A “Esquerda” e seu triste papel na guerra de Ucrânia x Juanlu González

Juanlu González, é um ativista pola paz, anticapitalista e antimperialista, que desenvolve parte da sua tarefa contrainformativa como analista experto em conflitos do Meio Oriente e Norte de África, ainda que tamém aborda outros espaços geográficos. Mantém seu próprio blogue Bits Rojiverdes “en el corazón de la resistencia” desde o ano 2000, e na atualidade lá está volcando as suas impressons sobre a guerra na Ucrânia. Agora deito acá (traduzido) este seu artigo publicado no sábado passado

Marcuse, em 1964, alertava da perda da capacidade revolucionária em ocidente por causa do triunfo das medidas repressivas, postas em marcha polas sociedades industriais avançadas, para fazer calar qualquer tipo de dissidência inteletual através dos meios de comunicaçom, a publicidade, a propaganda e o consumismo mais desaforado. Por aquele entom anunciava o nascimento do Homem Unidimensional, um indivíduo sem capacidade crítica, extremamente dócil e maleável ao desejo dos poderosos.

Apesar do tempo decorrido, este processo nom tem vindo a menos. Todo o contrário, desde a segunda metade do século passado, tenhem-se refinado os sistemas de controle e dominaçom social até extremos inimagináveis que escandalizariam ao filósofo e sociólogo alemám. A cidadania européia já nom está nem se lhe espera à vanguarda de nada. O grau de decadência, de submissom, de acomodaçom ao pensamento dominante é tal, que nom existe pensamento crítico e qualquer tipo de dissidência inteletual é esmagada de imediato polo próprio Sistema, mas tamém por uma inteletualidade, que antanho jamais esteve unida ao Poder e que hoje é seu mais útil instrumento.

Nestes dias, com a guerra de Ucrânia, estám a aparecer como fungos, articulistas e tertulians, cuja missom é precisamente atacar os redutos de livre-pensamento que podem ficar na esquerda européia e espanhola. Som do tipo da inteletualidade orgânica que acha que seu discurso está muito acima do defendido polo resto dos mortais e que, além, pretende gozar duma superioridade moral indiscutível, ainda que nom deixam de ser mais que correias de transmissom dum unidimensionalismo decadente, pobre e enfermiço. Armados de lugares comuns, de linguagem vácuo e toneladas de infantilismo naíf e bonachom, carregam seu totalitarismo pseudodemocrático contra qualquer tipo de dissidência, máxime quando se trata da esquerda, à que consideram sea coto privado de caça.

Mas, apesar de tudo, sim que subsiste a duras penas uma esquerda orgulhosa de sê-lo, sem complexos, livre-pensante, que se sobrepom ao argumentário mediático dominante e trata de pôr em cima da mesa a luz da razom em frente à cegueira emocional, que é onde os propagandistas bélicos situam a contenda, para evitar assim qualquer tipo de análise que lhes estrague a campanha propagandística que tam cuidadosamente pugeram em marcha. Como dizia Fidel, o grande objectivo que perseguem os que manejam o relato é fazer perder a capacidade de pensar à opiniom pública mediante a geraçom de reflexos condicionados. E a fé que o estám a conseguir.

A guerra psicológica, parte indisolúvel das guerras de IV geraçom, requer justamente do uso intensivo da propaganda e da mentira para dirigir pensamentos e condutas como método de controle social “pacífico”. Fora Winston Churchill quem digera que “em tempos de guerra, a verdade é algo tam precioso que deve ser cuidada por um guarda-costas de mentiras”, ainda que já SunTzu, na sua Arte da Guerra, lá polo 500 a.C. dizia que “toda a guerra está baseada no engano”. No entanto, nossos intelectualoides de esquerda, parece que ainda nom se inteiraram de como funcionam estas coisas. Quiçás precisem outros dois mil mais quinhentos anos para cair na conta…

Walter Lippmann inicialmente, seguido depois por Hartman e Chomsky, definiu o consenso —ou o consentimento— manufaturado coma um arma de controle da opiniom pública, em sociedades nominalmente democráticas, para que suas povoaçons se deixem dirigir polas classes dirigentes baixo a aparência duma aparente confluência de discursos, objectivos e interesses. A fase de fabricaçom do consenso, fai-se absolutamente necessária dantes do início de qualquer conflito bélico, sobretudo naqueles que podem exigir certos sacrifícios às povoaçons implicadas. Temos chegado a um ponto onde as guerras de hoje já nom começam quando se dispara o primeiro tiro, senom no momento no que o primeiro jornal carregado com propaganda contra o futuro inimigo sai da rotativa.

Estar penetrado pola propaganda de guerra, tê-la interiorizada, equivale a apoiar sem fisuras a contenda para a que tem sido preparada, ainda que o conceito de guerra em si mesmo nos poida resultar rejeitável desde o ponto de vista inteletual ou moral. Daí que tenhamos visto a esquerdistas ou a pacifistas pedindo atuar militarmente por exemplo, contra Gadafi, por estar massacrando —falsamente— a sua povoaçom, ainda que pediam cándidamente que as bombas fossem arrojadas por exércitos árabes, porque fazer um chamado à OTAN para essa laboura lhes podia gerar certa rejeiçom ou dissonâncias cognitivas insalváveis.

A guerra da OTAN contra Rússia na Ucrânia tem acabado por abrir e rasgar as costuras de boa parte da esquerda européia, até o ponto de que tem mostrado seu verdadeiro ser e sua adscripçom sem fisuras ao bloco atlantista. Alguns autores indicam que, singelamente, já nom há verdadeira esquerda no Velho Continente. Seja como for, a esquerda acomplejada européia parece ignorar uma série de questons bem claras e incontestáveis:

  • Apesar de que a invasom a Ucrânia é responsabilidade última de Rússia, o agressor estratégico prévio é Estados Unidos com sua política expansiva da OTAN, que tem colisionado com os requerimentos de segurança expressados reiteradamente por Rússia para assegurar sua sobrevivência num contexto de guerra fria que jamais tem cessado de existir desde 1947.
  • Moscovo tem todo o direito a defender à povoaçom russa do Donbass, agredida desde 2014 polo regime saído do golpe de estado fascista do Maidan, organizado por EEUU e a UE.
  • Ucrânia, dopada com armas ocidentais preparava-se para uma guerra total contra Donetsk e Lugansk desde finais do 2021, os documentos apreendidos à Guarda Nacional, demonstram que a primeiros de março produziria-se a invasom.
  • Está escrito que Washington procurava uma guerra de desgaste em Ucrânia contra Rússia desde 2019 (RandCorporation), essa guerra tamém estava prevista polo governo da Ucrânia como declarou numa entrevista Arestovich, o principal assessor e porta-voz de Zelensky.
  • As violaçons do alto o fogo de Ucrânia monitoradas pola OSCE em fevereiro de 2022, sugeriam um «abrandamento» a bombaços das linhas da frente do Donbass dantes de proceder a uma ofensiva por terra. Conhecendo este cúmulo de feitos provados, o alinhamento com as políticas de EEUU, a OTAN e Ucrânia sinifica apoiar conscientemente um verdadeiro genocídio russo na regiom, que é precisamente o que estava a ponto de suceder.

Tem caído pois Rússia numa armadilha? Essa é a tese que defendem alguns autores. O relatório da Rand, analisando as variáveis possíveis de sua estratégia intervencionista, afirmava que se corria o perigo de que a açom de resposta russa à intençom de tomar o Donbass por Kiev nom se circunscreviera às províncias hoje secessionistas, senom que se estendesse por outras regions d Ucrânia e que adicionais perdas territoriais permanente supusessem um descrédito para Estados Unidos como potência instigadora da contenda.

Ainda fica muito por ver, mas é possível apontar que ao Donbass se lhe vam a somar outras repúblicas e que, observando a evoluçom positiva do rublo em frente ao dólar, Rússia vai ganhando tamém a guerra económica. Ao final é possível que nom vai sair tam debilitada do embate como tinham planificado. Neste sentido, ainda que Rússia nom tivesse mais opçom que tomar a decisom que tomou, apesar de que soubesse que tampouco era uma boa soluçom, quiçá consiga inclusive sair airosa do trance.

Mas bom, para nossos analistas orgânicos falar deste tipo de coisas equivale a ser um «filho de Putin», como o é mencionar os laboratórios de armas de destruiçom em massa biológicas achados na Ucrânia. Uns laboratórios do Pentágono que, por certo, nossa imprensa livre qualifica de «supostos», ainda propositalmente de que têm sido reconhecidos polas autoridades norte-americanas como coisa do Pentágono. Por menos disso Estados Unidos e outros países da OTAN têm lançado invasons com milhons de mortos direitos e indireitos.

Outra coisa que molesta, e muito, à esquerda ou ao movimento pacifista é que se nomeie a natureza neonazi do regime surgido do golpe do Maidán. Já podem se citar uma récua de ministros, de governadores, de militares ou de batalhons de ideologia nazista, que sua única resposta é a de minusvalorar sua força e influência. Dá igual que Reuters ou Amnistia digam que há mais de 20 batalhons na Guarda Nacional, que som mais de 100.000 paramilitares ou que suponham quase a metade do exército ucraniano. Dá igual que alguns países os considerem como grupos terroristas ou que tenham em seu ter multitude de crimes de guerra documentados. Dirám que é um invento russo para justificar uma invasom e que coisas parecidas podem suceder inclusive em Espanha e que ninguém nos invade por isso. Seu acomodo ao argumentário atlantista, seu síndrome de Estocolmo é absoluto, reconheçam-no ou nom. Por certo, algo comum desde as esquerdas parlamentares até a extrema direita de toda Europa, que têm condenado sem fisuras tanto a Rússia como a Putin em primeira pessoa.

Em seus contraataques sempre argumentam que somos nós os que estamos imbuídos da propaganda russa. Pretendem equiparar a capacidade de ocidente de domínio do relato com a que pode ter Moscovo que seria como equiparar o 98% da imprensa do mundo com um escasso 2% que, ademais está censurado por lei. Aos meios russos tem-se-lhes expulsado das ondas, dos satélites e baneado nas redes sociais, na que é a operaçom de censura mais brutal que tem conhecido no mundo contemporâneo e em frente à qual, a esquerda sistémica tem mantido um atronador silêncio cúmplice que pagará em suas carnes num futuro próximo.

A maior parte dela parece ignorar que se joga no solo ucraniano. Nada mais e nada menos que a chegada duma nova ordem mundial, que a derrota da OTAN poderia acelerar. A queda do império norte-americano, o surgimento de novas alianças políticas, económicas e militares… em definitiva um mundo multipolar onde o poder se reparta de maneira mais colegiada e democrática. Onde poidam surgir espaços de liberdade para que muitos países, de forma soberana, poidam se organizar livremente à margem dos ditados do Capitalismo e suas imposiçons militares. Onde se deixe de ouvir que tal ou qual Sistema é o melhor dos possíveis, simplesmente porque jamais deixaram que existissem outros. A tirania mundial da informaçom, do Capitalismo, do dólar, da hegemonia cultural, em definitiva do unidimensionalismo marcusiano, vam ser arrojados ao desaguadouro da história. Já puidemos comprovar como a malfadada comunidade internacional era só uma ilusom propagandística que nom representa nem ao 25% da povoaçom mundial.

Sabíamos positivamente que este momento chegaria, mas tamém pensávamos que nom conseguiríamos ve-lo em pessoa. Neste louco mundo, muito do que achávamos que era para sempre está chamado a desaparecer a curto ou médio prazo. Ucrânia —e Rússia— sofrem as dores de parto dessa nova ordem mundial, assim o quis Estados Unidos e a OTAN, que gostam de jogar suas guerras em solo alheio.

Claro que, se resulta que a esquerda européia prefere a atual ordem mundial unipolar estabelecido por Estados Unidos que o que poida estar por vir, esquecendo-se inclusive dos seis milhons de mortos provocados polo Império depois do 11S ou de quem tem iniciado mais dum 80% dos conflitos mundiais acontecidos desde 1945 até hoje, é que tenhem um grave problema e deveriam de fazer-se-lo olhar.

Provavelmente é que já fai muito que mudaram de bando…

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