“Degeneraçons. Entre o orgulho e o vitimismo de gênero” x Anna Beniamino (presa anarquista italiana)

A compa, junto a tamém presa anarquista Silvia Ruggeri, fam hoje 14 dias em greve de fame na prisom feminina de L’Aquila (*) numa seçom de máxima seguridade (mais bem de máximo control policial e de nula atividade para elas) onde só podem ver-se durante 1 hora; seu protesto é para exiger um câmbio ao regime ordinário. Anna fora detida em 6 de setembro de 2016 na Operaçom “Scripta Manent” e foi condenada a 17 anos.

O seguinte texto é uma sua reflexom escrita no cárcere romano de Rebibbia em outubro do ano passado e que saiu publicada no nº 3 do jornal anarquista Vetriolo de inverno de 2019. Aproveito para agradecer acá a traduçom do texto original em italiano feita por uma boa amiga:

Sou anarquista, nom sou feminista porque percebo o feminismo como um retrocesso seitorial e vitimista, nunca discriminei por razons de gênero a pesar de que nom uso convençons lingüísticas com perspectiva de gênero, é mais, a miúdo uso uma linguagem suja e politicamente incorreta. Sostenho que na procura da anarquia, é dizer na prática de relaçons antiautoritárias, ácha-se já contida e dévem-se cultivar, a anulaçom de privilégios e opresons de gênero. Ah, esquecia-lo, detesto a autocondescendência em espaços públicos e mesmo considero as assembleias uma ferramenta ineficaz. Entendo e tenho a vontade de compartir, pero vejo como, demasiado a miúdo, as assembleias caim na autorrepresentaçom estéril. Nestes dias parece que tenhamos que começar cum preámbulo semelhante para entrar no labirinto dos lugares comuns sobre gênero ou feminismo, desenvolvéndo-nos na tam intrincada incapacidade de se relacionar da galáxia anarquista, cuma gama de comportamentos que vam desde a hipermotividade até o burocrático cálculo da posiçom para assumir ( e do grao de compromiso negociável) numa loita. Nom crio que os comportamentos autoritários e sexistas combátam-se tratando de difundir novas convençons lingüísticas requentadas numa salsa alternativa com restos de retórica indignada mainstream (entre #nemumamenos, contadores de feminicidios na TV, orgulho, sapatilhas rosas e bandeiras do arco da velha).

Mais bem, deveriamos reconhecelos como índices da enésima operaçom de deconstruçom do sinificado real e de recuperaçom em curso. Noutras palavras, crendo oponher-nos, de feito estámo-nos adaptando aos mesmos códigos de comportamento e normas outorgados polo poder, como respiradeiros das tensons.

Nom é uma novidade que o poder económico e político tende a fagocitar e redigerir tudo, cada vez mais rápido, por exemplo, essas perlas de neoconservadurismo e conformismo antisexista, antirracista e todo aquilo que a cotio prodígase desde os medios de comunicaçom.

Crio que um malentendido inicial é a incapacidade de emprazar determinados comportamentos, reduzindo em chave de problemas de gênero aquilo que se deveria entender próprio duma mais ampla crítica em sentido antiautoritário das relaçons e da capacidade de comunicaçom e de interaçom entre individuos.

Seria necessário deixar a categorizaçom por gêneros, do tipo LGBTI ( XYZ…) a quem tem a necessidade de se sentir categoria protegida, dentro de encasilhamentos dignos mais duma clasificaçom “linneiana” das variedades de combinaçons entre indivíduos que dos corpos e mentes livres. Com tudo atopámo-nos com indivíduos em ambientes antiautoritários encasilhándo-se, quando já teriam que ter interiorizado o seu rejeito.

Por tanto estou bastante afastada de crêr que tais espaços liberados estejam realmente tal, é mais a miúdo transfórmam-se em lugares onde, no canto de milhorar-se a calidade de vida e das relaçons, tende a reduzi-las ainda mais.

Por exemplo nom é possível lêr em clave de sexismo, imposiçons autoritárias ou violência de gênero, qualquer incapacidade de interaçonar mesmo num ámbeto assembleário: leo num libreto em circulaçom no ano passado [1], para estigmatizar a violência latente nas relaçons entre companheiros “agora o mais velho exercita o poder sobre o mais novo, quem tem mais experiência impom-se a quem tem menos, quem é mais forte a quem o é menos, recriando como num espelho as relaçons daquilo que existe e que se di querer subverter”.

A crítica quere dirigir-se aos comportamentos autoritários em ambientes antiautoritários e teria sua razom de ser, pero desta forma banaliza-se e reduze-se tudo: existe uma diferença fundamental entre a imposiçom da força e a expresom da experiência. A incapacidade de expresar-se ou de fazer nom é autoritária ou antiautoritária e só pode resolver-se individualmente… se nom se pode chegar á estupidez do elógio da incapacidade e da inaçom.

O conceito de violência emotiva ou de violaçom da integridade emocional é mais que nunca frágil, porquê promover semelhante lixo analítico entre indivíduos antiautoritários que deveriam ter armas críticas e capacidades práticas de intervençom muito mais afiadas? Ademais de baleirar de sentido a violência brutal e sofrida da que realmente se trata. Como pretendemos comprometer-nos numa luita sem quartel contra a autoridade e discutir sobre violência revolucionária e liberadora se nom conseguimos tam sequer responder individualmente a uma gabança nom pedida pola rua (tomándo-lo como aquilo que é, e tratando en consequência a quem a solte) ou de manter uma discusom accesa, num encontro, sem recorrer ao refúgio da sensibilidade ferida? Por que acabar lendo a desarmante e evidente idiotez que aconselha, para evitar um aborto indesejado, fazer o amor cuma mulher? [2] Por que codificar, em ámbeto de gênero, só para “Bandas de Femias”, a conquista, a autodefensa das agresons e os abusos? Nom é quiçás um problema comum aos gêneros, entre seres liberados?

Porquê desempoar dos armarios do feminismo dos anos 70 os produtos mais raídos como os encontros “nom mixtos” … quiçás chamándo-los “talheres” (horroroso termo que conjuga trabalho e negócio, adoptado de convençons empresariais e indigno da livre discusom)?

O espectro dum mecanismo restritivo e que tende a banalizar tamém leim-no noutra publicaçom recém, a ediçom italiana dos textos reivindicativos das Rote Zora [3], que é o intento de sensibilizar só a um público feminista sobre um grupo de mulheres praticantes da luita armada nos anos 80/90 na Alemanha, insistindo no tema do gênero, de grande interese em ámbetos feministas, fazendo uma discriminaçom positiva para saca-lo do esquecemento… visto que nom se quereria “que entre a formar parte da história oficial. Já que está escrita por homes” [4]Queeeeee?!?? Nom será que a historiografía oficial tende a invisibiliza-las por ser rebeldes, e nom por ser feministas rebeldes? Como tamém invisiviliza -ou disfraza- a história, as acçons, os escritos de tantos outros e outras rebeldes? A visom parcial nom é aquela das Rote Zora, quem experimentaram o seu próprio caminho de luita e libertaçom individual e coletiva no ámbeto duma mais ampla açom antiimperialista e anticapitalista, senom a de quem busca abanderar-se disto para dar-lhe maior credibilidade e peso específico ás suas próprias teorias, quiçás para limitar-se logo a buscar “formas de autodefesa”.

Porquê enrocar-se sobre um discurso “feminista e lésbico”[5], por que outra gaiola protetora, em troques de desenvolver a beleza e as infinitas ideias mais avançadas de crítica ao poder (nom só de gênero) que existem ou já se experimentaram?

A “sororidade” sempre me pareceu uma forma de alienaçom alusiva de alianças políticas transversais entre opresores e oprimidos, entre partes adversas… ” interclassistas”, como é que volve estar de moda?. Há pouco atopei-me tamém um folheto [6] que recolhia as entrevistas realizadas por uma feminista italiana a algumas veteranas da revoluçom espanhola de 1936, buscando uma discutível “sororidade” entre anarquistas comprometidas na fronte (e na retagarda coas Mulheres Livres), poumistas e stalinistas. É bastante sinificativo que as revolucionárias anarquistas case centenárias foram muito mais lúcidas e abertas á crítica dos límites do feminismo que a sua entrevistadora, empapada dos lugares comuns dos anos 70: coa tranquilidade extrema duma vida vivida plenamente, conseguiam explicar com simplicidade a relaçom paritária entre companheiras e companheiros, de como conseguiram ridiculizar e neutralizar o machismo que emergia entre os mais retrógrados e estúpidos dos seus companheiros. Em definitiva as práticas e a achega teórica destas mulheres estám muito mais avançadas na luita de libertaçom do indivíduo e na negaçom de dinámicas antiautoritárias, que as feministas que presumem das suas experiências, defendendo simulacros de luita no canto da própria luita . A necesidade de autos de fe, a “deconstruçom dos próprios privilégios de macho”, a procura de espaços de debate nom mixtos, a autoconscienza e a autoanálise em espaços públicos lémbram-me demasiado ao signo destes tempos de sobreexposiçom e de confusom de ideias, defender “luitas” por categorias e luitas internas para terminar nom luitando por nada.

Anna, Cárcere feminino de Rebibbia Outubro 2018


NOTAS:

Da introduçom:

(*) Acá em italiano informaçom sobre sua greve de fome https://ildubbio.news/ildubbio/2019/06/12/da-13-giorni-in-sciopero-della-fame-contro-il-41-bis-ammorbidito/

Do proprio texto de Anna

(1) Violenza di genere in ambienti antiautoritari ed in spazi liberati. Edición italiana traducida del español en 2017

(2) Critica all’aborto, Jauria, Pubblicazione transfemminista per la liberazione animale, n.º 1, verano/otoño 2015

(3) Rote Zora – guerriglia urbana femminista, Autoproduzione Femminista, 2018

(4) Da introduçom do mesmo livro

(5) Que entroutras coisas as próprias Rote Zora nom consideravam caracterizador. Da entrevista ás Rote Zora de 1984: “Algumas de nos tenhem filhos, muitas outras nom. Umas som lesbianas, outras gostam dos homes” pág 51, ibídem

(6) Donne contro, Isabella Lorusso, de. CSA editrice, 2013

2 ideias sobre ““Degeneraçons. Entre o orgulho e o vitimismo de gênero” x Anna Beniamino (presa anarquista italiana)

  1. Pingback: Solidariedade entre presas anarquistas. Palavras de Lisa para com as compas italianas em greve de fome | ogajeironagavea

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