Irmãs trans, obrigada por fazer-me melhor feminista x Patricia Simón

Patricia Simón, reporteira trans-fronteiriça especializada em direitos humanos e enfoque de género, escreveu ontem mesmo este seu texto no site de La Marea em resposta aos discursos exteriotrizados por supostas feministas durante suas ponéncias no foro Política feminista, libertades e identidades, do que falei na minha anteiror entrada desta minha bitácora. Cópio (traduzo) e colo (respeitando suas negrinhas):

   Sylvia Rae Rivera e Marsha P. Johnson, cofundadoras de STAR ( Street Transvestite Action Revolutionaries)

As mulheres trans som as mais esmagadas polo patriarcado precisamente porque som as que mais desafiam sua misoginia ao lutar contra vento e maré por ser o que som realmente: mulheres. Por isso, elas serám sempre minhas primeiras colegas e irmãs como feminista.

Feminismo é a radical defesa da igualdade de direitos de todos os seres humanos. Feminismo é eleger estar do lado e ao serviço da luta das mais apaleadas, discrimi­nadas, violadas, assassinadas e ninguneadas pelo patriarcado, o capitalismo, o clasismo e o racismo. Porque esses som nossos inimigos como feministas. Em consequência, minhas colegas de viagem elegidas som as mulheres trans –as mais desprezadas polos misóginos–, as mulheres migradas e racializadas –a mão de obra mais esclavizada polos racistas–, as mulheres lesbianas e bisexuais –as consideradas suspeitas por quase todos e que, por isso, inclusive sofrem violaçons corretivas em numerosos países–, e as mulheres empobrecidas, porque sobre suas costas recaim todas nossos privilégios. E todas aquelas mulheres e homens que ousem ataca-las som, por tanto, os inimigos do feminismo. Porque quando estas pessoas dirigem seu ódio contra as mulheres em situaçons mais precárias e vulneráveis, se convertem em depredadores, encarnam o Sistema a abolir.

Muitas das feministas jovens que estávamos em desacordo com algumas das que nestes dias têm proferido insultos contra as mulheres trans –“E digo tios porque som tios” ou “Há muitos problemas com isto do género que se substância com um bom conhecimento da moda”, têm dito entre burlas e gestos chabacanos num congresso feminista– levávamos anos guardando silêncio ante sua soberba, prepotencia e cesarismo por respeito a suas contribuiçons no passado à luta feminista. Inclusive, como em meu caso, quando deram a ordem à pessoa que dava os turnos de perguntas num de seus encontros de nom ma voltar a dar após que lhes perguntasse por que, se tanto se importavam com as vítimas de trata, apoiavam a um governo –naquele momento, o de Zapatero– que sustentava políticas de extrangeiria que forçava às mulheres africanas a migrar mediante as redes de trata; ou quando gente desses círculos pediu o boicote aos meios que nos publicaram artigos nos que analisamos as diferenças entre a trata com fins de exploraçom sexual e a prostituiçom. Calamos por respeito a nossas maiores, por deferencia, por educaçom. Mas até aqui.

Se vocês nom admitem que haja feminismos diversos, permitam-me dizer-lhes que seu feminismo, com suas risas histriónicas e ataques jactanciosos às mulheres trans, às mulheres que lutam como jabatas por ser quem som e ter umas condiçons de vida menos desumanas, é qualquer coisa menos feminismo: é machismo, é clasismo, é aporofobia, é despotismo, é supremacismo e, sobretudo, é qualquer coisa menos a tam cacareada –e ausente de sua prática– sororidade.

As feministas nom teremos conseguido nada enquanto as mulheres e homens trans, bisexuais, lesbianas, gays e queer nom tenham absolutamente os mesmos direitos que as mulheres cis mais privilegiadas. Enquanto, só estaremos a perpetuar um sistema de castas baseados nos privilégios de umas a costa da discriminaçom e exploraçom de outras.

Aterrorizam-me tanto os risos dessas palestrantes e de seu público sobre as mulheres trans como a irrupçom de Inés Arrimadas e os membros de Cidadanos na manifestaçom do Orgulho de Madrid procurando a imagem de vítimas, após que se negassem a assinar um manifesto que exigia que nom se pactara com os neofascistas que consideram às pessoas do colectivo LGTBIQ+ subhumanas, desviadas, um perigo para o bem-estar de seus filhos e filhas, descartaveis, em definitiva.

Aterram-me mais as burlas e gestos despreciativos destas senhoras que mil autocarros de Hazte  Oir ou mítines de Vox. Porque deles nom esperávamos nada mais que veneno misógino e lgtbfóbico. Mas nom delas, de quem durante um tempo pensávamos que estavam de nosso lado, ainda que fosse com diferenças. Com suas mofas, têm deixado claro que nom nos querem a seu lado. E sobretudo, já nom nos deixaram outra opçom que admitir em público, ainda que custe, que nosso lugar nom está ao seu carom.

Irmãs trans, mais alto e claro que nunca: com vocês sempre, graças a vocês sempre, obrigada por ter-nos ensinado tanto sempre. No desprezo que vocês acordam em determinados sectores, é onde melhor vê-se o ódio, a perversidade e a vileza do patriarcado. Sem a aprendizagem que temos legado de vossa luta, nosso feminismo nom seria tam liberador, transgresor, amoroso nem revolucionário. E como me disse uma vez Mar Cambrollé, presidenta da Associaçom de Transsexuais de Andaluzia, «fizemos uma revoluçom em tacons, com o lábios pintados e as plumas ao redor dos ombros». Quanto se perdem as que nom se querem pôr em vossos sapatos, as que nom se querem subir a vossos tacons. Desde aí, o mundo é muito rico, diverso, technicolor e apetecível. Obrigada por presentear-nos essas vistas. Queremos-vos. Obrigada.

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