BREVE RELATO DO CIRCO ELEITORAL x Erick Benítez Martínez

Erick é um compa anarquista mexicano, autor de entroutros ensaios do livro ““La Traición de la Hoz y el Martillo”. Em 2012 escrevera este texto que segue de raivosa atualidade, e que publico agora acá traduzido (*):

Nalguma cidade dalgum país está-se na véspera das eleiçõns.

A vida marcha como na maioria dos países: existe uma massa popular profundamente adormecida pelo ópio que o Estado e suas instituiçons têm destinadas a tais fins; uma enorme nuvem de pessoas exploradas que suportam diariamente os golpes do Estado; e claro (Poderia faltar?) uma pequena elite que vive com todas as comodidades que sua posiçom de exploradores lhes outorga.

Neste panorama apresenta-se periodicamente um ato por médio do qual se elegem aos membros do corpo governamental encarregado de proteger as mordomias da elite dantes mencionada.

Diz-se-te diariamente que és livre numa sociedade onde tua opiniom conta, onde tu decides o rumo do país.
O único que tens que fazer é escutar as propostas dos candidatos e eleger ao melhor. Porque após tudo Nom se te tem dito sempre que o governo é o encarregado do organizar tudo: transporte, comunicaçons, comércio, leis… tudo devém do governo e tu, para organizar bem a sociedade nom precisas te organizar, senom simples e claramente eleger ao melhor candidato?

Este candidato supom-se seria uma pessoa bem capacitada para fazer todo aquilo que tu por ignorância ou por falta de tempo nom podes realizar. Faz falta que pavimentem tua rua? Que ajudem ás pessoas maiores em tua localidade, regiom ou país? Coisa de nada diz-se-te simplesmente escuta as propostas dos candidatos e elege o melhor.

Mas, Como estar seguros das boas intençons de ditas pessoas? Como saber qual é o melhor?

E se a medida de bondade ou de maldade nom se mede senom em que sejam menos piores? Isto é, que nom existe um só bom, senom só algum que é menos déspota que os demais, o que nom tira que siga sendo um déspota, em menor medida, mas déspota ao fim. Ou seja que todos som menos ou iguais de malvados, mas que nom existe um só bom dadas as desigualdades que sustentam na manutençom do atual regime de injustiça que padecemos.

Teus avôs contavam-lho a teus pais, teus pais contaram-cho a ti… e a quase todas as pessoas que conheces sucedeu-lhe o mesmo, todos dizem: “Em época de eleiçones sempre prometem miles de coisas que nunca cumprem”

Além disto se apresentam outras dificuldades para cegar-te em tuas decisons.

O candidato nom será certamente uma personagem que se te apresente com uniforme militar, com um bigode como brocha, um látego na mão, galons no uniforme, berrándo-te enquanto cuspe-te salivando e dizendo-te que obedeças cegamente ao Estado e sua autoridade, que tu és só uma roda mais da máquina, que te farám trabalhar toda tua vida para ao final, quando teus braços estejam velhos e cansos, te eliminarám como se se tratasse dum objeto descartável, para ser substituído com novos braços aos quais tratarám da mesma forma.

Nom, fazer isso nom é nada bom se desejam ganhar as eleiçons. Farám todo o contrário.

Um dia começarám pelos meios oficiais os rumores dos possíveis candidatos; dizerám que tal ou qual, que este ou aquela. Cria-se assim a perspectiva dos possíveis candidatos.

Semanas dantes das eleiçons apresentam-se flamantes os candidatos.

O um é um bonachom gordinho com um sorriso carismático.

O outro candidato é uma mulher madura, pulcra, de bom falar e que inspira confiança.

Há ainda um terceiro: é um homem elegante, de bom falar e seriedade.

O um fala de baixar os impostos e de gerar empregos.

A candidata propom nom só gerar empregos, senom que estes sejam bem pagos. Ademais fala de apoio à mulher, de legislar sobre os maltratadores de mulheres, mais apoio as estudantes e demais.

O outro, o homem elegante e de bom falar, diz que é necessário um plano de austeridade no governo, baixar os impostos, gerar empregos, fazer obras públicas e dar apoio as maiores.

Todos dizem que há que melhorar a qualidade de vida das trabalhadoras, que fazem falta escolas, baixar os impostos, eliminar a pobreza… que fazem falta muitas coisas.

Vaites!. Acavam de descobrir a pólvora!

Todo isso que dizem que faz falta tu o sabias desde faz muito, dado que és tu quem sofre por essas carências.

Essas simpáticas personagens cujo carisma conquista a neófitas de toda a classe e que pretendem reparar as misérias do Sistema com coisas tam simples nom som pessoas nem de longe melhores que tu.

Dizem-te unicamente o que tu desejas ouvir. Jogam com tuas necessidades para obter teu consentimento a um sistema que te subjuga de cotio, que te permite eleger teu governante mas nom se desejas ou nom ser submetida ao seu governo.

Sabem de tuas necessidades, de tuas carências e por médio delas te fazem essa subtil chantagem

Queres viver melhor? Vota-me e veremos de dar-te alguma melhora… isso sim, melhoras por um lado, mas hostiaços por outro.

Conhecem à perfeiçom tuas carências precisamente porque som eles quem as geram.

Nestes lares cada quem faz seu programa, contratam um bom grupo de publicistas, pensadores e desenhadores.

De onde sai esse dinheiro para pagar todo isso? De teus impostos, dado que o Estado destina uma quantidade de teus impostos a pagar as eleiçons. Tu que mal tens para malviver no meio de mil carências, pagas esses odiosos luxos de propaganda. Pede-se a tua opiniom sobre se desejas ou nom pagar essas despesas? De nenhuma forma: o governo carrega-te de Impostos (nada de quantidades voluntárias, senom Impostos: pela força, sem pedir opiniom, sem solicitar consentimento de nenhum tipo) que servem para pagar um par de obras públicas, mas também seus luxos e suas campanhas.

A campanha da candidata fala do alto número de mulheres maltratadas, de outorgar maiores recursos à educaçom, fala de construir escolas e dotá-las de material didáctico, de bolsas e de apoio ao estudiantado. Aparece em grandes cartelons sua imagem rodeada de um grupo de estudantes e com letras grandes algum lisonjeiro lema.

Por sua vez o gordinho bonachom fala de gerar empregos e apresenta uma série de propostas para conseguí-lo. Diz que é possível sair da pobreza e fazer que teu país seja próspero e possivelmente uma potência mundial e exemplo de como avançar em matéria social. Aparece também em grandes cartelons rodeado de operários e outro lema falangueiro.

Por sua vez o candidato elegante diz que os governadores ganham demasiado, e que baixando seus salários (obra piedosa digna de qualquer freira de aldeia) é possível dar maiores recursos nom só aos estudantes, aos operários e proteger às mulheres, senom que ademais apresentarám uma proposta por médio da qual os impostos baixarám como se se encontrassem numa montanha russa.

Seus cartelons nom som diferentes dos outros, mas têm a característica especial de que neles aparece firme nom só o lema adulador, senom também o juramento de cumprir o que afirma.

Os lemas dos três som similares. Som lemas do estilo: “Tu merece-lo” “Já é justo” “Porque sim se pode” “Desta vez tudo vai mudar” “Juntos podemos mais” “Somos o câmbio” “Por uma melhor qualidade de vida”  “Pelo bem de todos”… “Amamos-te!”

O posto de deputado, de governador ou de presidente será ocupado passe o que passe (Deles nom te livras!). Trata-se só de ver quem ocupa dito cargo.

Nestes momentos precisam da tua opiniom, precisam da tua cumplicidade; por isso, e só por isso, é que se dirigem a ti. Sem tua cumplicidade, sem que ninguém votasse, aquilo veria-se descaradamente como um feito imposto. Imagina que um dia ninguém vota.

O governo nom desaparecerá por este simples ato Falharia menos!

Ao ser uma instituiçom funcional onde a força contra as populaçons vem a ser o ponto neurálgico do organismo, este seguirá existindo votes ou nom votes.

Mas imagina que um dia ninguém, mas ninguém, nem sequer o clássico louvaminheiro (Nunca falta algum) que pensa que talvez um dia há um governante bom, vai às urnas.

Nesse dia o governo mostraria-se como realmente é: uma imposiçom direta e crua sobre o povo. Uma instituiçom que ainda que ninguém tivesse consentido em sua existência imporia-se polas boas ou as más.

Mas regressemos ao panorama das eleiçons.

O um se faz chamar “O candidato do emprego” a outra “A candidata da honestidade” e o outro “O candidato da justiça”… parecesse que nos encontramos ante um grupo de súper-heróis das caricaturas com esses nomes. Mas nom, trata-se de estratégias publicitárias, más e carecendo de talento, mas estratégias ao fim de contas.
Um e outro irám aos bairros populares, farám um “mitin” e prometerám o indizível. Tomarám-se uma foto com um menino, com uma senhora maior, com uma mulher e sua filha, com o avô do bairro. Darám a mão a todos os que lha peça, escutarám todas as queixas do bairro. Dirám a todo que sim, prometerám solenemente cumprir suas promessas, jurarám uma e outra vez isto e aquilo.

Estarám muito sorrintes, amáveis, amigáveis e simpáticos. Farám alguma chança, contarám algum chiste… isso sim, prometerám uma e outra vez que som os verdadeiros salvadores do povo.

Agasalharám canecas, gorras, haverá mil e um artigos (camisolas, auto-colantes, etc.) com o nome do candidato correspondente, festas, bailes… e em todos esses atos os símbolos serám algo imprescindívle: bandeiras, cartelons, confeti, música… o candidato estará num palco, com um gesto guerreiro prometendo a esquerda e direita quanto cria conveniente… total, nom cumprirá o que prometa; ele o sabe muito bem, e por isso é que bota-la língua a pacer lançando promessa tras promessa.

Fechará o punho, fará gestos de guerra, dirá convencido que é possível mudar as coisas.

Inconscientemente dizem-te: as coisas podem mudar… Por suposto que podem cambiar!

Mudarám o despotismo do governante atual pelo seu próprio, mas tratará-se só disso: duma mudança, duma volta de porca, duma engana-vista mais.

Dizem-to assim de claro porque acostumado como estás a pensar em coisas absurdas (que se já se lesionou o atacante de tal equipa de fútebol, que se aquela cantante já se operou tal coisa…) nom advertirás que a mudança da que te falam significa somente expremer-te de formas novas, quando nom da mesma forma, mas com outro nome.

Haverá debates entre os candidatos dantes das eleiçons?

Cada quem dirá que o candidato contrário é o demo em pessoa, que nom cumpre o que promete, que tem tido tais e quais falhas; e cada um expom publicamente ao outro.

Nesse momento quiçá algum futuro votante dá-se conta de que todos têm mais ou menos o mesmo defeito que lhe achacam ao outro: uma ineptitude e pouca vergonha que mal conseguem esconder embaixo de seus enormes ventres que denotam uma vida frouxa. Entom esse eleitor nom poderá sentir senom nojo de semelhantes personagens e nenhum ânimo de ir entregar em forma de papeleta eleitoral sua liberdade.

No entanto, como se nos ensina desde crianças que todo a mudança radical é impossível, muitas se conformam com que algum deles aparentem ser menos daninho que os demais.

Vêem nesses debates uma chuva de propostas para melhorar a sociedade, quando nom se trata senom de um grupo de saprófagos que se disputam famentas o cadáver da tua liberdade. Uma subasta onde cada quem oferece tal ou qual coisa para arrogar-se o direito de explodir-te.

Enquanto estes simpáticos necrófagos fazem seu jogo para convencer-te, outro tentáculo estende-se sobre teu pescoço: trata-se daquilo que mantém a enajenaçom e que unida à religiom fazem possível uma exploraçom singela: a imprensa ao serviço do governo.

Estes também nom te contarám de nenhuma forma a armadilha que se oculta no sufrágio universal.

Montons, milhares de anúncios publicitários na TV dirám o mesmo de diferentes formas.

Dirám coisas como “Tu tens o poder de eleiçom” “A democracia sem ti nom é possível” “Juntos governo e sociedade conseguimos sair adiante” “Nestas eleiçons nom perdas a oportunidade de mudar as coisas” “A democracia se exerce todos os dias”

Agora une este bombardeio com aquilo que passam de cotio na TV e obterás um elemento de adormecimento mais poderoso que o clorofórmio.

***

E chegamos ao ansiado dia.

Os cândidos eleitores vam às urnas pensando fazer um bem a seu país. Vam e depositam na urna a papeleta destinada a outorgar suas liberdades a seres ambiciosos e incompetentes.

Após tantas despesas, de tanto bombardeio publicitário e de tanto esforço em fazer-te votar, por fim têm obtido de ti o que desejavam: com teus próprios impostos tens pago um ato por médio do qual serás submetido.

Passam as eleiçons e ganha tal ou qual Será diferente se ganha este ou aquela?

Passam uns dias, umas semanas, uns meses… e tudo segue igual. Nada tem mudado.

Segues sendo um operário que se vê roubado a cotio pelo amo; tuas necessidades seguem sendo as mesmas quando nom maiores; as estudantes seguem manipuladas e muitas nem sequer podem aceder à escola dadas seus magros orçamentos económicos; os impostos em lugar de baixar “como se se encontrassem numa montanha russa” sobem como se fossem um foguete à lua; a cada dia é mais alto o custo da vida; tudo sobe, e teu salário mal vê uma melhora irrisória duns quantos céntimos ao ano.

Que podes fazer agora?

Tens outorgado a teus verdugos o direito a governar-te!!

Já nom pedem tua opiniom, já nom a precisam. Que nom cumpriram suas promessas? Pois a ver como tas arranjas. Já nom és alguém de quem lhes interesse o que pensa. Já nom te cumprimentam de mãos, nem se tomam a foto com o menino em braços, nem andam nas ruas de teu bairro.

Agora se cumprimentam só entre a elite de governantes; tomam-se fotos com ricos e famosos; nom andam em bairros onde a pobreza é o maior cenário, senom em paraísos tropicais, em autos luxuosos e em casas que contrastam do tudo com o lugar onde vives tu que lhes elegeste.

Em que te beneficiou a ti realmente que ganhasse tal ou qual candidato? Tua situaçom é a mesma de sempre, quando nom pior.

A lei escrita mantém a “ordem” na sociedade actual. Ou seja, mantém as condiçons tal qual estám agora, quando nom as piora dado que serve a interesses de burgueses e nom da enorme maioria do povo.

Há pobreza, há miséria, há desigualdade e injustiças? Com tua participaçom na comédia eleitoral tens remachado essas condiçons!

Ainda há quem vam às urnas a eleger “o mau menor”. Pensam que já que todos som maus mas há uns “mais maus que outros”, nom votar significa que os piores subam ao poder e com isso piorem as coisas… Como se fosse possível viver pior do que estamos!

Eleger um “mau menor” é eleger um mau ao fim de contas. Para quem ainda crêem neste sistema demagógico, autoritário e oligarca, um mau menor consola-lhes. Para quem desejamos mudar realmente as coisas os males menores seguem sendo um mau, e tanto a um como a outro é preciso o destruir. O problema nom está na forma que revista o governo, senom na instituiçom mesma do governo. Que tem feito os governos ao longo da história para que o povo deixe de ser o escravo produtivo duma minoria de ricos? Absolutamente nada. Desde a constituiçom mesma do governo até agora, todos os governantes têm prometido um melhor nível de vida, igualdade, justiça e liberdade (paradoxalmente prometem o que sabem que nom existe: dentro do governo, seja qual seja seu nome, nom existe justiça, nem igualdade nem liberdade), e no entanto o povo segue sendo tam escravo agora como sempre. É verdade, com algumas concessons, mas escravas hoje como ontem. Escravas de primeira qualidade se querer, mas escravas ao fim de contas.

Cais-te na conta de que votar nom serve de nada e que está no próprio povo, sem governantes nem líderes, a força necessária para mudar as coisas?

Nom esperes entom a chegada de melhores condiçons com o simples feito de nom eleger verdugos.

Votando nom consegue senom outorgar validade ao regime de exploraçom mediante a participaçom em suas comédias democráticas, nom votar nom muda tampouco as coisas.

É preciso que ao abstencionismo lhe siga a autogestom, a constituiçom de organizaçons horizontais (sem lideres nem chefe algum) para fazer frente às leis burguesas que, amparadas nas armas dos exércitos, atuam para expremer-te dia a dia um pouco mais para benefício do Capitalismo, para manter-te controlado à menor tentativa de rebeliom, e para manter as condiçons atuais tal como estám.

Votar fai-no qualquer com dois neurones; mas nom votar o pode fazer qualquer, por preguiça, por consciência ou por esquecimento.

À abstençom deve-lhe seguir inevitável e necessariamente, a auto-organizaçom do povo.

Organiza-te à margem da autoridade e do governo para constituir uma sociedade sem governo onde a liberdade seja real (e sucederá inevitavelmente) e nom fictícia.

Agora que compreendes que o sufrágio universal se te concedeu para calar tua voz; agora que compreendes que o “direito” ao voto nom é senom a armadilha por médio da qual se te mantém adormecido para que penses que contas, quando em realidade se te converte numa engrenagem do Sistema que te subjuga; agora que compreendes isso, que a abstençom ao voto nom seja o único ato que realizes. É preciso que à abstençom lhe siga a organizaçom horizontal do povo.

Porque limitar-se a nom votar nom muda tampouco as coisas. Nom votes, mas organiza-te. Nom deixes em mãos dessas pessoas os assuntos que te prejudicam de maneira direita a ti.

Saúde, abstençom activa e organizaçom.

Erick Benítez Martínez.

17 de outubro do 2012.


(*) Do texto original quitei os párrafos que faziam referência á Lei Seca que se impom no México em periodo eleitoral para evitar uma abstençom maciça pelo temor a que muita gente béveda nom fosse fazer o esforço de erguer-se da sua bebedeira e ir depositar a papeleta na urna. Podedes lê-lo na sua versom em castelám, na ligaçom que deitei ao início do texto

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