[Terra do Fogo] 25 de novembro, Dia do Genocídio do povo Selk’nam

Graças a uma amiga numa RRSS cheguei a este texto publicado no blogue “rey de la patagonia” ao que, tras traduzir, dou pulo a esta muito interesante crónica sobre o sucesso que daria pé ao genocídio de tudo um povo. Um feito acaecido a finais do século XIX, em 25 de novembro de 1886, num periodo nom muito afastado do tempo em que vivemos e que é uma monstra da monstrousa realidade da natureza dos invasores, colonizadores e outros assassinos que, fortemente armados, aniquilaram e massacraram a todo um povo com a cruz coma engodo e os fusis coma surpresa.

Destes textos que cadaquem tire suas próprias conclusons; mas se eu lhes dou espaço nesta minha bitácora, nom só é para ajudar a dar pulo a estes feitos, que eu mesmo desconhecia por completo, senom tamém porque dos mesmos é doado comprovar a grande certeça dessa lenda que di que a “História escrevem-na os vencedores, pois sobre as vencidas cai o castigo acrescentado do silêncio”. Esta é só uma prova das múltiples mentiras e da total falha de escrúpulos dos assassinos à hora de manipular os feitos e contar a história tam ao seu gosto, que até fam que assassinos figurem como hérois e vítimas coma criminosas.

25 de novembro, Dia do Genocídio do povo Selk’nam

O 25 de novembro de 1886 o exército argentino provocou a maior matança de selk’nam da que se tem oficialmente registro. O responsável foi Ramón Lista, oficial maior de Marinha, que comandava uma expediçom militar de exploraçom da ilha Grande de Terra do Fogo, composta por vinte e cinco soldados ao comando do capitám de cavalaria José Marzano e na que tamém participavam como pessoal auxiliar o sacerdote italiano Giuseppe Fagnano e o cirurgião belga Polidoro Segers.

Embarcaram-se no cúter Santa Cruz e chegaram a baía San Sebastián, ao norte da ilha, na costa atlántica. Nom tinha decorrido mais que um dia desde o desembarco dos animais, abastecimentos, armas e muniçons, quando o grupo de navegadores se enfrentou violentamente com os selk’nam. Depois de receber os soldados uma chuva de frechas, Lista ordenou uma mortífera descarga de fusilaria. A partir de entom desata-se uma guerra sem quartel, uma carniçaria que provocou entre os selk’nam vinte e oito mortos e um elevado número de feridos e prisioneiros, a maioria mulheres e meninas. Os militares nom sofreram nenhuma baixa.

Contamos com três testemunhas direitas da matança, o próprio Ramón Lista, o cura Giuseppe Fagnano e o médico Polidoro Segers.

Ramón Lista no livro “Viagem ao país dos Ona”

“Pelo que respeita aos índios onas que habitam a ilha, tenho o sentimento de lhe comunicar que me vim no caso de ter que livrar um combate com dez homens contra quarenta selvagens, que ocultos numa espessa matogueira, dantes de se entregar e apesar de nossas demonstraçons pacíficas, pretenderam recusar-nos lançando-nos enxames de frechas. Figem-lhes carregar a sabre, o capitám à cabeça, e quando já dava por terminada a luta, este intrépido oficial caiu ferido duma frechada na sua cabeça com o qual o ataque se deteve um instante; mas em seguida mandei carregar novamente e após um ligeiro tiroteio a matogueira foi despejada ficando em nosso poder alguns prisioneiros, mulheres em sua maior parte, e sobre as zarzas vinte e seis índios mortos, todos eles de estatura gigantesca e duma corpulência só comparável à dos patagones ou tehuelches”.

Giuseppe Fagnano em “Il Bollettino Salesiano”

“O oficial tratou de fazer-se entender pelos pobres selvagens através de gestos, convidando-lhes a render-se, oferecendo-lhes carne e bolacha. Parece, no entanto, que nada compreenderam de sua mímica amistosa já que, em lugar de responder, lançaram suas frechas contra os militares sem, nom obstante, produzir dano de nenhum tipo. Depois a mais em media hora de vãs tentativas e após ter-lhes inutilmente ordenado a rendiçom, o chefe ordenou despejar-lhes de seus esconderijos, e a tal efeito começou-se a abrir fogo onde queira que aparecesse uma pele de guanaco. A cada detonaçom era seguida de um berro dos índios, entre cujas vozes se distinguia uma que, dominando ao resto, animava aos demais a manter a resistência. Isso induziu ao comandante a ordenar uma cárrega com sabres, com a esperança de poder, desta maneira, apanhar a todos com o menor derramamento de sangue. O intrépido capitám Marzano moveu-se adiante e lançou-se cara o mato negro desde onde continuava saindo aquela voz provocadora. No entanto, ao chegar a uma brevíssima distância do inimigo invisível foi ferido na têmpora esquerda por uma frecha de madeira, e caiu ao chão sem sentido, perdendo sangue da ferida. Neste ponto já nom foi possível conter a animosidade dos soldados, anelantes de vingar a ferida de seu valoroso capitám; lançaram-se com raiva contra os índios e mataram a todos quantos ousaram ainda opor resistência. Fizeram treze prisioneiros, incluídos dois meninos”.

Neste depoimento Fagnano simplesmente lamenta as mortes, o que nom lhe impedirá continuar acompanhando à expediçom militar. A realidade dista muito de como a historiografia salesiana narrou tempo depois este violento encontro, e onde o sacerdote pouco menos que expom seu peito nu às balas dos soldados para evitar a matança de indígenas.

Polidoro Segers no livro “Hábitos e costumes dos índios onas”

“Aos nossos pés e na beirinha do mar, entre manchóns negros que revelavam as cristas das restingas que emergiam das águas, uns vinte indivíduos se entregavam tranquilamente à pesca de mariscos sem nos ter apercibido quando os ladridos dos cães chamando sua atençom descobriu-lhes nossa presença no vértice do cabo Peñas, ao lado das suas vivendas. O alarme que isto lhes produziu foi horrível e os pobres índios que se encontravam a uma longa distância na praia que a maré ao baixar tinha deixado ao descoberto, nom sabiam cara onde fugir. A confusom aumentou mais quando viram que os soldados da expediçom baixavam a toda a pressa em sua perseguiçom a costa do barranco no qual estávamos.

Triste espetáculo era para mim ver a estes pobres índios inofensivos correr dum lado a outro perseguidos como feras pelos que representavam a civilizaçom. Como os índios fugiam em várias direçons e os soldados temiam que escapasse sua presa, começaram a fazer fogo sobre eles ferindo a alguns, mas conseguindo zafar todos de seus perseguidores, menos um que, rodeado por cinco soldados armados de Remington nom poidera fugir. O infeliz tinha-se atrincheirado por trás duma enorme pena e defendia-se valorosamente do fogo que lhe faziam aqueles. À cada descarga saía da sua fortaleza improvisada e lançava uma frecha em direçom de seus verdugos.

A fugida era-lhe impossível: á sua retaguarda tinha o mar que subia já e diante cinco bocas que vomitavam fogo. Em fim, crivado pelas balas caiu o valente e por comiseraçom foi ultimado com um tiro de revólver no seu ouvido direito. O reverendo pai Fagnano, capelám da expediçom, e eu figémo-nos cargo das crianças abandonadas e enquanto seguia o tiroteio nom podíamos menos que protestar indignados contra este ato de crueldade que passava a nossa vista, sem que pudéssemos impedi-lo. Como avançava a noite e desejosos de dar sepultura ao cadáver, conseguimos do chefe da expediçom que o arrastraram até o lugar onde nos atopávamos.

Era um belo moço, ao mais dezoito anos de idade, robusto e bem formado. Uma melena entupida e negra cobria com seus emaranhados tufos seu coiro cabeludo diferenciando-se dos demais índios em que nom usava tonsura e sua cabeça estava coberta de cabelo. Vinte e oito balas Remington tinham crivado o corpo deste valente, mais a bala de graça (…) Aos poucos voltava uma expediçom de soldados que foi em perseguiçom dos fugitivos, trazendo catorze indivíduos da chusma, pois os homens ainda que feridos fugiram: asseguraram as mulheres e meninas no cepo de campanha atando-las umas às outras pelos pés com uma longa corda, dispugeram sentinelas à vista e tratamos de conciliar o sono. Era em vão, toda a noite as pobres chinesas nom cessaram nas suas lamentaçons…”

A aparente indignaçom de Segers pelos assassinatos nom lhe impediu, no entanto, ficar com a pele do jovem selk’nam como uma bonita lembrança etnográfica: “Disequé todas estas partes bem como a cabeleira que, preparadas para conservaçom, excitaram muito a curiosidade a meu regresso a Buenos Aires”. Ademais, num claro exemplo de adopçom forçada de servidume, o cirurgião belga sequestrará pouco depois a um matrimónio haush que se levou de regresso a Buenos Aires para empregar no serviço doméstico.

Lamentavelmente nom temos nenhum relato escrito polo povo selk’nam sobre o trágico acontecimento, ainda que a memória desse povo registrou a matança graças ás sobreviventes e à transmissom da história oral. O balanço de vítimas provocadas pelos soldados do exército argentino nesta expediçom foi aterrador, ascendendo a trinta mortos entre homens, mulheres e crianças, assassinados a balaços, ensartados com as baionetas, ultimados a golpe de sabre. Os quinze prisioneiros, a maioria mulheres e crianças, foram colocadas no cepo de campanha, atando-lhes uns a outros pelos pés com uma longa corda e, como temos visto, levados a Buenos Aires, desconhecendo-se seu destino final. Nenhuma baixa entre os militares atacantes, que fizeram valer sua potência de fogo.

No dia que ocorreu a matança, o 25 de novembro, tem sido declarado desde 1992 “Dia do Indígena Fueguino”, ainda que se estuda atualmente uma proposta para mudar o nome a “Dia do Genocídio Selk’nam”, para recordar o terrível massacre provocado pelos militares argentinos contra este povo legendario.

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