[Porto] 28 e 29 de Maio.- Jornadas Anarquistas do Livro e da Autoprodução: MANIFESTO e PROGRAMA

Entre os dias 28 e 29 de Maio decorrerá, no Porto, um encontro de saberes e fazeres, cujo guia seja o espírito «faz tu mesma», colaborativo, e o sonho libertário, rebelde, duma terra livre de deuses e amos.

Mais do que a «habitual» feira do livro, que – claro – desejamos que aconteça, queremos um lugar onde seja visível o salto da teoria para a prática, um espaço de produções variadas, da comida ou da bebida ao artesanato, passando por coisas que nem nos atrevemos a imaginar.

Queremos ver, entender, aprender e difundir projectos práticos que permitam romper com a teia capitalista, o modo de vida tradicional e nos permitam acreditar que é possível viver de outra maneira. Construindo e criando formas alternativas de suprir as nossas necessidades mais básicas.

Aprofundemos as cumplicidades que são os alicerces das redes e difundamos as nossas formas de viver, pensar, estar e fazer.

MANIFESTO das Jornadas Anarquistas do Livro e da Autoprodução

«Para se discutir livremente deve-se arrebatar tempo e espaço aos imperativos sociais. Em suma, o diálogo é inseparável da luta. É inseparável materialmente (para falarmos devemo-nos subtrair ao tempo imposto e agarrar os espaços possíveis) e psicologicamente (os indivíduos adoram falar daquilo que fazem, pois só então as palavras transformam a realidade).»

Ai Ferri Corti

Nestes 3 anos desde o último Encontro Anarquista do Livro do Porto temos a impressão de que o mundo inverteu os seus polos. Desde a “crise” pandémica, que justificou e agravou a crise “endémica” do capitalismo, à recente mobilização militarista dos impérios decadentes, parece ser difícil encontrar pontos de referência e momentos de discussão que fujam à polarização imposta a partir de cima.

Momentos como este demonstram, mais uma vez, a necessidade do debate contínuo entre indivíduos que partilham um mesmo projecto, uma mesma vontade, um mesmo ideal (apesar das diversas formas que ele possa assumir). Um debate que fuja à artificialidade do digital, principal responsável pela degradação da capacidade de análise (e pela consequente propagação de um consenso estéril), pela presente leviandade do que é dito e pela auto-suficiência activista por trás de um ecrã.

Neste mundo que avança a passos largos para a completa desmaterialização da vida e onde os significados das palavras são constantemente manipulados na tentativa de apagar qualquer vestígio de um pensamento minimamente crítico, impõe-se a questão de fazer ou não sentido despender energia a organizar mais um Encontro Anarquista do Livro. Para nós a resposta é óbvia.

Porque continuamos a reconhecer a palavra escrita e impressa como parte de um arsenal a explorar, o livro como algo com potencialidade de nos abrir um vasto campo de debate que vai para além da discussão efémera e fútil das redes sociais modernas e do imediatismo da opinião formatada pela propaganda mediática.

Porque através da leitura continuamos a encontrar, no passado e no presente do “sonho anarquista”, centenas e centenas de exemplos de companheiros e companheiras que nos inspiram e nos mostram que, apesar de todas as adversidades, sempre fomos capazes de desenvolver uma crítica e prática antiautoritárias contra este mundo, de planear o assalto aos céus, sem nunca pedir autorização a nada nem ninguém. Exemplos inspiradores de quem pensou e agiu enquanto havia quem esperasse o amadurecimento das condições ideais!

Tendo como pressuposto a recusa da espera pelas ditas condições e valorizando, de certo modo, a criação de alternativas práticas que nos permitam sobreviver no sistema vigente no imediato, decidimos nesta edição alargar o Encontro do Livro a projectos de autoprodução. Projectos que vão desde a autonomia alimentar à impressão, mostrando que a vontade de emancipação se pode traduzir em opções válidas mesmo nos tempos sombrios que vivemos.

No entanto, somos conscientes que projectos baseados meramente num impulso de autonomia em relação ao mercado têm por definição certos limites e que podem, até mesmo, representar apenas uma solução confortável para criar somente mais um novo estilo de vida, deixando intacta toda a estrutura de dominação existente. Nesse sentido, o nosso objectivo ao incluir a questão da autoprodução é encontrar os pontos onde a vontade de autonomia e a necessidade de revolta e subversão se tocam.

Assim, vemos estes 2 dias como um espaço de debate claro entre companheiros e companheiras e como momento público de divulgação desse amplo espectro de ideias e práticas que constitui o “espaço anarquista” e o define como o movimento de negação multiforme para a subversão da ordem social e pela apropriação das nossas próprias vidas.

Estas Jornadas Anarquistas do Livro e da Autoprodução são, pois, uma tentativa de arrancar tempo e espaço ao quotidiano do poder, de os definir nos nossos próprios termos, de criarmos um momento de contágio. Um momento de encontro e debate pela criação de novas afinidades rebeldes e de reforço de laços antigos entre companheiros e companheiras, na esperança de acabarmos estes dois dias com motivações renovadas para enfrentar os tempos difíceis que já cá estão.

PROGRAMA

Sábado – 28 de Maio

10h00 – Abertura

11h00 – Oficina

ACAB – A Cerveja Anda Bem, pela Coop. da Bicha das 7 Cabeças

11h00 – Conversa/Apresentação

União Libertária

12h30 – Abertura da Exposição “A pegada de Anar”

“Nunca existiu aquilo de que não há memória (ou é como se não tivesse existido). Por isso há aqui lugar a uma pequena mostra, mesmo que não exaustiva nem sistemática, da presença libertária nos acontecimentos e espaços do Porto (mas não só), sobretudo nos últimos 50 anos.

13h00 – Almoço

14h00 – Conversa/Apresentação

Apresentação do livro “Mancomunidade. Uma terra livre sem estado”, com Joám Evans Pim. Editora Ardora

16h00 – Conversa/Apresentação

Bairro ocupado em Gasteiz

18h00 – Conversa/Apresentação

Apresentação do livro “Identidade Equivocada”, do académico americano de origem paquistanesa Hasad Haider, a cargo dos companheiros que traduziram e editaram o livro. Neste livro, Haider traça, para além de outras coisas, uma historiografia do termo “política de identidade” e da sua aplicação à luta social. Pretendemos com esta apresentação animar um debate sobre os seus limites e contradição com o projecto anarquista. Editora Locus Horrendus

20h00 – Fecho

22h00 – Concerto – Casa do Salgueiros

Focolitus – https://soundcloud.com/focolitos

Os Barbosas – https://soundcloud.com/osbarbosas

Os Selektors – https://soundcloud.com/luis-seabra

Flor Tecla Negra – https://www.facebook.com/people/Flor-Teclas/1238466204/

Gaitas da Ínsua a Terras dos Montes

Domingo – 29 de Maio

10h00 – Abertura

11h00 – Conversa/Apresentação

Novo Circo e Circo Social no Chile e no Porto, uma conversa de ações comunitárias e autogeridas através das artes, como ferramentas para a transformação cultural e social, com o colectivo EKUN

13h00 – Almoço

14h00 – Conversa /Apresentação

Apresentação do livro “La locura rev/belada. Narrativas, experiencias y saberes encarnados”, com Miguel Salas Soneira. Editora Ardora

16h00 – Conversa/Apresentação

Anarquismo, animação e luta popular, com Zé Paiva (Terra Viva)

18h00 – Conversa/Apresentação

Apresentação do número 9 da revista Flauta de Luz, com Júlio Henriques

A revista Flauta de Luz vai para o seu nono volume, continuando empenhada nas suas temáticas centrais (a crítica da tecno-industrialização da sociedade, a presença das culturas indígenas). Neste n.º 9 é dado destaque à guerra na Ucrânia, através da posição anarquista e pacifista, abordando-se também a viagem zapatista pelo território português, o caso Julian Assange, a Internet como motor do capitalismo, o colapso da modernização. Mantém-se o espaço dedicado à intervenção poética e ficcional e às notas de leitura, e inclui-se um caderno a cores dedicado à obra do pintor e escultor Artur Varela. Entre os participantes neste número estão Jorge Leandro Rosa, Phil Mailer, Charles Reeve, Ailton Krenak, Bruno Lamas, M. Ricardo de Sousa, sendo de destacar o ensaio de Langdon Winner sobre «A complexidade tecnológica e a perda da acção».

20h00 – Fecho

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