Salomé, discípula de Freud que nos preveu de contado contra a psicanálise; de Nietzsche, o velho martelo marteleado pola vida; de Wilde o Paradoxal; da Borten e da Rosas, luitadoras indobregáveis; de Sade e Sacher- Masoch, pais respetivos do sadismo e do masoquismo, muito mais honestos de todos os jeitos que nós, os ocidentais, sadomasoquistas de incógnito; dos maias mesoamericanos e dos Igbo, oito milhons de indígenas africanos vivendo até nom fai muito sem Estado; dos gitanos antigos que tanto estimo e dos pastores tradicionais entre os que me contei; de Philipp Mainländer, o filósofo da «vontade de morrer» que se suicidou moi novo, ao dia seguinte de publicar o seu primeiro e derradeiro livro, intitulado significativamente «Filosofia da Redençom», etcétera; a minha querida família intelectual, a fim de contas, evocada numa perfeita desorde; estes som, dizia, alguns dos assuntos que abordaremos.

 

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