A GUERRA DE UCRÂNIA.- Uma nova idade geopolítica x Ignacio Ramonet

Recolho e traduço da web de Le Monde Diplomatic en español esta opiniom autoria de quem é seu diretor, o redondelá filho de republicáns nascido em maio de 1943, criado em Tânger, onde sua família se instalara por volta de 1948, fugindo do franquismo, e desde 1972 reside na França. Ignacio Ramonet, escritor, jornalista, geopolitólogo, sociólogo, semiologista,… e cofundador da ONG Media Watch Global (Observatório Internacional de Meios) da que é presidente, publicou esta sua reflexão em 1 de março:

O 24 de fevereiro de 2022, data do início da guerra na Ucrânia, marca a entrada do mundo numa nova idade geopolítica. Atopamos-nos diante uma situação totalmente nova na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial. Ainda que houvera neste continente, desde 1945, muitos acontecimentos importantes, como a queda do muro de Berlim, a implosão da União Soviética e as guerras na antiga Jugoslávia, nunca tínhamos assistido a um evento histórico de semelhante envergadura, que muda a realidade planetária e a ordem mundial.

A situação era evitável. O presidente russo Vladímir Putin levava várias semanas, se não meses, instando a uma negociação com as potências ocidentais. A crise vinha-se intensificando nos últimos meses. Houvo intervenções públicas frequentes do líder russo em conferências de imprensa, encontros com mandatários estrangeiros e discursos televisados, reiterando as demandas da Rússia, que na realidade eram muito singelas. A segurança dum Estado só se garante se a segurança doutros Estados, em particular aqueles que estão localizados nas suas fronteiras, está igualmente respeitada. Por isso Putin reclamou com insistência, a Washington, London, Bruxelas e Paris, que se lhe garantisse a Moscovo que Ucrânia não se integraria na Organização do Tratado do Atlántico Norte (OTAN). A demanda não era uma excentricidade: a petição consistia em que Kiev tivesse um status não diferente ao que têm outros países europeus, tais como Irlanda, Suécia, Finlândia, Suíça, Áustria, Bósnia e Sérvia, que não fazem parte da OTAN. Não se tratava portanto de evitar a “ocidentalização” da Ucrânia senão de prevenir sua incorporação a uma aliança militar formada, como se sabe, em 1949, com o objetivo de se enfrentar à antiga União Soviética e, desde 1991, à própria Rússia.

Isto implicava que Estados Unidos e seus aliados militares europeus não instalassem no território da Ucrânia, país fronteiriço com Rússia, armas nucleares, mísseis ou outro tipo de armamento agressivo que pudesse pôr em perigo a segurança de Moscovo. A OTAN –uma aliança militar cuja existência não se justifica desde o desaparecimento, em 1989, do Pacto de Varsóvia– argumentava que isto era necessário para garantir a segurança dalguns de seus Estados membros, como Estónia, Letónia, Lituânia ou Polónia. Mas isso, obviamente, ameaçava a segurança de Rússia. Lembre-se que Washington, em outubro de 1962, ameaçara com desencadear uma guerra nuclear se os soviéticos não retiravam de Cuba seus mísseis –instalados a 100 milhas da costa de Estados Unidos–, cuja função, em princípio, era só a de garantir a defesa e segurança da ilha. E Moscovo finalmente teve que se inclinar e retirar seus mísseis. Com estes mesmos argumentos, Putin reclamou aos chefes de Estado e premiês europeus uma mesa de diálogo que contemplasse suas reivindicações. Simplesmente, tratava-se de assinar um documento no que a OTAN se comprometesse a não se estender a Ucrânia e, repito, a não instalar em território ucraino sistemas de armas que pudessem ameaçar a segurança de Rússia.

A outra demanda russa, tamém muito atendível, era que, como ficou estabelecido em 2014 e 2015 nos acordos de Minsk, as populações rusofalantes das duas “repúblicas populares” da região ucraniana do Donbás, Donetsk e Lugansk, recebessem protecção e não ficassem à graça de constantes ataques de ódio como desde fai quase oito anos. Esta demanda tampouco foi escutada. Nos acordos de Minsk, assinados por Rússia e Ucrânia com participação de dois países europeus, Alemanha e França, e que agora vários analistas da imprensa ocidental exprobram a Putin ter dinamitado, estava estipulado que, no marco duma nova Constituição da Ucrânia, concederia-se-lhes uma ampla autonomia às duas repúblicas autoproclamadas que recentemente foram reconhecidas por Moscovo como ”Estados soberanos”. Esta autonomia nunca lhes foi concedida, e as populações rusofalantes destas regiões seguiram suportando o assédio dos militares ucraninos e dos grupos paramilitares extremistas, que causaram umas catorze mil mortes…

Por todas estas razões, existia um ânimo de justificada exasperação no seio das autoridades russas, que os líderes da OTAN não conseguiram ou não quiseram entender. Por que a OTAN não teve em conta estes repetidos reclamos? Mistério… Muitos observadores consideravam que a negociação era uma opção viável: escutar os argumentos de Moscovo, sentar em torno duma mesa, responder às inquietudes russas e assinar um protocolo de acordo. Inclusive falou-se, nas 24 horas que precederam os primeiros bombardeios russos do 24 de fevereiro, dum possível encontro de última hora entre Vladímir Putin e o presidente de Estados Unidos, Joseph Biden. Mas as coisas precipitaram-se e ingressamos neste detestável cenário de guerra e de perigosas tensões internacionais.

Desde o ponto de vista da armadura legal, o discurso de Putin na madrugada do dia em que as Forças Armadas russas iniciaram a guerra na Ucrânia tratou de apoiar-se no direito internacional para justificar sua “operação militar especial”. Quando anunciou a intervenção sustentou que, “baseando[-se] na Carta das Nações Unidas” e tendo na conta a demanda de ajuda que lhe formularam os “governos” das “repúblicas de Donetsk e Lugansk” e o “genocídio” que se estava a produzir contra a população rusofalante destes territórios, tinha ordenado a operação… Mas isso é apenas uma roupagem jurídica, um arcabouço legal para desculpar o ataque a Ucrânia. Por suposto, trata-se claramente duma intervenção militar de grande envergadura, com colunas coiraçadas que penetraram na Ucrânia por quanto menos três pontos: o norte, para perto de Kiev; o este, por Donbás; e o sul, para perto de Crimea. Pode-se falar de invasão. Ainda que Putin sustenta que não será uma ocupação permanente da Ucrânia. O mais provável é que Moscovo, se ganha esta guerra, trate de instalar em Kiev um governo que não seja hostil aos seus interesses e que lhe garanta que Ucrânia não ingressará na OTAN, além de reconhecer a soberania das “repúblicas” do Donbás na totalidade da sua extensão territorial, porque quando começou o ataque russo, Kiev controlava ainda uma parte importante desses territórios.

Se não se produz uma escalada internacional, o mais provável é que o vencedor militar desta guerra seja Rússia. Por suposto, neste tema há que ser muito prudente, porque se sabe como começam as guerras, mas nunca como rematam. A diferença de poderio militar entre Rússia e Ucrânia é tal que o provável ganhador, quanto menos num primeiro tempo, será sem dúvida Moscovo. Desde o ponto de vista económico, pola contra, o panorama é menos claro. A bateria de brutais sanções que Estados Unidos, a União Européia e outras potências lhe estão a impor a Moscovo são aniquiladoras, inéditas, e podem dificultar, por décadas, o desenvolvimento económico da Rússia, cuja situação neste aspecto é já particularmente delicada. Por outro lado, uma vitória militar nesta guerra, se é rápida e contundente, poderia dar-lhe a Rússia, a suas Forças Armadas e a seus armamentos um grande prestígio. Moscovo poderia consolidar-se, em vários teatros de conflitos mundiais, em particular em Oriente Próximo e no Sahel africano, como um aliado indispensável para alguns governos autoritários locais, como principal provedor de instrutores militares e, sobretudo, como principal vendedor de armas.

Tudo isto fai mais difícil entender por que Estados Unidos não fijo mais para evitar este conflito na Ucrânia. Esse é um ponto central. Que ganha Washington com este conflito? Para Biden, esta guerra pode contribuir uma distração mediática respeito de seus objectivos estratégicos. Sua situação não é fácil: leva um ano de governo mediocre em política interna, não consegue sacar adiante no Congresso seus projectos, não consegue uma melhora palpável das condições de vida após a terrível pandemia da covid-19 nem uma correção das desigualdades… E, em política exterior, segue mantendo algumas das piores decisões de Donald Trump e tem dado uma série de passos em falso, como a precipitada e calamitosa retirada de Kabul… Pode que isto o tenha levado a procurar não comprometer com uma estratégia mais decidida para evitar uma guerra na Ucrnia que se via vir… O resultado é que Estados Unidos e as demais potências da OTAN poderiam perder Ucrânia, que afastarîa-se da sua esfera de influência.

A posição de Washington resulta tanto mais surpreendente quanto que seu grande rival estratégico, neste século XXI, não é Rússia, senão China. Por isso este conflito está envolvido, em certa maneira, num ar passado de moda, um ressaibo da Guerra Fria (1948-1989). Quiçá um dos objectivos de Washington seja afastar a Rússia da China implicando a Moscovo num conflito na Europa, com a intenção de que China não se poida apoiar na Rússia enquanto Estados Unidos e seus aliados da ASEAN (Associação de Nações da Ásia Sudoriental) e da AUKUS (aliança estratégica militar entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos) aproveitam para acossar a Pequim no mar da China Meridional. Quiçá a isso se deve que, neste conflito da Ucrânia, China se tenha mostrado prudente: não reconheceu nem apoiou a soberania das duas “repúblicas populares do Donbás”. Pequim não deseja oferecer um pretexto a outras potências para que elas reconheçam, a sua vez, a independência de Taiwán. Ainda que tamém poderia ocorrer que, apesar das enormes diferenças, China se inspirasse na decisão russa de invadir Ucrânia para conquistar Taiwán. Ou talvez Estados Unidos aproveite a guerra na Ucrânia para argumentar que China dispõe-se a invadir Taiwán e desencadear um conflito preventivo com China. São hipótese, porque o único verdadeiro é que a História se voltou a pôr em marcha e a dinâmica geopolítica mundial está-se a mover.

A posição da União Européia tem sido débil. Emmanuel Macron, que atualmente é o presidente pró tempore da União Européia, não conseguiu nada com suas gestões de último momento. Em vésperas da guerra, a ideia sobre a que se mobilizaram tanto os líderes políticos como os meios de comunicação ocidentais foi dizer-lhe a Putin que não figera nada, que não desse um passo mais, quando o razoável tivesse sido, repito, analisar suas demandas e sentar a negociar para garantir-lhe a Rússia, dalguma maneira, que a OTAN não ia instalar armas nucleares nas suas fronteiras. Num primeiro tempo, o governo europeu que atuou de maneira mais inteligente foi o da Alemanha, com seu novo chanceler, o social-democrata Olaf Scholz, à cabeça. Desde o começo, mostrou-se favorável a que se estudassem as demandas de Putin. Mas, assim que começou a guerra, a postura de Berlim mudou radicalmente. A recente decisão de Scholz, adoptada por unanimidade no Bundestag, o Parlamento federal, de rearmar Alemanha mediante a atribuição ao orçamento militar duma partida excepcional a mais de cem bilhão de euros e, a partir de agora, quase o 3% do PIB do país, constitui uma revolução militar. O rearme da Alemanha, primeira potência económica da Europa, traz péssimas lembranças históricas. Constitui uma prova mais, espectacular e aterradora, de que estamos a entrar numa nova idade geopolítica.

Por último, seguimos perguntando-nos por que Estados Unidos e as potências ocidentais não aceitaram dialogar com Putin e responder a seus reclamos, sobretudo sabendo que não poderiam intervir em caso de conflito militar. Isto é importantíssimo. Lembre-se que, na sua mensagem de anúncio do início da guerra, Vladímir Putin enviou uma advertência clara às grandes potências da OTAN, em particular às três que contam com armamento nuclear –Estados Unidos, Reino Unido e França–, recordando-lhes que Rússia “tem certas vantagens na linha das armas de última geração” e que ataca-la “teria consequências devastadoras para um potencial agressor”.

De que “vantagens na linha das armas de última geração” trata-se? Moscovo tem conseguido, nos últimos anos, ao igual que China, uma vantagem tecnológica decisiva sobre Estados Unidos em matéria de mísseis hipersónicos. Isto fai que, no caso dum ataque ocidental contra Moscovo, a resposta russa pudesse ser efectivamente devastadora. Os mísseis hipersónicos vão a uma velocidade cinco ou seis vezes superior à velocidade do som, ou seja a Mach 5 ou Mach 6, a diferença dum míssil convencional, cuja velocidade é de Mach 1. E podem transportar tanto bombas tradicionais como nucleares… Estados Unidos leva acumulado um importante atraso neste campo, a tal ponto que recentemente Washington obrigou a várias empresas fabricantes de mísseis ( Loocked Martin, Raytheon, Northrop Grumman) a trabalhar de maneira conjunta e destinou um  colosal orçamento para recuperar seu atraso estratégico com respeito a Rússia, que se calcula dentre dois e três anos. Mas por enquanto não o conseguiu. Os mísseis hipersónicos russos, calculando a trajectória, podem interceptar os mísseis convencionais e destruí-los dantes de que atinjam seu objectivo, o que permite a Rússia criar um escudo invulnerável para se proteger. Em câmbio, os escudos antimísseis convencionais da OTAN não tenhem esta capacidade contra os hipersónicos… Isto explica por que Putin decidiu ordenar a intervenção militar sobre Ucrânia com a segurança de que uma escalada por parte da OTAN era muito improvável.


Prévio, em teleSUR, em 25 de fevereiro, Ignacio Ramonet fora entrevistado pola jornalista Patricia Villegas na que expressava esta mesma sua opinião.

Acá tendes o vídeo da mesma:

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