“A PANDEMIA É O CAPITALISMO” X María Galindo

Dou voz, de novo, nesta minha bitácora, à María Galindo, artista, performer, ativista, escritora e cofundadora do coletivo boliviano “Mujeres Creando”, a quem conhecim brevemente na altura das mobilizaçons do Prestige, numa vissita que figera á desaparecida Casa Encantada de Compostela. María, quem se autodefine como: “puta, lesbiana, boliviana, construtora de alianças proibidas e mulher que fala desde o lugar da tortura e da violência para imaginar a felicidade desde uma posiçom de desobediencia”. Dou-lhe pulo por muitas razons e mais que nada para, coma ela mesma aponta, propor desafios e porque é legítimo e urgente pensar e debater politicamente esta Pandemia. Espero que ajude abrir as mentes, mesmo daquelas que já foram assimiladas polo obscurantismo mediático e pola sua teima em deslegitimar as vozes críticas das teses oficiais de governos e Farmáfia.

Desta volta traduço e dou pulo este seu texto que a ativista boliviana compartilha na revista MU no seu último nº de fevereiro. O resultado é um dicionário sobre o léxico com o que governos de esquerda e direita disciplinam às sociedades. Como pensar, política e ideológicamente, as vacinaçons em todo mundo, a ordem Colonial-Patriarcal-Extrativista que converte ao neoliberalismo em FASCISMO, e como interpretar a velocidade das mudanças à luz da rebeldia e a criatividade.

Não escrevo desde Bolívia, senão desde um território que se chama incerteza.

Escrevo desde o último lugar na fila para obter a vacinaçom colonial, que em muitos países será aplicada como doses de salvaçom governamental e como novo contrato sanitário outorgado polo Capitalismo através dos Estados para poder sobreviver.

Escrevo desde a consciência ganhada numa pota comum, num pequeno movimento, numa luta que não tem deixado de desenhar mapas de saída, de localizaçom e de encontro.

Escrevo desde uma marcha de trabalhadoras sexuais em pandemia que afirmam que a repressom policial é pior que o risco de enfermar e que o medo de morrer.

Escrevo enquanto, contra minha vontade, preparo-me a falar numa pantalha fria que gostaria requentar até faze-la rebentar.

Não escrevo desde a certeza, senão desde a dúvida, a pergunta, a intuiçom e o tateio.

Não renunciei apalpar sem luvas este mundo pandémico, e ainda que tenho aceitado o convite para escrever, som consciente de que todo o que diga está sujeito a se converter de repente numa afirmaçom ridícula, obsoleta, ingénua ou a perder sua consistência como se de gelo derretido se tratasse.

Ao mesmo tempo poderia agarrar-me a um tom profético fatalista, profético bíblico ou profético redencionista e esperar aplausos dos corações solitários que nas ruas andam qual zumbis em procura desesperada de vozes proféticas.

A pandemia é um feito político não porque seja inventada, inexistente ou tenha sido produzida artificialmente num laboratório.

A pandemia é um feito político porque está a modificar todas as relaçons sociais a escala mundial e é por isso legítimo e urgente pensa-la e debate-la politicamente.

A pandemia é um feito político porque apresenta-se como a consequência dum modelo CAPITALISTA global que muda desde sua versom ecocida até sua versom suicida. Abre, ou melhor dito evidência, a relaçom sistémica entre ecocídio e suicídio.

Submissom de rebanho

A pandemia instalou um léxico padronizado a nível planetário, uniforme e estendido em todos os países. Serve para a reconduçom da vida social a uma sociedade disciplinária.

Palavra por palavra quadricula-se a vida para reduzi-la ao medo, à vigilância legitimada do Estado sobre toda nossa vida, à dissoluçom das formas de colaboraçom e organizaçom não estatais. As únicas formas colaborativas revalorizadas foram reduzidas a uma sorte de paternalismo assistencial sem potência politizável. A amputaçom do desejo é uma de seus constantes.

Todas estas operaçons políticas estám a acontecer através da linguagem pandémica como instrumento para nomear e dar conteúdo ao que está a suceder. Não estamos a questionar as medidas de proteçom, a necessidade de toma-las ou a incongruencia de muitas delas, senão a forma de nomear o universo inteiro da pandemia.

Não estou a falar de sentidos ocultos: som explícitos e seu efeito destrutivo tem que ver com sua repetiçom invasiva, com o feito de que os governantes e os organismos internacionais som seus porta-vozes incontestáveis e a povoaçom, em geral, funciona coma sua caixa de ressonância.

É uma linguagem que terminás usando para te entender em poucas palavras. Com seu carácter mundial sem matizes e com seu uso irreflexivo sem margem para questionar os sentidos funcionam fascistizando as relações sociais.

Uma vez mais, como tantas vezes na História, o direito de nomear os feitos está a ser o arma para programar seus conteúdos sociais.

É nos termos com que se estám a baptizar os feitos onde está seu conteúdo ideológico central. Não é um conteúdo ideológico que funciona como teoria a ser aceite, debatida ou repensada. Trata-se dum conteúdo ideológico que funciona como significado fixo irrefutável e como realidade direita, que tem um efeito de terapia de condicionamento da conduta.

Léxico pandémico

Atopei perto de trinta termos que fam à coluna vertebral do léxico e sua funçom de condicionamento da conduta coletiva. No entanto, vou propor-lhes revisar tam só uns quantos, por razons de espaço:

Bioseguridade: Conjunto de medidas que têm que ver com o perigo mortal do contágio. Deveríamos mudar a palavra “segurança” pola de “vulnerabilidade”, e o sufixo “bio” polo de “necro”. Estamos a experimentar a vulnerabilidade ante um perigo omnipresente, invisível e incontrolável. Se há algo que não é seguro é a vida. Não podemos falar de bioseguridade quando tal termo, em realidade, nomeia o necro perigo ou biovulnerabilidade.

Distanciamiento social e isolamento: Não som os dois metros que precisamos para evitar o contágio, senão que som os conteúdos de agudizaçom do encerro em ti mesmo, do salva-te longe do “outro”, que é perigoso por excelência. Todes convertemos-nos no “outro” do “outro” fazendo da linguagem pandémica um instrumento de dissoluçom de coletividade. Tamém funcionou na fascistizaçom social o ênfase que se pugera no pequeno grupo familiar ou “borbulha” como teu único universo de responsabilidade e de sentido, usando o inofensivo pronome possessivo de “os teus” uma e outra e outra vez.

Quarentena: Termo transportado desde a peste negra na Idade Média ao mundo contemporâneo como um indicador de que no século 21 –após várias revoluçons tecnológicas– as medidas sociais de cuidados som as mesmas que fai vários séculos e levam o mesmo nome. A quem serve entom a tecnologia? Por que não temos outras ferramentas contemporâneas diferentes das medievais para enfrentar uma pandemia?

Toque de queda, confinamento: Não som os únicos termos que fam parte do léxico pandémico e que nesta parte do mundo têm representado às ditaduras militares que estám em nossa memória viva. Não poderíamos ter usado outras palavras não carregadas da memória ditatorial, ou foi e é sua carga ditatorial útil socialmente para reinstalar o poder absoluto do Estado sobre a povoaçom?

Atividades essenciais: A reclassificaçom das atividades sociais com o qualificativo de “essenciais”, deixando fora todas aquelas que pertencem ao universo do afeto, do desejo, da criatividade e reduzindo às pessoas ao mundo do trabalho tem na linguagem pandémica um efeito quirúrgico de amputaçom. A única noçom de vida válida é “o trabalho”. Tam só mudar o de “essenciais” por “funcionais” já daria-lhe à cotidianeidade um outro sentido.

Teletrabalho: A deslocaçom do lugar de trabalho ao domicílio, convertendo ao trabalho num produto que se paga como produto e não como atividade que se mede em número determinado de horas. É o que nesta parte do mundo – chame-se Honduras, México ou Brasil – nomeia-se de “maquila” e “trabalho a destalho”, onde te pagam por trabalho realizado e não por horas de produçom. A maquila –instrumento neoliberal por excelência– usada por grandes multinacionais –especialmente da indústria têxtil– foi transladada a grandes âmbetos laborais com esta pandemia e recebeu uma denominaçom suave. Imaginem-se o resultado de rebaptizar o teletrabalho como maquila pandémica ou exploraçom domiciliária!

Dado que o ânimo deste texto é o de propor desafios aqui vai o primeiro: fazer uma listagem completa do léxico pandémico, outorgar-lhe à cada termo seu sinificado real e passar a renomear o fenómeno que o termo pretende nomear. Isso para acordar, para agudizar a nossa criatividade e para respirar rebeldia. Os sofisticados materiais que se precisam são um lápis e um papel e se o fazedes entre amigues o resultado será divertido e explosivo.

Contrato sanitário mundial

Dantes de receber a vacina é urgente saber que é o que estamos a receber, não para propor a desobediência ou a não vacinaçom, senão para não aceitar passivamente a vacinaçom como quem recebe o ferro de marcagem do gando. Tamém temos que debater ideológicamente seu sentido político.

A vacinaçom não é uma soluçom, por muito que os governos do mundo inteiro procuram a apresentar como tal.

A vacinaçom é uma soluçom parcial para o trânsito a uma nova ordem que ainda não tem nome. É uma medida de sobrevivência que deixa intacto o questionamento estrutural sistémico que esta pandemia deve supor para o conjunto da Humanidade.

A fila da vacinaçom é um diagrama de hierarquias mundiais de caráter colonial sem metáfora, senão de maneira direita. A ordem de prioridade é a ordem das suas capacidades de pago.

A sua vez em cada sociedade a ordem de vacinaçom representa internamente esse mesmo diagrama de hierarquias sociais: quanto mais na periferia estejas mais tarde ou nunca chegará a vacina.

Nestas terras começam polo pessoal de saúde porque precisam-lhes, mas seguem-lhes militares e polícias, filtram-se curas e bispos, deputados ou ministros. E se não precisassem do pessoal de saúde, tamém seriam os últimos em recebe-las.

Vacinas som a materializaçom dos poderes supraestatais que som quem governam o mundo.

Não é a Organizaçom Mundial da Saúde a que organiza a distribuiçom equitativa das vacinas, senão que som as empresas que –amassando cifras já impossíveis de conceber– dispõem a ordem de provisom das vacinas.

E não criam que porque somos pobres pagamos menos: estamos a pagar os mesmos preços ou mais altos por receber doses menores, e os governos recebem-nas de joelhos como uma grande conquista dispostos a assinar em letra pequena o que seja.

Os governos, a sua vez, fornecem as vacinas como quem fornece uma injeçom governamental intramuscular, gesto que deves agradecer sem chistar.

As propagandas de vacinaçom que se desenvolvem nos contextos nacionais por parte dos governos fazem pensar que o que te estam a meter é um benefício governamental.

Os gastos que a compra de vacinas supõem para muitos Estados excedem os investimentos em saúde ou são equiparáveis a estes.

Vacinas devoram-se os orçamentos de saúde para que, uma vez que passe a tormenta, hospitais e quirófanos fiquem igual de maltreitos como estavam dantes.

Vacinas tamém representam a privatizaçom do conhecimento, pois os centros de investigaçom que dispõem dos milhons que a investigaçom no campo da biologia ou a medicina representam não estám nas universidades públicas nem sequer das sociedades capitalistas imperiais, senão direitamente estám nas empresas que sugam cérebros das universidades.

Tematizar e debater estas questons ao redor da vacinaçom mundial é tachado de suspeito porque diante a vacina o que há que fazer é assinar passivamente um contrato sanitário unilateral como o que te propõem os bancos quando te endevedas ou como o que o Estado boliviano lhes exige às trabalhadoras sexuais para dar-lhes o permisso de trabalho.

É este contrato sanitário e sua explicitaçom o que pode conter as luitas que a futuro terám sentido.

Obsolescência política

Os governos beneficiam-se da administraçom dos Estados, mas não governam: som administradores secundários duma ordem colonial–patriarcal–extrativista. Esse feito tão tangível hoje reconduce radicalmente nossas lutas e nossos horizontes.

A clássica diferência esquerda–direita para interpretar o campo político converte-se em obsoleta: a fascistizaçom, por exemplo, no léxico tem abarcado a ambas.

Estamos na transiçom do regime neoliberal ao regime neoliberal de corte fascista e isso a esquerda nem sequer o visualiza porque se as categorias de análises e organizaçom social que nos oferecia a esquerda já estavam caducas, hoje têm ficado obsoletas.

Os governos chamados “de esquerda” som tamém governos incapazes de propor um horizonte diferente que o imposto polo neoliberalismo. Este feito não é de jeito nenhum o fim da política, senão o nascimento duma nova política. Uma nova política que não tem vanguardas, salvadores, nem condutores e que exige de todes alta dose de criatividade.

Não é afouteza o que precisamos, senão consciência de nossa vunerabilidade.

Os sujeitos sociais estám a ser diluidos por fadiga, por falha de ideias, por luto, por incapacidade ou impossibilidade de reaçom, enquanto outras pessoas despojadas estám-se reconstituindo como sujeitos sociais com capacidade interpeladora: aquelas pessoas que se viram sobre os animais para se reintegrar como animais, ou as que produzem saúde, alimentos ou justiça com suas coletividades som quem não têm sido paralisadas polo medo.

Tudo está a suceder a grande velocidade ainda que o tempo se deteve.

A velocidade das mudanças é a velocidade duma metamorfose profunda.

Interpretá-la a risco de equivocar-nos é nossa aposta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s