A Pandemia é Domesticaçom x Gilles Dauvé

Traduço e colo esta publicaçom que recolhe este muito recomendável texto autoria de Gilles Dauvé (político teórico e professor vinculado ao Comunismo de esquerdas e as tendências contemporáneas da Comunizaçom; entendeno esta coma uma «mistura de anarquismo insurrecionário, ultra-esquerda comunista, pós-autónomas, correntes anti-políticas, grupos como O Comité Invisível, assim como correntes mais explicitamente “comunizadoras”, como Théorie Communiste) que tiraram do prelo, lá polo mês de dezembro, compas anarquistas chilenas agrupadas no coletivo editorial “La Peste”

A palavra mágica “seguridade” impom-se em frente ao delinquente como ante o terrorista e o vírus, e a crise sanitária mostra até que ponto o Estado obtém nossa submissom em nome da saúde.

Na sociedade do Capital os discursos que se nos apresentam como “verdades” som expressados por diferentes porta-vozes da classe no poder, desde os meios em massa tradicionais até os supostos meios alternativos, junto ao sem número de redes sociais digitais. Deste modo, o discurso informativo que nos adverte desde princípios do 2020 a respeito da pandemia do Covid-19 evidência que a informaçom desde o poder se pretende inobjetável, a tal grau que não só suscita consenso entre os organismos da burguesia, senão que esta é ainda reforçada através da opiniom pública das redes sociais e até dos supostos meios dissidentes.

A questom não é se a doença é altamente infecciosa ou se se devem seguir medidas de proteçom e cuidado ou não. É óbvio que estamos em frente a um vírus que se propaga rápido e que numa minoria de pessoas infetadas causa a morte. Aqui o problema é que o conjunto de informaçom é tergiversado e instrumentalizado para validar qualquer açom do Estado capitalista. Desde encerrar obrigatoriamente a uma povoaçom, matar a pessoas que tiveram o infortunio de sair durante um toque de queda, justificar o feito de que as indivíduas devem ailhar-se de seus seres queridos ou enclausurar-se sem ter que comer; porque aqui, como em muitos lados sobre o planeta “cada quem se ranha com as suas próprias unhas”.

Desde que se expandiu o vírus pelo mundo, os noticieros não figeram uma outra coisa que nos bombardear com notícias das miles de mortes, notas sobre hospitais a reventar de pacientes, afundando em supostos tão contraditórios que ao dia de hoje só causam estupor, mais uma quantidade de informaçom improvável, confusa e sesgada vinda dos “expertos”. Todo isso com um claro objetivo de perturbar-nos para deste modo aceitar guardar-nos em confinamiento. Sem questionar um ápice esta fodida situaçom. Sem importar que em nome da “saúde pública” quebraram nossa saúde mental, e coma muito, figeram cada vez mais difícil a sobrevivência do nosso dia a dia.

A Santa “Verdade”

Anteriormente quando se nos queria fazer crer em algo, impor-nos uma fé ou submeter-nos ao desígnio dum amo era necessário a biblia na mão e a espada na outra, hoje não mudaram tanto as coisas, só mudou a biblia pelo argumento “científico” em boga, sem faltar o garrote e o fuzil quando este não basta. Hoje em dia a visom positivista recalcitrante que antepõe a nova fé “científica” tenta fazer-nos ver que além das suas verdades (temporárias e transitórias) não há mais verdade, e qualquer outra espécie de interpretaçom ou análise que não esteja certificado pelos institutos ou não fosse validado nos “papeis” científicos carece de valor e deve-se descartar à primeira.

Talvez o pensamento científico ou, melhor dito, o que têm validado as instituiçons burguesas e posto esse selo, deveria ser a base para reger, controlar e gerir nossas vidas, como se fôssemos sujeitos dum experimento, sem mais, simples cobaias com as que se executa o disciplinamento social, o controle e os diferentes projetos de dominaçom sobre nós?

Entom, por que deveriamos atopar que os desígnios sanitários do Capital agora são neutros se partem duma concepçom burguesa do que é a higiene, a previdência e a saúde do corpo humano? Desde quando a OMS, a instituiçom da ciência, os hospitais e a indústria farmacêutica são os aliados da humanidade?

Neste sentido é necessário entender que a situaçom atual é uma continuaçom do que começou nas origens do Capital: separar ao ser humano de seu próprio corpo e de seu ser coletivo, negando-lhe a subsistência primeiro, e depois, negando-lhe o controle de si mesmo; isto é, criando instituiçons para domesticar sua saúde física e mental, para desenvolver em nós a dependência aos órgãos de poder, como se fôssemos becerros precisados do pastor que nos leve a pastar. Baixo a ditadura do Capital, nossos corpos não nos pertencem.

Bendito seja o Controle Social

O melhor exemplo de manejo da crise do coronavirus é o que se desenvolveu em vários países de oriente, em especial na China, tendo como desculpa a doença, deu-se corda solta ao aparelho repressivo e de vigilância que desde fai anos se aperfeiçoou naquele país; primeiro para ocultar o desenvolvimento da doença e depois para “contê-la”, fazendo ênfase em tratar como delinquentes a toda a povoaçom, submetendo-na a uma quarentena extrema, toques de queda e controis suigéneris, como nos existentes nos filmes de ciência fiçom.

Se não fosse isso já catastrófico, o pior de tudo é que a opiniom pública mundial não demorou em aplaudir ditas medidas e pô-las como exemplo de contençom da pandemia. Exacto, os aplaudidores descerebrados ocultam as detençons políticas, assassinatos e o maquilagem de cifras por parte daquele país, além do ocultamento de informaçom e a lavagem de cara das instituiçons repressivas.

Conquanto essas medidas de contençom foram consideradas um tanto “extremas” pelas democracias ocidentais, isto não foi impedimento para sua implementaçom em vários países do planeta, desenvolvendo o duplo discurso do polícia bom e mau: “não atuamos com tanta repressom como na China, por isso sente-te afortunado e fica na casa… ou multamos-te ou encarceramos-te” (ou assassinamos-te, faltou-lhes dizer).

O “Mea Culpa” do Proletariado mundial

Por outro lado, a fórmula mais fácil da contençom e que tem sido provada quantidade de vezes é redirigir a culpa ao proletariado, já seja que se diga que a extensom desta crise é por sua falha de compromisso por sair das suas casas e não acatar a normalidade em pandemia, ou por não ser o suficientemente cauteloso, responsável e civilista ao não se pôr um cubrebocas as 24 horas do dia.

Ao final de contas, o alarmismo reacionário nas redes sociais virou-se em culpar e assinalar à vizinha que sai de sua casa ou organiza festas, à pessoa que não usa um trapo na boca ou ás que se aglomeram nos mercados a comprar seus insumos. Como se este feito fosse o centro do problema, deixando de lado que a responsabilidade desta situaçom e a forma em que se obriga à gente a se relacionar é graças à estructuraçom do Capital, e não depende da eleiçom de nenhum indivíduo, nem grupo social.

Agora bem, deve ficar claro que muito apesar da idealizaçom da contençom e da idiota crença de que as medidas sanitárias som as fórmulas mágicas que nos vam salvar a vida, a realidade da circulaçom mercantil e as relaçons capitalistas fam impossível manter-se a resguardo de qualquer vírus ou doença. Ainda mais, conquanto a infeçom de qualquer vírus não é um feito excepcional, senão a consequência do desenvolvimento da vida orgânica na terra, não devemos descartar que a geraçom de patogénicos e sua extensom estám estreitamente relacionados ao modo de produçom. A devastaçom da terra somado à contínua deterioro da vida das proletárias mais a dinâmica de circulaçom de capital são o caldo de cultivo das doenças que se expandem pelo mundo desde fai já vários séculos.

Ademais, há que remarcar que por mais que fosse “nosso desejo” ficar ilhadas em casa, o proletariado não tem a vida garantida, é obrigado a vender-se como mercadoria, e a circular como tal no espaço público. Está obrigado a fazer seu consumo de produtos nos lugares onde lhos vendam a menos custo, ainda que estes espaços estejam abarrotados, está supeditado a realizar trajetos em transporte público, porque não tem de outra, e o pior de tudo, ninguém tem a capacidade de suportar o isolamento de forma sã e os exercícios e atividades que pretendem substituir a atividade física e social da povoaçom com alternativas virtuais tarde ou cedo terminam em fracasso total.

A ilógica lógica do Capital

Até agora qualquer análise que se tenha feito sobre a pandemia só tem recalcado cifras, mortes, políticas públicas, medidas de controle e alarmismo até não poder mais. Em nenhum momento, desde fai vários meses, houvera alguma voz de importância que falara sobre a relaçom desta crise sanitária com a estrutura política e social dentro da economia do Capital. E é óbvio que nunca vai ocorrer. Neste, como em tantos outros temas, os propagandistas da ordem burguesa lavarám-se suas mãos e dirám que “a culpa não é do sistema, senão da gente”.

Agora bem, como é que desde o Capitalismo se respondeu a esta calamidade para além das glorificadas medidas de controle social, para além das cuarentenas, das mascarilhas e das garrafas desinfetantes? Bem, pois tristemente não se fijo nada sinificante, e se se crê que medidas à desesperada (e à vez ao mesmo tempo botadas em falha) como uma vacina são a soluçom a este problema, estamos certas de que muitas mais morrerám esperando a sua vacina, e que de feito esta nem sequer garantirá a volta à “normalidade”, nem melhorará um ápice as já de per se fodidas condiçons de existência da maioria da povoaçom mundial. No terreno da economia (do Capital) pensaria-se que foi um ano catastrófico para o mercado, a indústria e as finanças. Assim é como o expressam os noticieros e outros fala-baratos. No entanto, as cifras atuais revelam que a produçom de matérias primas obtivo um medre histórico, as operárias da indústria estão a prolongar seus horários de trabalho, bem como as empregadas de telecomunicaçons, farmacêuticas e outros seitores. Algo que a simples vista parece contradizer as intençons dos governos de “ficar na casa”, quando está a ser todo o contrário para a gente trabalhadora em geral.

A quantidade de benefícios é o milhor que lhe ocorreu ao Capital nos últimos anos, um efeito contrário ao que a “lógica” diria. Durante esta pandemia quem têm quebrado não são os grandes conglomerados empresariais, senão só as proletárias que vivem ao dia e as pequenas comerciantes que tinham sua fé posta no caprichoso deus dos negócios.

Mas seria reducionista dizer que todos os seitores da produçom e dos serviços tiveram sua reponta, nesta crise como em tantas outras houvo seitores afetados, como por exemplo as tendinhas locais, os bares, gimnásios e comércios que dependem do serviço direito a clientes. Mas como bem sabemos, na economia capitalista, enquanto umhas se derrubam outras erguem-se onipotentes no palco mundial.

Assim mesmo, é evidente que ditos acontecimentos são as sinais dum novo reajuste económico ou reestruturaçom. Algo que podemos constatar se tomamos como base os períodos de crises e decadência da economia capitalista de finais do século XIX e princípios do XX. Confirmando que só a dinâmica de guerra para reventar forças produtivas, sendo remplazadas por outras, possibilitou a reconfiguraçom da produçom e a valorizaçom de mercadorias, brindando-lhe nova vida ao cadáver da economia mundial.

Antagonismo e debilidades do Proletariado

Algo curioso que se vem desenvolvendo na última década é a influência mediática que exercem os grupos de fundamentalistas cristãos, conservadores e neonazis que estám multiplicado sua retórica conspiracionista seudo crítica. Dando a aparência de que essas minorias ridículas são a “oposiçom” à ordem estabelecida.

Bem sabemos que esses discursos estão plagados de fantasías retorcidas onde seres viles como os Bildenberg, Soros e os Rockefeller enfrontam-se a seus príncipes azuis como Trump, os cristãos alvos, e até o governo russo! Para além de seus delírios, devemos compreender que estes grupos e sua propaganda é mais que nada outra forma de expandir a confusom entre nossa classe.

Seu suposto discurso crítico é só uma conveniência, sua crítica à “nova ordem mundial” só se limita a assinalar aos burgueses das “filas liberais”, deixando como uns santos aos burgueses conservadores e retrogradas. Não está a mais dizer que estes sujeitos na pandemia são protagonistas do negacionismo, e têm ido para além pretendendo jogar o papel de cidadás “rebeldes” pela liberdade. Sim, pela liberdade de reabrir seus negócios e seus centros de esparcimiento para regressar a sua normalidade anterior.

E como era de se esperar, a resposta a este tipo de contestaçom conservadora veio de parte da cidadania, igual de conservadora, mas sumida na dependência do discurso oficial. O qual tem jogado um papel extraordinário no âmbito das possibilidades de superar esta situaçom; pois se te enfrentase ao discurso e a razom dominante não és mais que um “conspiranoico”, para assim afundar no pântano do discurso oficial e validar as medidas de repressom, a imovilidade da luta proletária e a aceitaçom das condiçons de miséria existentes.

Cabe mencionar que inclusive muitas colegas que se autoproclamam antagonistas, anarquistas e críticas ao Capital, foram presas num começo do terrorismo mediático que, a inícios deste ano, apresentou ao vírus e a pandemia como os “monstros inimigos da humanidade”, calando psicologicamente e reforçando a atmosfera de medo, incerteza e terror. Resultou irónico que, depois de anos de prédica anti-estatal, agora se secundava o discurso e o acionar do Estado, exortando tamém a “nos ficar na casa” e fechar filas para obedecer as medidas sanitárias ditadas pela OMS.

A questom diante este feito não é enfrascar-nos num burdo jogo de ver quem é mais ultra ou mais “radical” ante o problema. Do que se trata é entender que se uma teoria (neste caso, uma teoria radical adversa ao Estado e ao Capital) deve ser rejeitada ante o primeiro obstáculo da realidade que lhe sae ao passo, entom não serve.

Sabemos que a velocidade com que avançou o atual processo não tem precedentes desde fai décadas, polo que se fai impossível digeri-lo e entende-lo no imediato. Não tanto, nossa percepçom nunca pode partir da razom nem da lógica do nosso inimigo de classe. A estas alturas onde são mais vissíveis as contradiçons e falácias do Capital e sua pandemia, já não há justificaçom num reprego e consenso à ditadura sanitária que impôs o Capital.

Sobre a Luita Proletaria em tempos de contençom

Como já se tem remarcado, a situaçom da pandemia tem sinificado um deterioro nas condiçons de vida do proletariado, já seja que por um lado tenha seitores obrigados a aumentar sua jornada de exploraçom, bem como do outro muitas proletárias terminaram nas filas do desemprego.

A isto se soma que o mesmo trabalho a distância ou a escola virtual tamém reforçaram o feito de que só umas quantas tenham a possibilidade de adaptar-se às bruscas mudanças que se implementam baixo este modo de produçom. No entanto, nem sequer quem contam com as ferramentas necessárias para cumprir com os desígnios do tele-trabalho ou da tele-educaçom salvaram-se da deterioraçom física e mental que isto ocasiona. E não é que reivindiquemos o trabalho e a educaçom da “velha normalidade”, senão que fazemos finca-pé no aumento da moral do autosacrificio até reventar.

Mas contrário ao que se pensaria isto tamém tem provocado que grupos proletários, com todo e a cuarentena em cima, tomem as ruas e se despreguem em frente às forças da ordem, não porque “regresse a normalidade” senão pola fome e a vida de merda à que nos têm submetidas desde muito dantes da pandemia. A doença tem intensificado as revoltas em resposta aos assassinatos da polícia nas ruas ou polos controis abusivos que impedem que sequer se poida obter umas moedas para a sobrevivência, disparando-se o racismo e a misoginia estrutural. Tendo claro que tendo ou não pandemia, nossas vidas estám marcadas pola violência duma ordem assassina e desumana.

Ante este clima de crispaçom, onde nossa classe alça-se contra seus inimigos de sempre, ainda com todas as medidas de submissom “voluntária”, pregonar o “fica na casa” é contribuir a reforçar este desastre amorfo e contraditório gerido pela classe dominante, porque inclusive vai para além de consensuar o poder militar e controle social que exerce o Estado. É aceitar toda a estupidez e ignorância à que estamos a ser submetidoa, implicando a nos voltar umas panópticas delatoras, cidadás paranoicas defensoras da pulcritude e a pureza onde qualquer pessoa conhecida ou desconhecida funge como inimiga por ser uma possível agente infecciosa… em soma sua pandemia adverte-nos que “todos são o inimigo”. O “Fica na casa” é negar a responsabilidade do único e verdadeiro culpável que é o Capital e os Estados. É de feito, reforçar a atomizaçom e o isolamento, um salve-se quem poida desde a individualidade, para que com o encerro permaneçamos passivas e expectantes, aterroradas e castradas em corpo e mente.

É importante e necessário fazer desde já, uma ruptura com a razom dominante, para avançar e reconstruir a luta em comunidade, mesmo mermada neste processo. O Capital não cairá por si só e retroceder nos momentos de maior necessidade é sinônimo de aceitar que não há mais esperança que a que nos queiram outorgar nossos inimigos. E para além das vazias discussons sobre como seria óptimo gerir esta miséria, de nossa parte seguiremos negando-nos a aceitar as supostas alternativas e preferimos propor a resposta a isto secundando os brotes de raiva onde se apresentem, promovendo a conjunçom autónoma de classe, lutando sem fazer concessons. Assinalando que devemos permanecer na perspectiva de revoluçom social mundial para acabar duma vez por todas com esta infâmia assistida.

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Para descárrega e/ou leitura do original (em castelám):

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