[Afeganistão] “Não todas as mulheres que usam o hiyab estám oprimidas” x Boushra Almutawakel

Dando continuidade a iniciativa de dar-lhe voz a mulheres muçulmanas para falar sobre a crise política, humanitária e a violaçom de direitos humanos que vive atualmente o povo afegão, recolho (e traduço) a entrevista da jornalista de BBC Mundo, Fernanda Paul a Boushra Almutawakel desde Dubái, onde vive na atualidade junto a sua família.

Boushra Almutawakel, fotógrafa yemení, autora da colagem de fotografias (2010) que se voltou agora viral, 11 anos depois, baixo a lenda “desaparecimento” nas redes sociais apôs a irrupçom dos Talibãs a Afeganistão. Seu enorme impacto surpreendeu à própria autora, considerada uma defessora dos direitos das mulheres e pioneira no mundo muçulmano: “passei de ter 1.500 seguidores a 20.000 em dois dias, é uma loucura”.

Boushra Almutawakel nascera no Iémen, em 1969, e depois estudara em Estados Unidos e fora durante esta sua época universitária que se interessara na fotografia. Agora reconhece ter “sentimentos encontrados” ao respeito da sona acadada. Conquanto alegra-se de que seu trabalho tenha repercussom no mundo, acha que tem sido mau interpretado e utilizado como uma forma de criticar ao islã e o uso do véu (ou hiyab). Na entrevista aclara qual é a verdadeira mensagem por trás da sua obra.

– Suas fotografias, especialmente a série “Mãe, filha e boneca”, foram amplamente compartilhadas nas redes sociais nos últimos dias. Qual é a mensagem por trás deste trabalho?

– É um comentário sobre a misoginia patriarcal. O medo, o controle e a intolerância. Que será suficiente para que estes extremistas aceitem às mulheres; quantas capas serám necessárias? Porque sentes que com o único que serám felizes é com que elas estejam fora da vista.

Eu venho de Iémen, que é um país que sempre tem sido muito conservador. No entanto, desde os anos 80 em adiante produziu-se a influência do wahabismo, de Arabia Saudita, e eu sentim pessoalmente que se estava a voltar demasiado extremo.

E para mim isso nom tem nada que ver com o islã. Dantes, os véus eram coloridos. A cada aldeia tinha seu próprio véu. Nalgumas vilas as mulheres nem sequer cobriam-se a cara.

Eu nom estou em contra do hiyab. Se fosse assim, teria partido minha série com uma mulher em bikini. Mas onde diz que uma menina de 5 anos deve-se cobrir o cabelo?

É como se a cultura fora bem mais forte que a religiom. Há muitas coisas maravilhosas sobre nossa cultura, mas a parte misógina, a extremista, isso de cobrir completamente às mulheres, esconde-las, usa-las como propriedade, nom é parte do islã.

– Mas algumas pessoas utilizam suas fotografias para criticar ao islã em geral. Como toma isso?

– Definitivamente é um mau uso e uma tergiversaçom, porque esta série de “mãe, filha e boneca” é parte de meu trabalho como mulher muçulmana, como árabe, como uma mulher iemenita que usa o hiyab.

Quando eu regresso a casa (ao Iémen), ponho o hiyab. Tenho recebido tanto ódio, em particular por parte das mulheres árabes que me dizem que estou na contramão do islã e do hiyab.

E esse era o medo que eu tinha de exibir meu trabalho em Ocidente, porque inclusive algumas pessoas da direita têm usado meu trabalho para mostrar como as mulheres islâmicas estám a ser oprimidas.

E meu trabalho nom é sobre o islã, é sobre o extremismo. Trata-se da misoginia patriarcal, que nom só se encontra no mundo muçulmano e árabe, está em todas partes.

Tem sentimentos encontrados sobre a repercussom de sua obra?

– Sim. Estou feliz de que a gente esteja a ver meu trabalho, mas estou um tanto molesta porque é como se a gente usasse meu trabalho para respaldar uma mensagem que têm que dizer.

Os muçulmanos e os árabes pensam que vou por Ocidente, que estou na contramão do islã. Mas estám a usá-lo mau e tergiversam-no.

E eu não estou a falar polas mulheres afegãs. Elas podem falar por si mesmas. Acho que a gente deve escutar e nom falar no seu nome.

E isso é o que se passa com Ocidente. Sei que é por boa vontade, mas tamém queremos salvar-nos a nós mesmas e temos vozes. Ocidente nom pode seguir falando por nós.

As mulheres afegãs precisam falar. E estou segura de que o farám. Elas têm vozes, som fortes.

– Entom que papel deveria ter Ocidente nas crises que golpeiam a alguns países como Afeganistão?

Ocidente nom precisa salvar-nos. E, em todo o caso, Ocidente destruiu-nos. Os talibãs foram criados por Estados Unidos para que pudessem lutar contra os soviéticos.

E deixaram-lhes os talibãs ao povo afegão. Quem os precisa? Que classe de mundo é este? Oxalá Ocidente mantivera-se fora de nossos países, incluído o meu. Têm destruído Méio Oriente em todos os aspetos.

– Preocupa-lhe que o que está a passar em Afeganistão incremente ainda mais a islamofobia no mundo?

– Por suposto. E claro que o faz. Mas a islamofobia existe com ou sem os talibãs, vem desde o 11 de setembro de 2001.

E se nom existissem os talibãs, procurariam outra coisa para alimentar esta propaganda de como o islã é o mau. Muito disto tem que ver com a ignorância e o medo, por desgraça, e a incomprensom.

Que quis provocar com a série ” What if…” (E se…), que mostra a um homem utilizando uma burka?

Nom estava a tentar provocar nada. Enquanto estava na universidade, em Estados Unidos, passei por uma etapa religiosa e usei o hiyab durante um ano.

Lembro que quando era verão eu estava sentada aí, suando, e via aos jovens árabes muçulmanos de pantalom curto… e pessoalmente nom fazia sentido para mim. De modo que tirei-mo [o véu].

Entom aí pensei: e como seria isto ao revés? Que fossem os homens os que tivessem que usar o hiyab. Era uma pergunta irrealista que quis a traduzir através de fotografias.

Lembro que exibim a série numa exposiçom no Museu Nacional, em Iémen. E para minha grande surpresa, a muitas mulheres encantou-lhes. E acho que quase todos os homens o odiaram.

Lembro ter tido uma briga com um médico que estudou em Estados Unidos. Ele me perguntava: que estás a tratar de dizer? Que os homens deveriam ser mulheres? Estás a questionar o que disse Deus? Tomou-no demasiado á sério.

“Deixem-nos em paz!”

– Você viveu na França vários anos, um dos países que tem proibido o uso da burka publicamente. Como foi essa experiência?

É muito contraditório. Seu lema é a igualdade, liberdade e fraternidade mas a realidade é outra coisa.

Muçulmanos som uma minoria, estám marginados. E focam-se nas mulheres, elas som as mais marginadas, as mais vulneráveis, é como uma forma de extremismo, mas na outra direçom.

Parece-me horrível, inclusive mais horrível porque Ocidente tem sido educado na modernidade, sobre a base da liberdade e a liberdade de expressom. Mas nom é verdade. Simplesmente nom é verdade.

E que opiniom tem sobre o intenso debate que provoca o uso do véu?

– Nom nos estamos a centrar nos problemas reais. Às mulheres sempre se lhes diz que fazer, se pôr o hiyab ou quitar-lho, ser delgadas, ser jovens… Deixem-nos em paz!

Olha o que é a indústria do maquilhagem e do peso. Os milhares de milhons de dólares que há aí. E as mulheres submetem-se a cirurgias plásticas e morrem-se de fome para ser delgadas. Essa é também uma forma de opressom.

Muitas das mulheres que se cobrem som médicas, políticas, escritoras, advogadas ou artistas. E som fortes. Nom porque se cubra sua cara ou seu corpo se lhe cobre o intelecto.

Algumas pessoas em Ocidente vêem a uma mulher com véu e imediatamente assumem que está oprimida e precisa ser salva. Mas nom todas as mulheres que usam o hiyab estám oprimidas. E nom estou a falar polas mulheres afegãs, senom polas iemenies e por mim.

– Preocupa-lhe o atropelo dos direitos das mulheres com o arribo dos talibãs em Afeganistão?

Sim claro, tenho medo como todos os demais. As coisas que têm sucedido no passado, mulheres às que lhes disparam, sacam-nas da escola, deixam-nas sem trabalho, assassinam, som muito horríveis.

Qualquer forma de fundamentalismo, de extremismo, onde nom há espaço para a flexibilidade, para a discussom, para o diálogo, é muito aterradora.

No entanto, acho que estamos a viver um momento diferente, porque agora temos telefones celulares e redes sociais e nom podem sair-se com a sua como costumavam fazer.

Tamém acho que desta vez muitas mulheres lutarám mais. Têm tido 20 anos duma melhor vida, e som fortes, ambiciosas e capazes. Tenho fé nelas.

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