Medicamentos que matam e crime organizado x Joan- Ramon Laporte

Recolho e traduço da Vilaweb, o texto seguinte que é a apresentaçom escrita polo farmacólogo Joan- Ramon Laporte na ediçom em espanhol do livro “Medicamentos que matan y crimen organizado” ( Los Libros del Lince, 2014) escrito polo médico dinamarquês, repressaliado polas suas atrevidas denúncias ás farmaceúticas, Peter C. Gøtzsche:

O título deste livro nom é exagerado. Pessoas que o leram têm experimentado uma ira crescente à medida que avançavam páginas pola clarividente e implacável descriçom do professor Peter Gøtzsche sobre práticas reiteradas da indústria farmacêutica: extorsom, ocultamento de informaçom, fraude sistémica, malversaçom de fundo, violaçom da lei, falsificaçom de testemunhas, compra de profissionais sanitários (aluguer, dizem os cínicos), manipulaçom e distorçom dos resultados da investigaçom, alienaçom do pensamento médico e da prática da medicina, divulgaçom de falsos mitos aos meios de comunicaçom, suborno de políticos e servidores públicos e corrupçom da administraçom do estado e dos sistemas de saúde. O resultado: centenas de milhares de mortes a cada ano atribuíveis ao efeito adverso de uns medicamentos que nom tinha que se tomar e a dissipaçom de recursos públicos (públicos, hoje por hoje, em Espanha).

Uso esta linguagem forte porque este livro explica coisas fortes, que se têm que saber. Ademais, documenta-as com precisom.

A indústria farmacêutica é o terceiro sector da economia mundial, por trás do armamento e o narcotráfico. Nos EE.UU. tem uns benefícios mais quatro vezes elevados que no resto de sectores industriais. Seus directores cobram salários obscenos e nom som responsáveis por nada que tenha que ver com a saúde. Em algum lugar tenho lido que o iate do vice-presidente de Pfizer nom cabia em nenhum porto e por isso… se teve que comprar um porto. Pfizer é responsável (rea convicta) de delitos e crimes que têm custado a vida de milhares de pacientes. Em isto nom se diferencia das outras grandes empresas.

Como exerce seu poder a indústria farmacêutica no mundo?

Em primeiro lugar, exerce pressom sobre os legisladores (em Washington há mais instigadores da ‘big pharma’ que de qualquer outro sector industrial, e quem diz Washington diz o mundo) para promover ou bloquear leis.

Também exerce pressom sobre a Organizaçom Mundial do Comércio, directamente e através do governo dos EE.UU., para que se apliquem ao pé da letra seus injustos direitos de exclusividade sobre medicamentos essenciais que poderiam salvar milhons de vidas se tivessem um preço acessível. O preço de algum destes fármacos só se justifica polo monopólio de vendas que outorga a patente. Imaginais-vos a satisfaçom do Sr. John C. Martin, director de Gilead, que ganhou pessoalmente cento oitenta milhons de dólares em 2013, quando anunciou em 2014 que a Food and Drugs Administration norte-americana ( FDA) tinha aprovado seu novo fármaco Sofosbuvir, que ‘pode curar a hepatite C’ e para o qual tem fixado um preço a mais de 80.000 dólares? Podeis-vos imaginar seu gozo quando acrescentou que no mundo tinha centenas de milhons de pessoas que precisavam este medicamento? O Sr. Martin dirigia-se aos accionistas, que som os únicos a quem rende contas (e os confunde, porque a maioria das centenas de milhons de afectados pola hepatite C som pobres, e precisamente polo feito de ser pobres nom têm acesso ao fármaco). E, com tudo, o preço dos medicamentos nom reflete custos, é pura política. Barack Obama mesmo reconheceu-no quando anunciou junto ao presidente golpista de Egipto que neste país, especialmente castigado pola hepatite C, o Sofosbuvir custará só cem dólares. Intercâmbio siniestro, o de centenas de penas de morte por uma rebaixa aplicada a um preço injustamente exorbitante (calcula-se que o custo de produçom do medicamento é dentre 68 dólares a 136 dólares).

A indústria farmacêutica tem conseguido ser o principal ator da sua regulaçom. Os feitos demonstram que o sistema atual de regulaçom de medicamentos, inspirado por um organismo, a ICH nas siglas em inglês –constituído polo agrupamento das grandes companhias e as autoridades reguladoras dos principais países consumidores (e ao mesmo tempo fabricantes: EE.UU., UE, Japom), e no que nem sequer a OMS tem voto–, constitui uma ameaça para a saúde pública. Nos países ricos as doenças causadas por medicamentos já som a terceira causa de morte, após o infarto e o cancro. Nos países nom tam ricos, nem se sabe. As agências reguladoras converteram-se em servidoras da indústria; de mau grau da fraude generalizada das companhias farmacêuticas nos ensaios clínicos e mais estudos, dam por bons os resultados, evidentemente maquilhados, que se lhes apresentam.

A indústria farmacêutica adica enormes recursos a influir nos grandes meios de comunicaçom, com a cumplicidade de expertos retribuidos direitamente ou indireitamente polas companhias. Há que recordar o alarme social sistémica sobre pragas fantasma como a gripe A, a osteoporose e o colesterol.

A indústria farmacêutica exagera de maneira geralizada os supostos efeitos beneficiosos de seus medicamentos, ante os reguladores e os profissionais médicos. Por isso comete fraude no desenho, na análise, na interpretaçom e na apresentaçom dos resultados dos ensaios clínicos; e, se convém, oculta os resultados. Como têm reconhecido os ex-directores de New England Journal of Medicine, British Medical Journal, JAMA e mais publicaçons, compra e corrompe o conteúdo das revistas médicas. Oculta ou minimiza a incidência e a gravidade dos efeitos indesejáveis dos fármacos. Enquanto sua patente é vigente, promove o uso de seus medicamentos em indicaçons que, por carência de provas, nom som autorizadas.

Em trinta anos de investigaçom sobre o uso de medicamentos em Catalunya, em Espanha e o mundo, na Fundació Institut Català de Farmacologia temos comprovado e documentado repetidamente este consumo exagerado, desnecessário e immoderado, e temos detectado tamém os efeitos perjudiciais sobre a saúde pública.

Além uma mençom à ridícula demanda de MSD contra Butlletí Groc por um artigo que explicava verdades sobre o medicamento Vioxx, Gøtzsche nom descreve escândalos ocorridos especificamente em Espanha. Poderia parecer que em Espanha as atividades de promoçom da indústria farmacêutica som éticas, se regem polo rigor informativo, dam uma imagem equilibrada do medicamento e nunca promovem o uso em indicaçons nom autorizadas. Poderia parecer que as companhias nom influem nas sociedades científicas, os comités redatores de guias de prática clínica, os departamentos universitários e grupos de investigaçom nem tampouco nos cargos públicos. Mas nom: Espanha é um paraíso para a indústria.

De facto, Espanha é um dos países que mais dissipa em medicamentos, principalmente a cargo do erário público. Contra aquilo que nossos cargos públicos afirmam repetidamente, desde o 2010 a despesa farmacêutica tem continuado aumentando, porque a factura dos medicamentos hospitalários cresce a um ritmo de 20% anual e já representa um terço da despesa total em farmácia. Espanha é o país europeu que dedica uma percentagem mais alta de sua despesa sanitária em farmácia. Espanha é o país europeu onde os novos medicamentos (protegidos por patente, som mais caros, nom necessariamente melhores, e de segurança incerta) som captados com mais rapidez polo sistema sanitário. Nosso sistema de saúde nom selecciona medicamentos segundo a eficiência, os efeitos indesejáveis, a comodidade e o preço. É um comprador compulsivo a preço de ouro no mercado mundial das tecnologias. As relaçons da indústria com as sociedades médicas e com os médicos praticamente nom estám reguladas. Os questionários indicam que tanto os médicos como seus colegas universitários, investigadores, gestores e directores, nom têm maioritariamente consciência do sofrimento que causam e dos recursos que dissipam.

Lede este livro e veredes que nom exagero. Recomendo-o especialmente a legisladores, políticos, gestores, directores, profissionais sanitários e estudantes de ciências da saúde. Podeis ler-lo seguido ou saltando capítulos. Espero que vos ajude a potenciar vossa autonomia de pensamento e a afastaros do pensamento único que as companhias farmacêuticas impõem à medicina e à saúde pública. Aprendamos a dizer simplesmente: ‘Nom, obrigado.’

Joan- Ramon Laporte, professor de terapêutica e farmacología clínica ( UAB)

Uma ideia sobre “Medicamentos que matam e crime organizado x Joan- Ramon Laporte

  1. Pingback: Farmacêuticas: Saúde ou Negócio | COMOCHOCONTO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s