A Taberna do meu tio Tonho… se hoje existira.

Na taberna do meu tio Tonho cada qual bebia do que ele lhe punha. Policarpo, “Poli”, um seu cliente que andava em tratas com portugueses da outra beira da raia, trouxera-lhe um dia de agasalho um desses azulejos sobre o fundo branco com provérvios típicos do país vizinho que ele mesmo encargara a um mestre azulejista da Vila Nova de Gaia com a seguinte lenda:

E tal que assim era:

Quando o ribeiro branco escasseava, tocava beber do tinto e vice-versa. Quando isto se passava já podia pôr-se túçaro algum cliente, que se nom queria do tinto, havia água abondo no rio. Mais de um desses “bebedores de passo” provara as águas frias de inverno tras queixar-se do erro na cor do vinho que lhe pedira ao meu tio Tonho, quem nom lhe tinha muito miramento para quem nom assumia seu peculiar manejo do negócio.

Nom era doado enfadar ao meu tio Tonho, quem sempre presumia de ter um bom beber e de que por isso se figera taberneiro. Coma ele dizia: “Eu som meu milhor cliente e do que eu trasfego, bebe minha gente”. De feito a sua clientela habitual, essa sua peculiar coorte de cavaleiros desarmados, já estava de volta das teimas do Tonho e tal qual fazia ele, trasfegavam da cunca á gorja sem olhar a cor do vinho que lá caera em primeira instância do pipote à jerra, e de segundas núpcias, da jerra à cunca.

Havia anos que seus clientes assumiram com vaga disciplência os vaivéns aleatórios do meu tio dum pipote a outro coa jerra baleira para enche-la dum ou doutro líquido segundo onde pararam seus incesantes abaneios. Suas derivas pola sua taberna faziam-se mais longas e maiores quanto ele mais bebia e embriagava co passo das horas e a medida que o Sol avança inexorável cara poente. Alguns clientes seguiam-lhe cos seus olhares impacientes percorrendo os surcos que o Tonho ia deixando sobre esse cham sempre cuberto de serraduras. Ao final de cada jornada as pegadas do meu tio Tonho semelhavam mapas de novas rotas na busca dum tesouro nunca atopado.

Num mal ano, no que as suas cepas de cainho bravo foram atacadas polo míldio e isso provocara escasez do tinto, fora quando aparecera por vez primeira um pipote de Ribeiro clarete que até entom por nenhures nunca tal se vira.

Tal coma meu tio digera ao apresentar tal pócima a sua clientela: “tantotem que nom seja branco nem tinto, sua mistura dá clarete, que tanto vale para mitigar as penas coma para dar carrete”

À taberna do meu tio Tonho e as suas maneiras, de seguir existindo agora, valeria de bo exemplo para explicar porque agora autoridades de todas partes aconselham misturar Pfizer com AstraZenecas ou Jansen com Modernas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s