Se me casas, esquéce-te de mim! Um berro de hoje duma menina de La Montanha (Guerrero, México)

As pessoas que vivemos imersas numas sociedades da Europa cristã, que se crê o faro da humanidade, estamos afeitas a escutar vozes críticas e airadas contra do machismo exarcebado nas práticas muçulmanas atuais coma consequência duma sua cultura que tildamos de patriarcal. A obrigatoriedade de seus véus, desde o simples hiyab até as terríveis burkas, causam nojo e arrepios entre ateias e cristãs; os haréns e mesmo os matrimónios de conveniência pautados polos pais, seguem escandalizando ás europeias de bem deste século XXI.

Estas tristes realidades inegáveis som argumentos de peso para políticas xenófobas e para extender ódios entre gente muito católica e apostólica que se crê muito superior em ética e costumes porque presuntamente isso já há tempo que já nom se passa nas nossas sociedades europeias de origem cristã e mesmo lá onde nossos ancestros foram “evangelizar” e redimir as indígenas a golpe de cruzes e de arcabuzes.

Pois bem, hoje chegou este texto a mim… Está escrito por uma moça de La Montanha do oficialmente denominado Estado Libre y Soberano de Guerrero, conhecido polas turistas europeias polas suas famosas praias de Acapulco; uma zona que fora “evangelizada” por frades agustinos. Nesta regiom habita a meirande parte das atuais indígenas guerrerenses: nahuas, mixtecos e tlapanecos.

Recolho, traduço e colo da web do Centro de direitos humanos da Montaña, Tlachinollan:

Como meninas indígenas da Montanha nunca imaginaríamos que após os 12 anos encontraríamo-nos a um passo para nos casar. Nossos pais nunca nos dim nada sobre o que pensam de nós, porque consideram que som temas que só se tratam entre os maiores. Apesar de que já me tocou ir à escola, lembro que muito pouco praticáva com as minhas amigas, sobre que íamos fazer ao terminar a primária. A verdade, só pensavamos em jogar e fazer o que nossas nais nos mandavam. Lembro que uma companheira me digera “se meu pai me quer casar, melhor vou-me ir da casa”. A essa idade ainda não lhe atopava sentido ao que me dizia. Minha mestra de sexto ano, várias vezes digera-nos que seguíssemos estudando, que saíssemos do povo para que não fôssemos sofrer, como nossas nais. Quando via que fazíamos bem a tarefa, chamava-nos para perguntar-nos se tínhamos família em Tlapa, porque lá poderiamos estudar a secundária. Notava-se que nos queria mais que aos meninos. Nesse tempo éramos 54 de sexto; 34 do grupo A e 20 do grupo B. Meninos eram 32 e nós 22.

Para nossos pais o mais importante é rematar a primária porque lhes interessa muito que falemos bem o espanhol, ainda que nos esqueçamos do nosso idioma. É o único estudo que nos dam, sobretudo às mulheres. Querem que aginha lhes ajudemos a trabalhar no campo e que casemos a temporã idade. Quando não há suficiente terreno para sementar, várias famílias vam-se trabalhar como jornaleras agrícolas a Sinaloa ou a Chihuahua, durante seis meses. Som contados os pais que querem fazer o sacrifício para que alguém da família sega estudando a secundária fora do povo. Para eles é muita despesa, porque não há quem lhes contrate no campo. Por isso vários moços se organizaram para ir de jornaleiros, mas como o dinheiro não atinge, agora se estám a ir a New York. Pedem prestado e com o que juntam em Sinaloa, contratam um “coiote” e lançam-se sem medir os perigos. Só a eles foi-lhes bem no povo, porque com os dólares que ganham, podem comprar a sua camioneta e construir a sua casa.

Uma minha curmã casou fai coma quinze anos com um paisano que chegou de New York. Têm duas meninas e um menino. Sua vida é muito triste por culpa de seus pais. Ela fala-me de que quando seu esposo bebe, sempre lhe pega. Ofende-na e diz-lhe que se juntou com ela, por culpa de seu pai. Recorda-lhe que pagou dinheiro para que se casaram. Por isso sente-se com direito de malhar nela. Fai uns meses decidiu-se a sair de sua casa com suas 3 menores para refugiar-se no domicílio de seus pais. Pediu o apoio para que a síndica do município pudesse intervir. Sua maior desilusom foi quando a síndica deu-lhe a razom ao seu esposo, e que, além a pressionara pára que regressara com ele. Em lugar de apoiá-la culpou-na de que seus filhos sofressem as consequências da sua rebeldia. Um familiar animou-na a não desistir e foram diante o juiz de paz. Apesar de que foi atendida, a família do esposo chegou com o comissário para declarar contra ela. A mesma sogra pujo-se de exemplo, comentou que seu esposo batia nela e que não pode fazer nada porque seus pais receberam dinheiro por ela. Com esse argumento reclamou-lhe que não tinha direito a se queixar. O juiz, em troques de proteger os direitos de minha curmã, cedeu em favor do esposo, recebendo dinheiro de por médio. O problema complicou-se porque o comissário citou aos pais e aí os homens encarregaram-se de reganhar a minha prima e a obrigá-la de que regressara a sua casa. Tivo a amarga experiência de que nem a autoridade da comunidade nem do município a defendessem. O pior de tudo é que regressou com seu agressor, porque não há quem a proteja, muito menos encontrou alguma oportunidade para refazer a sua vida num outro lugar. O que mais me dói, é que como mulher não podo fazer nada por minha prima, porque já o vivemos com outros casos que se apresentaram ante o ministério público. Aí é pior, porque não te atendem, e mais bem te maltratam quando escutam que não falas espanhol. Aí a justiça sai cara porque tens que pagar um advogado particular ou dar-lhe dinheiro ao ministério público para que te faga caso. De todos modos, não serve de nada, porque todo se arranja com dinheiro e as mulheres atopamo-nos desabrigadas e pobres.

Graças a minha tia pude estudar a secundária em Tlapa. Custou-me muito sair de minha comunidade, porque tivem que me enfrentar várias vezes a meu pai. Ele é muito machista. Não me fazia caso quando lhe dizia que não ia aceitar que recebesse dinheiro para que eu me casasse. Não gostava de meus comentários. Mais bem fazia-me enojar. Em várias ocasions demonstrou-me que o faria e que pediria até 200 mil pesos. Pujo-me a prova e não tivem outra que lhe dizer “vais deixar entom que malhem em mim? Para isso queres o dinheiro? Com que cara me vas defender se antes recebeste dinheiro por mim?” Minha nai escutava em silêncio e era minha aliada. Em todo momento aconselhava-me pára que estudasse. Punha-se como exemplo “olha filha queres viver como eu? Tes-te que levantar muito cedo para pôr o nixtamal, para moer e fazer as tortilhas. Ti já o sabes, lembra-te de quando te levava ao campo com o almorço. Tamém há que trabalhar no cerro. É duro ser uma mulher de campo, sobretudo quando não sabes ler nem falar o espanhol. Ninguém te vai defender. Por isso quero que lhe botes ganhas ao estudo”.

Valeu a pena a luita que dim com meu pai, lembro muito bem quando uma vez me dixo “não vou permitir que alguém te pegue. Se o fai te iria defender e trazer a minha casa”. Sentim que suas palavras saíam de seu coraçom, porque eu conheço a meu pai. Não cabe dúvida que tomou á sério o que lhe dizia e pouco a pouco fum convencendo-lhe. Quando saím a estudar a secundária e a preparatoria em Tlapa, minha vida deu um giro. Sentim que se abriu meu horizonte, porque ademais sentim-me capaz de estudar uma carreira. Perdim o medo e adquirim maior seguridade sobre o que eu queria fazer com a minha vida. O melhor que me passou na universidade é que me ajudaram a revalorizar a minha cultura e a minha língua, reafirmaram a minha identidade e em troques de me envergonhar de minha terrinha sentim-me mais orgulhosa, e compreendim que os costumes das comunidades som importantes, porque é a melhor maneira de defender com força nossos direitos como povos. A licenciatura em desenvolvimento comunitário da UPN ajudou-me a localizar a situaçom de dominaçom que padecemos as mulheres indígenas. Não é possível que nossos pais nos obriguem a casar a temporã idade e que nos neguem a oportunidade de estudar. Tamém se perverteu o costume que dantes tinha, de levar um presente para que um embaixador fosse em nome da família a pedir a mão da noiva. Agora tudo se quer arranjar com dinheiro. Bem como na cidade o dinheiro manda, tamém querem que no povo seja assim. As mulheres não somos mercadorias, por mais obedientes e respeitosas que sejamos dos costumes do povo. Não podemos suportar mais esta violência dos homens, muito menos que denigrem a nossa vida e que o álcool e o dinheiro os embruteça, para ser vítimas de crimes de ódio, e para que sigam desangrando nossas vidas por tanta crueldade e indolência das autoridades.

Quando lhe dixem a meu pai “se me casas esquece-te de mim!”, sento que lhe mudei a vida. Não só por ser a sua única filha, senão porque me viu decidida a não obedecer-lhe nem a respeitar o costume dos senhores. Chegar a este extremo não foi fácil. Agradeço-lho a minha mãe e a minha mestra de sexto ano, quem depois confio-me que tinha deixado a seu esposo, porque não permitiu que a golpeara. Fijo que me orgulhasse quando me dixo que, dos 54 estudantes da geraçom do 2003, só eu terminei os estudos de licenciatura. Entristecim-me quando uma ex companheira de sexto de primária comentou-me no povo “quem poidera ser coma tu que seguiste estudando. Vê-se que tens uma outra vida. Eu casei aos 13 anos e agora tenho 6 filhos. Aqui no povo sofre-se muito. Tens que te levantar cedo, trabalhar todo o dia, sem ganhar dinheiro e acima de tudo, suportar ao marido”.

Hoje entendo que como meninas indígenas seguimos sendo reféns de práticas comunitárias que truncam nosso futuro como mulheres livres e autónomas. Somos tamém a eslabom mais frágil dum sistema patriarcal que cosifica e mercantiliza nossa vida como mulheres. Somos reféns duma justiça estatal misógina que nos condena por defender nossos direitos, que fai escárnio do nosso sofrimento e que é corresponsável da violência feminicida, pola impunidade que impera e a colusom que existe com os perpetradores.

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