Aqueles machos que diziam ser ‘a tormenta’… x Vicent Partal

Recolho (traduço e colo) do site VilaWeb.cat esta editorial assinada por Vicent Partal sobre a “hombría” das forças armadas espanholas enviadas a Catalunya para tentar atalhar o Procés:

«Agora se nos aparecem como umas personagens atemorizadas que, simples, morriam de medo diante dos berros e as bandeiras da gente»

Em 23 de setembro de 2017, num dos momentos mais tensos do outono republicano catalão, a conta oficial de Twitter da Guarda Civil, fez pública esta piada:

Todo mundo entendeu a que se referia. Era uma ameaça à cidadania catalã e ao governo, em previsão do referendo de autodeterminação que finalmente se celebrou o primeiro de outubro, sem que ‘a tormenta’ o pudesse impedir. Mas a piada refletia um marco cultural violento, ameaçador e profundamente machista, que inclusive se fazia evidente nessa fotografia, com aquele espanhol racial que pousava de uniforme com lentes de sol, boina militar e as mãos situadas cuidadosamente na sua cintura. Preparado para malhar.

O contexto perfeito para interpretar esta piada encontra-se num livro muito interessante, publicado um ano dantes por Nerea Aresti, Karin Peters e Julia Brühne. O livro (¿La España invertebrada? Masculinidad y nación a comienzos del siglo XX, Editorial Comares) faz um estudo interessantíssimo sobre a maneira como se concebe o nacionalismo espanhol a partir duma masculinidade intolerante e agressiva. O muito sobrevalorado Ortega definia-o dizendo que a carência de hombría era a fonte da decadência e a crise de Espanha –e deixo hombría em espanhol porque é muito difícil de traduzir a nenhum outro idioma.

E efectivamente este foi o comportamento da tormenta enquanto esteve na Catalunya. Agressivos, prepotentes, chulos (se permitis-me outra palavra espanhola, que quero ser preciso), carregados de testosterona, crendo ser superiores pelo seu uniforme e suas armas, supremacistas. A imagem que exibiram naqueles hotéis em que, ante o protesto das manifestantes, berravam reclamando que os deixassem bater na gente, dizia-lo tudo.

Como tem passado tantas vezes na história de Espanha, toda esta agressividad masculina ao final foi-lhes de bem pouca utilidade. Trinta mil urnas, em três versões diferentes, circularam por diante sua transportadas, literalmente, por milhares de pessoas. E não atoparam nenhuma. Nem uma. Nem tam sequer puderam impedir de nenhuma forma o referendo. Muito uniforme, muita agressão gratuita, mas muita pouca eficácia. A tormenta, a famosa tormenta, este país resistiu-a de pé, com muita firmeza. E eles se voltaram para seu país, onde, ademais, já não os receberam com aqueles miseráveis gritos de A por ellos…

Não os voltamos ver até estes dias no julgamento e, incompreensivelmente, aquela tormenta que nos anunciavam resulta que se transformou numa apoteose do medo humano. Temerosa. Olha por onde, aqueles mesmos guerreiros duros que se comparavam com os espartanos agora se nos aparecem, agochados das câmaras e refugiados no anonimato, como umas personagens atemorizadas que, simples, morriam de medo diante dos berros e as bandeiras da gente.

Naquele outro livro fundamental que foi Contra Unamuno y los demás Fuster já nos tinha explicado que o españolismo tem sido e é duma inconsistência, humana, extrema: el macizo de la raza –onde macizo era uma referência geológica, não vos penseis– e todas aquelas imbecilidades graníticas quiçás valem para encher livros, mas ao final da noite fica a perplexidade psicológica ante a pantalha do televisor. Uma pantalha onde a tormenta anunciada, por que nos vamos enganar?, semelha-se cada vez mais a uma humilde chuvisca ou inclusive uma poalha inaudível…

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